Evento da APA reforça importância da prevenção e da notificação obrigatória para conter a Laringotraqueíte que desafia a avicultura brasileira
Durante o XXII Congresso de Produção e Comercialização de Ovos da APA, o painel “Erros e Acertos com a Laringotraqueíte” reuniu três grandes especialistas do setor: Jorge Chacón (Ceva Saúde Animal), Filipe Fernando (Boehringer Ingelheim) e Lucas Colvero (MSD Saúde Animal). A doença, que voltou a causar surtos em diversas regiões do país, foi debatida com profundidade técnica, abordando desde o comportamento viral até estratégias vacinais e falhas recorrentes no campo.
Efeito booster
Chacón apresentou dados atualizados que demonstram o efeito de reforço (booster) gerado por uma terceira dose da vacina vetorizada, elevando os títulos sorológicos a patamares muito superiores aos obtidos com duas doses.
“Após a primeira vacinação, os títulos sorológicos sobem para cerca de 7 mil. Com a segunda, chegam a 10 mil. Mas com a terceira dose, ultrapassam os 17 mil. Esse dado é essencial, sobretudo em lotes que permanecem mais de 60 semanas na granja”, explicou Chacón, destacando que os resultados foram obtidos com uso de kits ELISA específicos para monitoramento.
Outro ponto-chave destacado pelo especialista foi a liberação do uso irrestrito das vacinas vetorizadas, o que permitiu maior flexibilidade na montagem dos programas de imunização.
“Parabéns às autoridades que entenderam a necessidade de oferecer ferramentas eficazes ao produtor”, disse Chacón.” Hoje conseguimos montar programas personalizados conforme a pressão de infecção de cada região”, completou.
Ainda segundo ele, com os kits ELISA é possível aferir, com precisão, se os programas vacinais estão realmente conferindo proteção. “Não estamos mais vacinando no escuro”, complementou Lucas Colvero.
Qualidade de vacinação
Os debatedores também enfatizaram a importância do treinamento contínuo das equipes de incubatórios e campo para garantir a eficácia da vacinação. Em um estudo citado por Chacón, variações na taxa de eficácia chegaram a comprometer a proteção de até 2 mil pintainhas a cada 100 mil, o que pode perpetuar a circulação do vírus mesmo em granjas vacinadas.
“A vacinação precisa ser bem feita”, salientou Chacón. “E isso depende tanto da máquina, quanto da mão que está operando. A falha de 2% já é suficiente para manter o vírus vivo na propriedade”, completou.
Erros recorrentes
O debate elencou os principais erros que, mesmo com boas intenções, contribuíram para a permanência, ou retorno da doença em diversas propriedades:
- Achar que é possível eliminar o vírus da granja: ele permanece em aves assintomáticas e pode ser reativado por estresse.
- Confundir ausência de sintomas com ausência de infecção: lotes podem parecer saudáveis, mas ainda transmitir o vírus.
- Reduzir o número de doses após controle inicial: há registros de propriedades que reduziram de quatro para uma dose e, meses depois, voltaram a ter surtos de laringotraqueíte.
- Não desinfetar adequadamente a cama: o vírus pode sobreviver por até 42 dias em cama contaminada, bebedouros e superfícies — foi registrado inclusive em biofilmes e nas sarjetas, mesmo após limpeza.
- Esperar o surto para iniciar a vacinação: um único surto já trouxe prejuízos acima de R$ 4,5 milhões, que poderiam ter sido evitados com um programa vacinal preventivo de R$ 36 mil a R$40 mil para um lote de 100 mil aves. Ás perdas de um único lote infectado, pagaria o programa vacinal de 147 lotes.
Fera dormindo nas granjas
Ao final de sua apresentação, Chacón deixou uma analogia marcante. “Imaginem que, dentro da granja, temos uma fera adormecida. Nosso trabalho é manter essa fera quieta, mas não podemos parar por aí. Precisamos garantir que, caso ela acorde, nossas aves estejam protegidas”, destacou.
O painel também abordou um estudo realizado na América Latina que demonstrou melhor resposta sorológica com a aplicação intramuscular da vacina Vectormune FP LT, em comparação à via ocular. Embora os dados sejam promissores, os debatedores alertaram que essa via ainda não está autorizada no Brasil e depende de atualização regulatória.
“É uma ferramenta promissora, já testada com segurança e eficácia fora do país. Mas no Brasil, só poderá ser usada após atualização do registro no Ministério da Agricultura”, esclareceu Chacón, em resposta a questionamento feito por Filipe Fernando.
Desinfecção
Durante o espaço de perguntas, Jorge Roberto Bottura, diretor técnico da APA, destacou o papel da desinfecção intensiva na contenção dos surtos mais severos.
“Durante a crise, fazíamos desinfecção até três vezes por semana. Com o tempo, isso foi reduzido, mas não podemos esquecer o quanto essa prática ajudou a reduzir a carga viral. Devemos retomar isso sempre que houver alta pressão de infecção”, alertou Bottura.
Notificação obrigatória
Todos os participantes do painel defenderam a manutenção da laringotraqueíte como doença de notificação obrigatória. “Se pararmos de notificar, perdemos visibilidade. As instituições deixam de saber o que está acontecendo e não conseguem agir a tempo”, disse Filipe Fernando.
“A notificação não atrapalha o comércio e ajuda na coordenação entre vizinhos. A comunicação entre produtores é essencial para conter surtos”, reforçou Lucas Colvero.
Já o médico-veterinário Bruno Pessamilio, também presente no auditório, destacou a importância da notificação para garantir um diagnóstico sanitário confiável.
“A notificação é necessária até mesmo para que se descarte, oficialmente, a possibilidade de influenza aviária. Isso evita que ações sanitárias desnecessárias sejam tomadas ou que a cadeia fique exposta a riscos maiores”, concluiu.