Encontro Empresarial Cobb 2026 reuniu importantes produtores e
exportadores para debater a nova régua técnica da avicultura latino-americana
Atibaia (SP) recebeu, entre 12 e 15 de maio de 2026, um recorte representativo da liderança que ajudou a construir, e agora reposiciona, a avicultura brasileira no cenário global. O Encontro Empresarial Cobb 2026 reuniu produtores, especialistas e empresas de toda a América Latina, com uma agenda desenhada para discutir, com pragmatismo, os vetores que mais pressionam a competitividade do setor, a sustentabilidade com retorno, eficiência produtiva, novas tecnologias e, sobretudo, acesso a mercados em um ambiente geopolítico mais volátil.
Cada palestrante trouxe uma visão segmentada sobre a avicultura no Brasil, América Latina, América do Norte, Europa e continente Asiático. As experiências trazidas pelos especialistas convergem quanto à pressão sobre o mercado avícola brasileiro que combina riscos sanitários e custos de produção.
MAPA assegura abertura de mercado e Brasil deve assumir protagonismo nas exportações sem fronteiras
Um dos destaques foi a presença de Luís Rua, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), que detalhou a atuação do órgão diante dos desafios do agronegócio brasileiro. Rua deu ênfase aos temas que abrangem o mercado internacional, tributação e crises geopolíticas. “Para quem opera na ponta exportadora – ou integra cadeias que dependem de exportação para sustentar margens, é importante saber que há um movimento permanente para destravar portas e diversificar destinos”, afirmou Rua.
Encontro Empresarial Cobb 2026 reuniu importantes produtores e exportadores para debater a nova régua técnica da avicultura latino-americana
O secretário citou como exemplo a abertura para exportação de ovos e derivados à Coreia do Sul, efetivada após agendas conduzidas no primeiro trimestre de 2026. Tal negociação funciona como termômetro do que a avicultura precisa perseguir de forma sistemática, segundo análise trazida por Rua, em agir com inteligência comercial, alinhamento sanitário e capacidade de responder rapidamente a requisitos técnicos específicos de cada país.
Ao final da fala de Luís Rua, a leitura fixada pelo representante do MAPA, reforça a importância de os grandes players manterem uma estratégia de relacionamento institucional e de compliance documental, com sentido de trabalho em conjunto. “Fizemos nossa parte [MAPA], agora a ABPA [Associação Brasileira de Proteína Animal] deve aproveitar esse cenário”, disse.
No cenário global, os recursos existem, mas a narrativa e a eficiência precisam acompanhar
O painel sobre visão global no agronegócio, Antônio Cabrera, presidente do Grupo Cabrera, articulista e palestrante, e integrante da Academia Brasileira de Agricultura, trouxe uma visão sobre tendências do mercado internacional a partir de experiências acumuladas em agendas globais. Entre os temas trazidos por Cabrera, destacou-se o mal aproveitamento na promoção da imagem do Brasil, como protagonista na avicultura mundial. “O Brasil é um caso único no mundo.
Entre os países continentais, as grandes economias e os grandes mercados consumidores, só três atendem aos três critérios: China, Estados Unidos e Brasil. E nós ainda não aprendemos a olhar para isso com a dimensão que merece. Com todos os entraves atuais, o agro brasileiro bate recordes, imagine o que esse país pode fazer com um ambiente mais favorável”, explicou Cabrera.
Encontro Empresarial Cobb 2026 reuniu importantes produtores e exportadores para debater a nova régua técnica da avicultura latino-americana
Em suas falas, o ex-ministro refletiu sobre o que ele mesmo chamou de “paradoxo brasileiro”, com abundância de recursos e forte capacidade produtiva, porém, convivendo com gargalos estruturais e desafios de posicionamento. Ao mencionar a relevância do Brasil no cenário agrícola, incluindo a força da soja na base alimentar e energética de cadeias de proteína, Antonio Cabrera enfatizou, “Competitividade não é só produzir bem, é comunicar bem e garantir previsibilidade.”
