Por que as salmonelas S. Minnesota e S. Heidelberg emergiram na avicultura brasileira?
As salmoneloses em humanos figuram entre as principais responsáveis por doenças transmitidas por alimentos (DTAs), sendo que foram identificadas em 11% (1.559) dos surtos de toxinfecção registrados entre os anos de 2012 e 2021 no Brasil. Em 2022, aproximadamente 6% dos alimentos incriminados em surtos de transmissão hídrica e alimentar foram provenientes de produtos avícolas de acordo com os dados do Ministério da Saúde.
Por outro lado, vale ressaltar o alto grau de inocuidade da carne de frango brasileira, o que justifica o status do país de maior player mundial em exportações e segundo maior produtor mundial de carne de frango (ABPA, 2023). A eventual presença de salmonela na carne de frango a ser exportada representa uma significativa barreira comercial para o Brasil, uma vez que alguns países não toleram a sua presença.
As fontes de salmonelas paratíficas (que não causam doenças nas aves) na produção avícola são diversas, podendo ser transmitidas de forma vertical ou horizontal. As principais fontes de contaminação incluem as aves reprodutoras, incubatórios, camas aviárias, ração, água, veículos de transporte, vetores, entre outros. Portanto, é crucial controlar este patógeno em todas as fases da cadeia produtiva, onde os ovos incubáveis, materiais, veículos e fômites devem ser submetidos a processos de limpeza e desinfecção criteriosos e eficazes.
Mais recentemente tem se verificado a emergência dos sorovares S. Minnesota (SM) e S. Heidelberg (SH) nas explorações avícolas do sul do Brasil, os quais são frequentemente detectados em aves assintomáticas, granjas, abatedouros e nos produtos cárneos representando um risco potencial para humanos. Pesquisas científicas recentes demonstraram que o aumento da prevalência destes agentes está atrelado a sua alta capacidade de resistência e persistência tanto nas aves como no ambiente.
Qual a relação entre biofilmes e Resistência Antimicrobiana (RAM)?
A utilização abusiva de antimicrobianos leva à seleção de bactérias resistentes. Este é um fenômeno de grande complexidade e, acima de tudo, um relevante tema de saúde pública. A RAM pode ocorrer de duas maneiras:
- Forma natural ou intrínseca, associada à ausência de sítio alvo para antibióticos, mecanismos de efluxo;
- Forma induzida ou adquirida que envolve a transferência horizontal de genes de resistência entre bactérias de mesma espécie ou mesmo entre distintas espécies.
Vale pontuar que, considera-se multirresistência a drogas (MDR) quando um determinado micro-organismo apresenta resistência a pelo menos três classes diferentes de antibióticos. Em uma pesquisa realizada em 2015 no Brasil, com 342 amostras de suabes de arrasto oriundas de granjas avícolas no Paraná, a SH apresentou um dos mais elevados índices de MDR. Em nível nacional, existe uma ampla diversidade genética deste sorovar, com uma alta incidência de genes ligados à RAM. De maneira similar, sabe-se que a SM também apresenta MDR bem como alta similaridade genética (90%) entre alguns isolados de origem humana e avícola.
Em uma pesquisa científica mais recente utilizando 20 sorovares de SH e SM de origem avícola (pro-pés de cama aviária), provenientes de empresas do sul do Brasil, verificou-se que 100% dos isolados apresentaram MDR e foram sensíveis a apenas um antibiótico (GARCEZ et al., 2023) (Figura 1).
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