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Revestimentos de resíduo de açaí na conservação de ovos

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Revestimentos de resíduo de açaí na conservação de ovos

O armazenamento de ovos em temperatura ambiente ainda é uma realidade predominante no Brasil, uma vez que a refrigeração não é obrigatória nos pontos de venda.

Nessas condições, os ovos ficam mais suscetíveis à perda gradual de qualidade interna, processo que se inicia logo após a postura e se intensifica durante o armazenamento.

A principal causa dessa deterioração está associada à perda de água e de dióxido de carbono através dos poros da casca, o que resulta na desestruturação e aumento do pH do albúmen e, consequentemente, na redução da unidade Haugh, parâmetro amplamente utilizado para avaliação da qualidade interna dos ovos.

Do ponto de vista produtivo e econômico, essas alterações influenciam o valor comercial do produto, uma vez que ovos com menor qualidade interna apresentam menor aceitação pelo consumidor e menor rendimento tecnológico para a indústria. Em sistemas que operam sem refrigeração, especialmente em regiões de clima quente, a perda de qualidade ocorre de forma mais acelerada, reforçando a necessidade de estratégias complementares de conservação que sejam viáveis, seguras e de fácil aplicação.

Revestimentos comestíveis como alternativa tecnológica

Os revestimentos comestíveis têm sido estudados como uma alternativa prática para retardar o envelhecimento do ovo durante o armazenamento.

Esses revestimentos formam uma película contínua sobre a superfície da casca, promovendo a obstrução parcial dos poros e aumentando a resistência à difusão de vapor de água e gases. Como consequência, ocorre redução da taxa de desidratação do ovo e menor liberação de dióxido de carbono, fatores diretamente relacionados à manutenção do pH do albúmen e da estrutura do albúmen denso.

Historicamente, o uso de óleo mineral foi uma das primeiras estratégias empregadas para o recobrimento de ovos, apresentando bons resultados na preservação da qualidade interna. No entanto, a crescente preocupação com sustentabilidade ambiental e segurança alimentar tem impulsionado o desenvolvimento de revestimentos formulados a partir de matérias-primas renováveis, incluindo biopolímeros e resíduos agroindustriais, que apresentam maior aceitação por parte do mercado consumidor.

Resíduo de açaí como matéria-prima sustentável

O resíduo de açaí, amplamente gerado na região amazônica durante o processamento da polpa, destaca-se como um material promissor para o desenvolvimento de revestimentos comestíveis para ovos. Além disso, sua utilização contribui para a valorização de um material que, em muitos casos, é descartado de forma inadequada, promovendo uma abordagem alinhada aos princípios da economia circular e da sustentabilidade ambiental.

Do ponto de vista da cadeia produtiva, o aproveitamento do resíduo de açaí representa uma oportunidade de agregar valor a um subproduto abundante, ao mesmo tempo em que oferece uma solução tecnológica de baixo custo e potencialmente sustentável para a conservação de ovos em sistemas que não utilizam refrigeração.

Elaboração dos revestimentos e armazenamento dos ovos

O estudo foi conduzido com ovos de mesa provenientes de poedeiras da mesma idade e mantidas sob condições semelhantes de manejo, alimentação e ambiente. Os ovos foram coletados e utilizados um dia após a postura, selecionados quanto à integridade da casca e distribuídos aleatoriamente entre os tratamentos experimentais, incluindo um grupo controle sem revestimento e grupos submetidos à aplicação de revestimentos comestíveis à base de resíduo de açaí.

Os revestimentos foram formulados a partir de farinha de resíduo de açaí, utilizada como matriz filmogênica, previamente homogeneizada em meio aquoso. À matriz foram incorporados plastificantes com o objetivo de melhorar a flexibilidade e a adesão do filme à casca, sendo avaliados glicerol, propilenoglicol ou sorbitol. As formulações foram preparadas sob agitação contínua até a obtenção de uma solução homogênea, adequada para aplicação sobre a superfície dos ovos.

