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A partícula que ninguém vê: microestrutura do pellet pode decidir consumo, moela e retorno em frangos

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Leopoldo Malcorra de Almeida, da Seara, defendeu que macroestrutura e microestrutura precisam caminhar juntas para que o processamento da ração gere retorno real na avicultura.

A microestrutura do pellet, aquela partícula que ninguém vê quando avalia apenas a aparência da ração, pode decidir consumo, moela, pH, desperdício e retorno em frangos. Esse foi o ponto mais forte da palestra de Leopoldo Malcorra de Almeida, da Seara, durante a 36ª Reunião Anual do CBNA, ao tratar da melhoria de processo de fabricação na avicultura.

De acordo com Leopoldo, moagem, expansão e peletização promovem alterações físicas e químicas na dieta, com efeitos sobre ingestão, digestão, motilidade, permeabilidade e absorção. O retorno econômico, portanto, não depende apenas de produzir um pellet “bonito” na saída da peletizadora, mas de entregar ao frango uma estrutura física que favoreça consumo e preserve partículas funcionais dentro do alimento.

Consumo começa no bico, não no relatório da fábrica

Um dos argumentos centrais apresentados por Leopoldo foi o comportamento alimentar da ave. Segundo o palestrante, mecanorreceptores no bico detectam tamanho, textura e forma das partículas antes da ingestão, influenciando a seleção do alimento. Como a ave tem capacidade limitada de compensação e não consegue aumentar indefinidamente o número de bicadas, o peso da partícula consumida por bicada se torna decisivo para a ingestão diária.

Pellet aumenta consumo, mas não resolve tudo sozinho

De acordo com os exemplos apresentados na palestra, a peletização pode elevar o consumo. Em uma comparação mostrada por Leopoldo, a ração peletizada aumentou o consumo de ração em 10,8% em relação à farelada, com efeito semelhante no consumo calórico. A ração farelada aparecia com consumo de 1.902 g, enquanto a peletizada chegava a 2.108 g no recorte apresentado.

O palestrante também destacou o efeito da forma física no desperdício. Em um dos slides, a ração farelada apresentou perdas entre 26,7 e 31,6 g/kg de ração consumida, enquanto formas trituradas ou peletizadas ficaram entre 1,9 e 3,8 g/kg. A leitura técnica é clara: o pellet pode aumentar ingestão e reduzir desperdício, mas esses ganhos só se sustentam se a qualidade física chegar efetivamente ao comedouro e se a microestrutura não for sacrificada durante o processamento.

Macroestrutura não pode destruir microestrutura

Leopoldo diferenciou macroestrutura e microestrutura. A macroestrutura envolve forma física, diâmetro, comprimento, dureza, durabilidade e qualidade aparente do pellet. A microestrutura se refere ao tamanho das partículas dentro do pellet, depois que a ave consome a ração. Segundo o palestrante, é essa partícula interna que conversa diretamente com a funcionalidade do trato gastrointestinal.

Nos dados apresentados, a faixa de 800 a 1.200 micrômetros apareceu como referência desejável para estimular funcionalidade. Em um exemplo, o peso da moela aumentou de 20,0 g para 41,5 g conforme o tamanho de partícula subiu de 336 micrômetros para 1.120 micrômetros. No mesmo eixo conceitual, o pH da moela caiu de 3,82 para 2,87. Segundo a interpretação apresentada, partículas mais grossas podem favorecer desenvolvimento da moela, produção de ácido clorídrico, digestão mecânica e ambiente gastrointestinal mais funcional.

O risco do pellet perfeito por fora

O alerta mais forte da palestra foi que peletização e expansão envolvem forças de atrito e cisalhamento capazes de reduzir o tamanho médio das partículas. Assim, uma fábrica pode produzir um pellet visualmente adequado, com boa macroestrutura, mas destruir parte da granulometria necessária para a funcionalidade intestinal. Na leitura de Leopoldo, o desafio não é escolher entre qualidade de pellet e partícula funcional. O desafio é fazer as duas coisas caminharem juntas.

Com base em revisão citada pelo palestrante, foi apresentada como referência desejável a presença, dentro do pellet, de 40% das partículas retidas acima de 1,0 mm e 20% acima de 2,0 mm, com mensuração por wet sieving. A provocação para a indústria é relevante: medir finos na ração ou avaliar PDI pode não ser suficiente para saber o perfil real da partícula consumida pela ave.

O que sai da fábrica não é o que chega ao frango

A palestra também mostrou que a qualidade física pode se deteriorar entre a peletizadora e o comedouro. Em exemplo apresentado nos slides, os finos passavam de 10% na saída da peletizadora para 13% no pós-pellet, 18% após silo e caminhão e 20% no comedouro. Segundo Leopoldo, isso exige uma comunicação mais assertiva entre fábrica de ração e campo, porque o animal é quem dá a perspectiva final sobre o que foi entregue.

Esse ponto transforma o controle de qualidade em uma pergunta prática: a fábrica mede o que produz ou mede o que o frango recebe? Para o palestrante, o retorno do processamento depende dessa resposta. Dados de payback apresentados na palestra reforçaram a lógica econômica. Em simulação com fábrica de 20.000 toneladas por mês, conversão alimentar de 1,640 e peso médio de 3,1 kg, o payback para expander mais peletização e PPLA foi de 22,8 meses com ração a R$ 1.500/t e 19,1 meses com ração a R$ 1.700/t. Para peletização, os valores apresentados foram 29,8 e 24,9 meses nas mesmas condições.

Retorno exige fábrica e campo na mesma linguagem

A mensagem final da apresentação é especialmente relevante para integradoras, nutricionistas, responsáveis por fábricas e equipes de campo. Segundo Leopoldo, o processamento pode aumentar consumo, reduzir desperdício, melhorar conversão alimentar e gerar retorno econômico. Mas isso só ocorre quando a fábrica não opera isolada da resposta animal.

Na prática, a partícula que ninguém vê pode ser justamente a que define se o pellet vai entregar o resultado esperado. Para a avicultura, o próximo salto em processamento de ração não está apenas em produzir pellets mais duráveis, mas em preservar a microestrutura capaz de sustentar consumo, moela, pH, funcionalidade intestinal e retorno.

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