Mesa Gerencial do incubaFÓRUM 2026 aponta eficiência na incubação como chave para a competitividade da avicultura brasileira | Por redação agriNews Brasil
Mediado por José Antônio Ribas, da JBS Seara, o painel de encerramento do primeiro dia do incubaFÓRUM 2026 reuniu especialistas com diferentes visões da produção avícola para discutir um tema que atravessou toda a programação do evento, quanto à competitividade da cadeia em um cenário cada vez mais desafiador. Participaram do debate Cássio da Rosa, da Avenorte Group; Luís Farias, da Aurora Coop; Adriano Bailos, consultor independente e Cristiano Pereira, da Cobb-Vantress.
Ao longo da discussão, ficou evidente uma mudança de paradigma dentro da avicultura. A incubação, tradicionalmente vista como uma etapa operacional entre a produção de ovos férteis e o alojamento dos pintinhos, passou a ser tratada como um fator estratégico capaz de influenciar diretamente o desempenho econômico de toda a cadeia.
Os spreads diminuíram e eficiência passa a ser condição de sobrevivência
Logo no início do debate, José Antônio Ribas levou à mesa a perda gradual das vantagens competitivas que historicamente sustentaram o crescimento da avicultura brasileira. Segundo ele, o setor enfrenta um contexto diferente daquele que impulsionou sua expansão nas últimas décadas. Custos crescentes, dificuldades logísticas, escassez de mão de obra e aumento da concorrência internacional estão reduzindo as margens de segurança das empresas.
José Antônio Ribas (Foto: agriNews Brasil)
“Nós estamos perdendo competitividade. Os nossos spreads acabaram. Hoje não temos mais espaço para errar”, alertou.
A provocação abriu espaço para uma reflexão mais ampla sobre o posicionamento do Brasil no mercado global. Adriano Bailos reforçou que a dimensão da cadeia avícola brasileira muitas vezes faz com que o próprio setor subestime sua relevância econômica.
“Durante essa uma hora em que estamos falando aqui, o Brasil terá produzido cerca de um milhão de frangos. Ao mesmo tempo, é uma cadeia extremamente extensa, porque o planejamento começa muito antes, ainda na produção dos ovos que irão abastecer o mercado anos à frente”, disse.
Para Bailos, a liderança brasileira nas exportações mundiais de carne de frango não é resultado do acaso, mas consequência de décadas de construção técnica e eficiência produtiva. “Ninguém permanece mais de 20 anos na liderança global sem ser competitivo. Deveríamos falar da nossa avicultura com muito orgulho”, concluiu.
Ao mesmo tempo, o consultor chamou atenção para um ponto que gerou consenso entre os participantes, “a liderança conquistada no passado não garante o futuro.” A preocupação compartilhada pela mesa foi clara: a competição internacional está evoluindo rapidamente e o Brasil já não conta com as mesmas vantagens que possuía há alguns anos.
Tecnologia expõe o que a avicultura já suspeitava, a incubação impacta toda a vida produtiva da ave
A partir dessa discussão sobre competitividade, o debate avançou para uma pergunta central: qual é o papel da incubação na construção desses resultados?
Para Luís Farias, a resposta está cada vez mais evidente à medida que novas tecnologias permitem enxergar conexões que antes eram apenas percebidas na prática.
“Hoje estamos vendo que a qualidade da carne também tem relação com esse processo. A tecnologia mostrou que o incubatório está diretamente conectado ao desempenho do frango e aos resultados da cadeia”, disse.
Luís Farias (Foto: agriNews Brasil)
Segundo ele, o avanço das ferramentas de monitoramento e análise têm demonstrado que os impactos da incubação acompanham a ave durante toda sua vida produtiva. O reflexo desse novo entendimento já começa a aparecer dentro das empresas, que passaram a direcionar investimentos para incubatórios em uma intensidade pouco observada até poucos anos atrás.
A visão apresentada por Farias no incubaFÓRUM 2026 foi complementada por Cássio da Rosa, que destacou a necessidade de romper barreiras históricas entre os diferentes segmentos da produção. Para ele, o desafio atual não está na falta de informação, mas na capacidade de transformar dados em decisões práticas.