A partir da discussão sobre entraves de legislação e tributação, apareceu como pano de fundo os custos de produção e exportação no Brasil, lembrando aos decisores, segundo Cabrera, que ganhos marginais de eficiência dentro da porteira podem ser anulados por incerteza regulatória, burocracia e custos logísticos. “Em outras palavras, para manter a liderança, o setor precisa da somatória de produtividade e ambiente de negócios, e não de um ou outro”, concluiu.
Governança vira tecnologia invisível da sucessão familiar
O famoso “passar o bastão”, por vezes, é uma das ações mais aguardadas, porém imprevisíveis, no mundo dos negócios, A continuidade da empresa esbarra em algumas nuances geracionais bastante complexas.
Essa mudança de gestão foi tema da conversa sobre sucessão familiar com representantes da nova geração de líderes e gestores de empresas familiares. Participaram Hugo Garrote da São Salvador Alimentos (SSA) onde atua como CEO, Rafaela Bottazari do Grupo BTZ, atuando como diretora agropecuária, Rafael Tortola do GTFoods, Carlos Zanchetta do Grupo Zanchetta e Maurício Mazurek do Grupo Pluma Agroavícola, como diretor de genética e nutrição.
Em um diálogo que tratou menos de “herança” e mais de governança, profissionalização e modernização sem ruptura cultural. O bate-papo entre sos jovens líderes convergiu que a sucessão não é um evento simples, é um processo. Segundo Rafaela Bottazari, em corporações avícolas esse processo exige clareza de papéis; programação de decisões; padronização administrativa com disciplina de dados e respeito ao legado, com coragem para reconfigurar o operacional.
O painel de conversa entre sucessores, deixou claro o entendimento dos cinco participantes de que o setor trabalha com margens pressionadas e alta volatilidade assim, a governança vira uma “tecnologia invisível”, que não aparece na linha de produção, mas altera profundamente o resultado, pois reduz improvisos, acelera decisões e protege a continuidade.
“Deve ser respeitado o legado dos antecessores quanto a concepção das empresas, nas legislações vigentes e culturas que permeavam a época, mas jamais deixar de olhar o presente, com a atual moderação dos mais variados temas, como gestão de pessoas e uso de tecnologias e Inteligência Artificial”, disse Rafael Tortola.
Modelos produtivos em colisão. Como os maiores produtores mundiais estão lidando com tanta vulnerabilidade
A partir das análises expostas pelos especialistas, consolidou-se um diagnóstico, o setor vive uma convergência entre pressão por eficiência e exigências crescentes de bem-estar, sustentabilidade,
rastreabilidade, biosseguridade. Aos presentes, ao compilar informações atenuantes nas palestras, destaca-se o desafio de equilibrar trade-offs sem perder competitividade.
No recorte norte-americano, Will Sawyer, responsável por Operações e Estratégia de Negócios Globais da Cobb-Vantress, abordou a expansão das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, mas ressaltou a “fragilidade mundial” que precisa ser monitorada. “Para grandes produtores, isso se traduz em três frentes operacionais, gestão de risco de insumos; planejamento sanitário como fator econômico e flexibilidade comercial para reagir às mudanças repentinas do setor”, explicou Sawyer.
Já o mercado avícola asiático combina crescimento estrutural e alta volatilidade, condicionado por choques sanitários, custos de ração, energia e barreiras comerciais. Segundo Sandy Iarawan, diretor de vendas da Àsia Cobb-Vantress, na China, questões sanitárias têm sido uma janela de oportunidade para oferta de outras proteínas. Segundo Sandy, a PSA (Peste Suína Africana), por exemplo, acelerou a substituição parcial da carne suína por frango.
“Em mercados como Filipinas e Vietnã, a formação de preço é mais sensível, por conta da dependência à importação de insumos e limitações de escala, enquanto crescem investimentos e estratégias de zonificação e compartimentação sanitária WOAH (World Organisation for Animal Health) para acessar destinos premium (Japão, Europa e Oriente Médio)”, explicou Iarawan.
“No pós-pandemia, a região convive com preços pressionados e redistribuição de excedentes, reforçando que competitividade depende de eficiência produtiva integrada à gestão sanitária e ao acesso a mercados”, concluiu.
