Ícone do site aviNews Brasil, informações avicultura

Coccidiose em frangos de corte: impactos e benefícios da vacinação

PDF

Coccidiose em Frangos de Corte: Impactos e Benefícios da Vacinação

A coccidiose é uma das principais doenças parasitárias da avicultura, causada por protozoários do gênero Eimeria (McDOUGALD, 2003; CONWAY; McKENZIE, 2007). A patogenia e a severidade dos sinais clínicos variam de acordo com a espécie de Eimeria que esteja acometendo o lote, o grau de virulência e quantidade de oocistos esporulados ingeridos pelas aves. A campo, infecções mistas envolvendo duas ou mais espécies de Eimeria são frequentes e potencializam ainda mais os efeitos e sinais clínicos da doença. Diarreia, passagem de ração, presença de sangue nas fezes, desuniformidade, refugagem e aumento súbito da mortalidade são sintomas que podem ser imputados à enfermidade (SHIRLEY; SMITH; TOMLEY, 2005).

Tabela 1 – Contribuição dos custos com controle, mortalidade e morbidade para o custo da coccidiose (em milhões)

Com distribuição cosmopolita, as Eimerias são altamente prevalentes no Brasil. Gazzoni et al. (2025) publicaram os resultados de um estudo de 10 anos (2012–2022) sobre a incidência de Eimeria em frangos de corte no país, foram 8.423 aves amostradas de 103 empresas em 16 estados e no Distrito Federal. A incidência média observada foi de 45,5%, determinada por scores de lesão macroscópica e análise microscópica de raspados de mucosa para detecção de oocistos de Eimeria maxima. Os resultados foram avaliados conforme diferentes estágios de idade das aves, como ilustrado no gráfico a seguir.

Gráfico 1. Porcentagem de frangos afetados por lesões de Eimeria sp. ao longo
de seis estágios do período de criação (14–42 dias) em empresas avícolas
comerciais no Brasil (n=8.423), de 2012 a 2022.

Estratégias de controle da coccidiose são amplamente discutidas e apresentam certa complexidade para garantir a proteção adequada das aves. Os anticoccidianos podem variar em eficácia entre as diferentes espécies de Eimeria, e o uso contínuo pode levar à seleção de cepas resistentes, exigindo alternância frequente entre programas, o que nem sempre elimina as perdas durante essas transições. Outro ponto crítico é que a proteção conferida por essas moléculas depende diretamente do consumo de ração. Em situações de estresse, variações climáticas, falhas no manejo ou alterações na qualidade da dieta, o consumo pode ser reduzido, ampliando a exposição das aves ao desafio.

Coccidiose em frangos de corte: impactos e benefícios da vacinação

O controle biológico da coccidiose tem sido amplamente estudado nas últimas décadas. A exposição controlada a oocistos atenuados por precocidade, com alto potencial imunogênico, mostrou-se eficaz na proteção da saúde intestinal das aves. As cepas vacinais estimulam o sistema imunológico, promovendo uma resposta robusta capaz de controlar futuras infecções de campo. A supressão do desenvolvimento inicial da Eimeria é fundamental para prevenir doença ou mortalidade. Em aves previamente imunizadas, observa-se rápida infiltração de células inflamatórias e redução significativa do número de parasitas em desenvolvimento, em contraste com aves não imunizadas.

Segundo Wang e Suo (2020), em frangos não imunizados, o intestino ainda não está preparado para a infecção por Eimeria, levando vários dias para montar uma resposta imune protetora. Durante esse período, os esporozoítos invadem as células epiteliais das vilosidades, podendo se desenvolver nesse local ou atingir a cripta e completar a primeira geração de esquizogonia. Os poucos efetores presentes — como células NK, ILC1, macrófagos e células dendríticas — produzem quantidades limitadas de IFN-γ e não conseguem controlar a esquizogonia de muitos esporozoítos, resultando na presença de muitos esquizontes de primeira geração (figura 1A). Já em frangos previamente imunizados, a imunidade de memória bloqueia o desenvolvimento inicial de várias maneiras (figura 1B).

Figura. 1A e 1B. Resposta de memória em frangos previamente imunizados conferem proteção contra nova exposição a Eimeria.

Primeiro, anticorpos específicos contra Eimeria, presentes previamente, neutralizam, opsonizam ou lisam os esporozoítos com ajuda de células inatas e do complemento, antes que eles invadam as células do hospedeiro. Mais importante, células de memória residentes no intestino rapidamente ativam todo o tecido após nova exposição, secretando citocinas como IFN-γ e recrutando células NK, células dendríticas e células T. Além disso, células T secundárias são geradas a partir da reestimulação das células T de memória, reduzindo o número de esquizontes de primeira e segunda geração, o que diminui a patologia ou confere proteção estéril.

Cabe ressaltar que não há proteção cruzada entre as diferentes espécies de Eimeria. Dessa forma, para que uma ave esteja adequadamente protegida, ela deve ser estimulada a desenvolver imunidade contra cada espécie relevante — E. acervulina, E. maxima, E. tenella, E. praecox e E. mitis — para aves de ciclo curto.

