A poedeira moderna alcançou um nível de potencial produtivo que exige do setor uma capacidade cada vez maior de leitura técnica, manejo, nutrição e uso de dados. Durante o painel “Impacto da pesquisa brasileira na produção animal”, realizado na 36ª Reunião Anual do CBNA, José Henrique Stringhini, professor da Universidade Federal de Goiás, comparou a ave atual a uma “Ferrari”. A metáfora resume o desafio: a genética avançou, mas é preciso saber conduzi-la.
A agriNews Brasil acompanhou o evento como media partner. Em sua apresentação sobre o histórico e as perspectivas da pesquisa em aves de postura, Stringhini mostrou que a poedeira comercial de hoje é mais produtiva, mais longeva e mais sensível a falhas de manejo do que as aves de décadas anteriores. O desafio deixa de ser apenas produzir mais ovos e passa a envolver persistência, qualidade de casca, bem-estar, saúde intestinal, cria e recria, ambiência e capacidade de transformar dados de granja em decisão.
- Segundo o professor, a evolução das linhagens elevou de forma expressiva o número de ovos por ave alojada. A palestra citou comparações entre aves de anos anteriores, com produção em torno de 300 a 360 ovos até 80 semanas, e aves atuais chegando a aproximadamente 385 a 390 ovos no mesmo período. Também foram mencionadas perspectivas de ciclos mais longos, acima de 100 semanas, e metas futuras ainda mais ambiciosas.
Esses números, que devem ser conferidos na fonte original antes de qualquer uso em arte ou destaque isolado, apontam para uma mudança profunda na postura comercial. Quanto mais longa a vida produtiva da ave, maior a necessidade de sustentar estrutura corporal, consumo, qualidade óssea, saúde intestinal e qualidade de casca ao longo do tempo.
Genética avançada não se sustenta sozinha
A mensagem central da palestra foi que a genética das poedeiras avança em ritmo acelerado, mas o resultado produtivo depende da capacidade do sistema de acompanhar esse avanço. Manejo, nutrição, ambiência, sanidade, programa de luz, cria e recria, qualidade de ingredientes e leitura de curvas produtivas passam a ser peças de uma mesma engrenagem.
Stringhini reforçou que a fase de cria e recria não pode ser tratada apenas como custo. A ave que chega mal às 18 semanas compromete toda a curva produtiva posterior. Em ciclos mais longos, essa etapa inicial ganha ainda mais importância, porque o objetivo não é apenas atingir o início de postura, mas preparar uma ave capaz de sustentar persistência e qualidade por muitas semanas.
A qualidade de casca foi outro ponto sensível. O calcário foi apresentado como desafio permanente, não apenas pela composição, mas por granulometria, solubilidade, origem e padrão de liberação de cálcio, especialmente durante a noite e no final do ciclo de postura. Para aves de vida longa, qualquer falha nesse ajuste pode comprometer a viabilidade econômica do sistema.
Tabelas, ingredientes e fibra
A palestra também destacou a importância das Tabelas Brasileiras para acompanhar exigências, consumo de nutrientes e composição de ingredientes. Stringhini mencionou a ampliação da base de ingredientes entre edições anteriores e a edição de 2024, incluindo coprodutos como DDG/DDGS e solúveis. O tema é relevante porque a poedeira de alto potencial exige formulações mais precisas, mas também está inserida em um mercado de ingredientes cada vez mais variável.
Em exemplo apresentado a partir de trabalhos com empresas no Centro-Oeste, o professor apontou grande variação na composição de determinados coprodutos, com proteína bruta variando de forma expressiva entre amostras. O ponto editorial mais importante não é apenas o número, mas a mensagem: trabalhar com valores médios sem controle de qualidade pode gerar respostas produtivas instáveis.
A fibra também foi tratada como tema que precisa ser atualizado. A antiga noção de “fibra bruta” é insuficiente para os desafios atuais. Frações como fibra solúvel e insolúvel, NDF e ADF, além de seus efeitos funcionais no trato gastrointestinal, precisam ser consideradas em uma formulação moderna para poedeiras.
A granja como laboratório
Um dos pontos mais fortes da apresentação foi a defesa da granja como laboratório. Para Stringhini, o campo precisa gerar, organizar e interpretar dados. Profissionais e estudantes devem saber ler curvas, antecipar problemas e transformar números em decisões. Essa visão aproxima pesquisa e produção, especialmente em uma cadeia em que pequenas alterações no consumo, no peso corporal, na casca ou na qualidade interna do ovo podem sinalizar problemas antes que eles se tornem perdas maiores.
O professor também citou trabalhos com avaliação de qualidade interna de ovos, uso de imagem por smartphone, escores, leitura de imagens e processamento em Python. O exemplo mostra como ferramentas simples ou acessíveis podem ajudar a transformar observações visuais em dados mais objetivos, apoiando decisões no campo e na pesquisa.
Na prática, a poedeira moderna exige uma combinação de ciência, manejo e gestão. Não basta ter uma ave de alto potencial se o sistema não acompanha esse potencial com dados, nutrição, ambiência, saúde e ajustes finos. A “Ferrari” da genética precisa de estrada, combustível, manutenção e motorista.
- A análise geral sobre como o painel do CBNA reposicionou a agenda da nutrição animal está disponível na nutriNews Brasil. Confira aqui.
A palestra de Stringhini mostrou que o futuro da postura comercial não será definido apenas pela capacidade de produzir mais ovos. Será definido pela capacidade de sustentar produtividade por mais tempo, com qualidade de casca, bem-estar, precisão nutricional e leitura técnica da granja. Para a avicultura de postura, a grande pergunta não é se a genética continuará avançando. É se o sistema produtivo conseguirá acompanhá-la.
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