Europeus representam importante expansão de mercado, desde que o consumo de carne de frango siga parâmetros culturais
Quanto ao mercado europeu, a palestra de Christine Maziero, Diretora Global de Marketing Estratégico e Tecnologia da Cargill, apresentou um cenário empírico quanto à tendência dos consumidores de carne animal na Europa. Segundo Maziero, a cultura e hábitos alimentares – e de consumo – não podem se desconectar da realidade do público-alvo.
“Existe uma heterogeneidade europeia: países do Norte, como Países Baixos, Reino Unido e Escandinávia tendem a elevar exigências em bem-estar e, em alguns casos, crescimento mais lento dos frangos, enquanto regiões do Leste mantêm modelos mais convencionais no padrão de consumo de proteína animal”, explicou Christine
Encontro Empresarial Cobb 2026 reuniu importantes produtores e exportadores para debater a nova régua técnica da avicultura latino-americana
Com base na experiência de Maziero, a ideia central da fala da diretora é que, entender o comportamento dos consumidores europeus pode ser importante estratégia de ampliação nos resultados. “Há mercado potencial de 14 milhões de consumidores e demanda estimada em 265 mil toneladas, somente para o continente europeu, desde que haja ações contundentes para driblar entraves sanitários, como a Influenza Aviária, e remodelar o incentivo à oferta global de proteína animal”, concluiu.
Fricção à brasileira. Mudar o rumo é preciso, porém sem exaurir o otimismo
Dilvo Casagranda, é diretor de exportação da Aurora Coop, fez uma leitura do cenário global e destacou o quanto a competitividade da avicultura brasileira é limitada por entraves domésticos, tão severos, segundo ele, do que os riscos externos. Entre os entraves destacados por Casagranda, a carga tributária elevada; insegurança jurídico-regulatória; excesso de portarias e sobreposições institucionais e baixa previsibilidade para empreender e planejar investimentos, são fatores de maior incerteza na avicultura. “A instabilidade operacional se traduz em custos sistêmicos, ou seja, investir para ter capacidade e gastar para operar essa capacidade; redução de produtividade administrativa e aumento de riscos de gestão”, disse.
As reflexões do especialista são diretas e concretas, mas sem deixar de considerar a presença exponencial do Brasil, no mercado externo. “O agro brasileiro migrou, em poucas décadas, de importador relevante para fornecedor global, sustentado por ciência e mercado. Para a avicultura, isso significa base competitiva em insumos, tecnologia e eficiência, porém com um gargalo de comunicação e legitimidade”, disse. Casagranda defendeu, em sua fala, ser necessário traduzir ao consumidor e aos formadores de opinião, quanto a contribuição do setor para acesso à proteína de baixo custo, segurança alimentar, geração de renda e redução de vulnerabilidades.
Por fim, Marcos Troyjo, analista de geopolítica econômica, comércio internacional e cadeias globais de suprimentos, encerrou o Encontro Empresarial da Cobb, reforçando a flexibilidade de cenário no mercado global, mas sem deixar de destacar a posição entre as lideranças no mercado avícola.
Encontro Empresarial Cobb 2026 reuniu importantes produtores e exportadores para debater a nova régua técnica da avicultura latino-americana
“O único país que tem a capacidade, em velocidade e escala, de gerar um efeito de substituição é o Brasil”, disse Troyjo.
Segundo dados divulgados pela ABPA, os impactos provocados pelo primeiro foco de Influenza Aviária em uma granja comercial brasileira não extinguiram a solidez estratégica do setor, que fechou 2025 com desempenho histórico. Ainda com base nas informações da Associação, as exportações de carne de frango alcançaram 5,324 milhões de toneladas, estabelecendo um novo recorde para a avicultura nacional e reforçando a posição do Brasil como principal fornecedor mundial da proteína.
Em maio de 2026, a ABPA divulgou novos números quanto às exportações brasileiras de carne de frango in natura e processada, que somaram 486,5 mil toneladas em abril, alta de 2,2%, se comparada a abril de 2025.
PDF