Coccidiose em frangos de corte: impactos e benefícios da vacinação

Por muitos anos, as vacinas foram avaliadas como uma alternativa para o controle da coccidiose, mas seu uso levantava preocupações legítimas quanto à intensidade das reações e ao impacto no desempenho das aves. No entanto, essas preocupações estão mais associadas a vacinas não atenuadas ou levemente atenuadas. Vacinas com grau adequado de atenuação promovem imunização eficaz com alto nível de segurança.

Coccidiose em frangos de corte: impactos e benefícios da vacinação

Estudos de avaliação da permeabilidade intestinal em aves vacinadas com Vaxxon Coccivet, comparadas a vacina não atenuada e controle negativo, demonstram a manutenção da integridade intestinal, quando comparadas ao controle negativo e à vacina não atenuada, conforme ilustrado nos gráficos 2 e 3 a seguir.

Gráfico 2:

Gráfico 3: 

Outro ponto crucial é que a vacina pode ser utilizada de maneira contínua, lote após lote, por tempo indeterminado, ou seja, não existe uma “data de validade” para o programa vacinal frente aos desafios de campo. Ao serem administrados, os oocistos vacinais são eliminados pelas aves por meio das fezes, de acordo com os períodos pré-patentes de cada espécie de Eimeria. Esses oocistos passam a colonizar a cama do galpão, substituindo gradualmente os oocistos patogênicos de campo por oocistos atenuados (figura C), processo conhecido como “esfriamento do galpão”. Esse mecanismo permite ampla disseminação e colonização dos oocistos vacinais no ambiente, potencializando a proteção lote a lote.

Figura 2 – Substituição de oocistos patogênicos por oocistos vacinais em galpão de frangos de corte

A colonização da cama por cepas vacinais atenuadas, sensíveis aos anticoccidianos, reduz a pressão de cepas resistentes e favorece o controle da enfermidade. Esse efeito pode ser explorado em programas de rotação, uma vez que, conforme demonstrado por Chapman e Jeffers (2015), a sensibilidade à salinomicina foi recuperada após dois ciclos de vacinação em cama reutilizada.

¹Cinco lotes sucessivos de frangos de corte foram criados em baias no chão. Cada tratamento (Trt) compreendeu 8 baias de aves. Elas receberam salinomicina (Sal) na ração inicial (S) ou de crescimento (G), ou diclazuril (Dic) na ração inicial, nas concentrações de 66 ou 1 ppm, respectivamente. Foram vacinadas (Vac), ou não receberam medicação nem vacinação (None).

 

Gráfico 4. Contagem de oocisto após tratamento com salinomicina no 5º lote de produção

O impacto desse controle vai além da presença ou ausência de lesões: a coccidiose tem papel central na inflamação intestinal e nas alterações fisiopatológicas que comprometem a integridade, absorção e eficiência digestiva. Portanto, controlá-la de forma eficaz é proteger a qualidade intestinal — base para o desempenho produtivo e para a resposta imune geral das aves.

Realizar a exposição controlada por meio de vacinação é ativar o sistema imune, colonizar o ambiente de criação das aves com cepas atenuadas e atender às exigências dos principais mercados — é formar um ciclo forte no combate à coccidiose.

Coccidiose em frangos de corte: impactos e benefícios da vacinação

Referências Bibliográficas:

McDougald, L. R. (2003). Coccidiosis. In: Saif, Y. M. (Ed.). Diseases of Poultry. 11th ed. Ames: Iowa State University Press. p. 974–991.

Conway, D. P.; McKenzie, M. E. (2007). Poultry Coccidiosis: Diagnostic and Testing Procedures. 3rd ed. Ames: Blackwell Publishing.

Shirley, M. W.; Smith, A. L.; Tomley, F. M. (2005). The biology of avian Eimeria with an emphasis on their control by vaccination. Advances in Parasitology, v. 60, p. 285–330.

BLAKE, D. P. et al. Re-calculating the cost of coccidiosis in chickens. Veterinary Research, v. 51, n. 115, p. 1-14, 2020. DOI: https://doi.org/10.1186/s13567-020-00837-2

GAZONI, F. L. et al. Monitoring avian coccidiosis incidence in broiler farms in Brazil: integrating Eimeria sp. lesion scoring with direct micro-quantification of E. maxima oocysts. Brazilian Journal of Poultry Science, v. 27, n. 1, p. 001-011, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/1806-9061-2024-1994 .

CHAPMAN, H. D.; JEFFERS, T. K. Restoration of sensitivity to salinomycin in Eimeria following 5 flocks of broiler chickens reared in floor-pens using drug programs and vaccination to control coccidiosis. Poultry Science, v. 94, n. 5, p. 943-946, 2015. DOI: https://doi.org/10.3382/ps/pev077

 

 

 

PDF
PDF
Sair da versão mobile