Após a aplicação, os ovos foram armazenados a aproximadamente 24 °C por um período de 21 dias. Durante o armazenamento, foram avaliados parâmetros de qualidade interna, incluindo perda de peso, unidade Haugh e pH do albúmen. A perda de peso foi determinada pela diferença entre o peso inicial e o peso ao final do período de armazenamento. A unidade Haugh foi utilizada como indicador da qualidade do albúmen, considerando o peso do ovo e a altura do albúmen denso, enquanto o pH do albúmen foi determinado com auxílio de pHmetro digital.

Os dados obtidos foram submetidos à análise estatística por meio de análise de variância, com comparação entre médias realizada pelo teste de Tukey, adotando-se nível de significância de 5%. Essa abordagem permitiu avaliar o efeito dos revestimentos à base de resíduo de açaí e dos diferentes plastificantes sobre a qualidade dos ovos durante o armazenamento em temperatura ambiente.

Resultados aplicados à conservação de ovos

Resultados experimentais obtidos com a aplicação de revestimentos à base de resíduo de açaí demonstraram efeitos positivos na preservação da qualidade dos ovos armazenados em temperatura ambiente por 21 dias.

Ovos não revestidos apresentaram perda de peso próxima a ~5,2% ao final do período, enquanto ovos revestidos exibiram perdas significativamente menores, variando entre aproximadamente 2,5 e 3,2%. Essa redução indica que o revestimento promoveu vedação parcial eficiente dos poros da casca, reduzindo a evaporação de água e contribuindo para a manutenção do peso do ovo, fator diretamente relacionado à valorização comercial.

O pH do albúmen também apresentou comportamento compatível com o efeito de barreira promovido pelos revestimentos. Enquanto os ovos não revestidos atingiram valores próximos a 9,5 após 21 dias de armazenamento, os ovos revestidos com resíduo de açaí apresentaram valores numericamente inferiores, sugerindo menor perda de dióxido de carbono ao longo do tempo.

Efeito dos plastificantes nas formulações

A formulação dos revestimentos incluiu diferentes plastificantes, como glicerol, propilenoglicol e sorbitol, com o objetivo de melhorar a flexibilidade e a integridade do filme formado sobre a casca. Os resultados indicaram que todos os plastificantes avaliados foram eficazes na preservação da qualidade dos ovos, sem diferenças significativas entre eles para os parâmetros analisados.

Esse resultado é particularmente relevante sob a perspectiva prática, pois indica que o efeito protetor observado está principalmente associado à matriz filmogênica formada pelo resíduo de açaí, ampliando a flexibilidade na escolha dos insumos e facilitando a adoção da tecnologia conforme a disponibilidade e o custo dos materiais.

Implicações para a produção e aplicação prática

Por se tratar de um material comestível de origem vegetal, o revestimento não gera resíduos químicos no alimento, aspecto fundamental no que se refere à segurança alimentar, conformidade regulatória e aceitação pelo consumidor. Além disso, essa estratégia pode contribuir para a redução de perdas e manutenção da qualidade dos ovos ao longo da cadeia de comercialização, especialmente em sistemas que operam sem refrigeração.

Considerações finais e perspectivas

Embora os resultados sejam promissores, os estudos realizados até o momento foram conduzidos em condições controladas, com número limitado de amostras e período de armazenamento de até 21 dias. Assim, a realização de ensaios em escala comercial, com períodos mais longos de armazenamento e avaliação sob diferentes condições ambientais, é necessária para consolidar a aplicação dessa tecnologia na cadeia produtiva de ovos.

De forma geral, os revestimentos comestíveis à base de resíduo de açaí configuram-se como uma alternativa tecnológica viável, sustentável e de baixo custo para a conservação da qualidade interna de ovos armazenados em temperatura ambiente. Essa abordagem representa uma oportunidade concreta de agregar valor ao produto, reduzir perdas e atender às demandas atuais por sistemas produtivos mais eficientes e sustentáveis.

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