“Temos muitas ferramentas e uma enorme quantidade de dados, mas ainda precisamos evoluir na análise dessas informações para construir soluções conjuntas. O maior desafio é aproximar as áreas e entender que o resultado final é responsabilidade de toda a cadeia”, explicou.
Cássio da Rosa (Foto: agriNews Brasil)
Cristiano Pereira aprofundou essa discussão ao mostrar como a ciência tem ampliado o entendimento sobre os efeitos da incubação no desempenho das aves.
“Hoje entendemos que erros no desenvolvimento embrionário podem influenciar problemas locomotores, cardiovasculares, hormonais e até a qualidade final da carne. A incubação não pode mais ser analisada isoladamente”, disse.
Cristiano Pereira (Foto: agriNews Brasil)
Cada ponto percentual de eficiência passou a valer mercado
Se a incubação ganhou protagonismo técnico, ela também passou a ocupar um papel estratégico dentro da disputa por competitividade global. Retomando a discussão iniciada por Ribas, Adriano Bailos fez um alerta que elevou o tom do debate. Segundo ele, o Brasil vem perdendo parte dos fatores que durante anos funcionaram como amortecedores de ineficiências operacionais. “Os subsídios acabaram e não temos mais espaço para errar. Cada ponto percentual de eficiência passou a fazer diferença”, enfatizou.
A afirmação resume uma mudança importante de cenário. Custos logísticos elevados, infraestrutura limitada, excesso de burocracia, restrições de crédito e dificuldades para contratação de mão de obra reduziram significativamente a margem para perdas dentro das empresas.
Adriano Bailos (Foto: agriNews Brasil)
Nesse contexto, o brainstorm deixado na esfera do debate, destaca que a eficiência deixou de ser apenas uma ferramenta para melhorar resultados. Passou a ser uma condição necessária para permanecer competitivo.
“O mundo está se aprimorando tecnologicamente. Se quisermos continuar sendo os maiores exportadores, teremos que produzir mais com menos”, argumentou Bailos.
A avaliação foi compartilhada pelos demais participantes. Ao longo da conversa, ficou evidente a preocupação com a dificuldade crescente de atrair e reter profissionais para as operações avícolas. A escassez de mão de obra apareceu não apenas como um problema operacional, mas como uma ameaça estratégica para o crescimento do setor.
Diante desse cenário, os debatedores defenderam que a adoção de tecnologias, automação e inteligência de dados será cada vez mais importante para compensar a redução da disponibilidade de trabalhadores qualificados e preservar a eficiência produtiva. Ao encerrar o painel, uma das reflexões mais contundentes surgiu justamente da análise sobre os fatores que ainda diferenciam o Brasil de seus concorrentes. “Existe uma palavra que continua nos mantendo competitivos: a sanidade”, destacou Farias.
A observação encontrou concordância imediata entre os participantes. Em um ambiente global marcado por recorrentes desafios geopolíticos e sanitários, o rigor dos programas de biosseguridade e a capacidade de resposta da avicultura brasileira permanecem como ativos estratégicos fundamentais para a manutenção dos mercados internacionais.
Mesa Gerencial. (Foto: agriNews Brasil)
Competitividade começa no ovo
Mais do que uma discussão sobre incubação, a mesa diretiva do incubaFÓRUM 2026 se transformou em um debate sobre o futuro da avicultura brasileira.
Com base nas reflexões, as vantagens históricas que sustentaram o crescimento do setor estão diminuindo. O espaço para erros é menor, a concorrência global é mais intensa e a eficiência passou a ser construída em cada etapa da cadeia. Nesse contexto, a incubação deixa de ocupar uma posição intermediária e assume um papel de protagonista. O recado deixado é que a próxima fronteira da avicultura brasileira não será conquistada apenas nos frigoríficos ou nos mercados internacionais. Ela começa muito antes, dentro dos incubatórios, e, principalmente, na capacidade de transformar conhecimento, tecnologia e gestão em resultados mensuráveis ao longo de toda a cadeia produtiva.
