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A Trajetória de José Antonio Ribas Jr. na Agroindústria

Escrito por: Priscila Beck
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O agronegócio brasileiro é o novo Vale do Silício do mundo. É com essa frase que o atual Diretor Executivo de Agropecuária na JBS Seara, José Antonio Ribas Jr, explica o momento pelo qual passa o agronegócio no Brasil, particularmente os setores de aves e suínos.

Situado na Califórnia, Estados Unidos o nome Silício com o qual foi batizado o Vale, é uma homenagem ao próprio elemento químico (Si), que é a matéria-prima básica e de fundamental importância na produção da maior parte dos circuitos e chips eletrônicos.

Segundo Ribas, a avicultura e suinocultura brasileiras estão colocando em andamento projetos que irão promover uma revolução tecnológica no agro brasileiro. Falar sobre esse tema faz brilhar os olhos do Executivo, cujo ideal de vida é poder deixar um legado relevante às gerações futuras, assim como o que recebeu dos que o antecederam.

José Antonio Ribas Jr, Diretor Executivo de Agropecuária na JBS Seara

“Grande parte dos nossos animais de produção vive melhor do que 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo”, destaca Ribas. “O nosso setor é resiliente, com uma capacidade de aprendizado e adaptação impressionantes, nessa pandemia mostramos para a sociedade que é possível produzir alimento e cuidar de gente e a tecnologia está vindo a serviço disso tudo”, completa.

Engenheiro Agrônomo formado em 1992 pela Universidade de Passo Fundo (RS), José Ribas chegou na Seara em 2013, quando a empresa foi adquira pela JBS. Segundo Ribas, foi um momento em que o grupo necessitava adquirir personalidade própria, após haver passado pelas mãos da Ceval (1980) e Bunge (1997), Cargill (2004), Marfrig (2009) e, por fim, JBS (2013).

Trazendo consigo diversas lideranças, Ribas afirma que montou o time que queria. Segundo ele, foram reconstruídas todas as equipes de agropecuária e estabelecida uma equipe corporativa muito forte que, juntos, souberam somar as experiências de profissionais que já estavam na empresa com as dos recém-chegados, receita que segundo Ribas deu muito certo.

Ele lembra que foi um processo muito trabalhoso devido à necessidade de, junto com essa etapa de construção de uma nova empresa, realizar ainda a fusão de outras 15 novas empresas incorporadas ao grupo entre 2013 e 2016.

16 ANOS DE SADIA

Antes de chegar à JBS, José Ribas trabalhou por 16 anos na Sadia e mais quatro anos na já constituída BRF. “Em maio de 1993, quando comecei na Sadia, eu não sabia nada de porco e de frango”, lembra Ribas. Sua formação acadêmica foi focada em cereais de inverno, culturas tradicionais em Passo Fundo, onde inclusive está situada a Embrapa Trigo.

No momento em que ingressou na Sadia, um novo conceito de trabalho estava sendo construído na empresa, preparando-a para o século XXI. Durante um ano, Ribas atuou como extensionista de suínos, testando métodos e ferramentas de trabalho inovadores, alguns trazidos da Nova Zelândia.

“Aquele foi o momento que me transformou definitivamente como profissional, porque ali eu aprendi a me comunicar, conseguia ter um domínio metodológico e gerencial muito bom”, lembra Ribas. Na infância ele era muito tímido, introspectivo e começou a perder o medo de falar em público na adolescência, aos 14 anos, quando foi estimulado por um professor a participar de um concurso de poesia.

“Quando eu entrei no auditório, havia 300 alunos, eu tive que declamar um poema gaúcho e senti todos os sintomas e dores da timidez, bateu o desespero, mas fiz o que tinha que ser feito e, ali, mudou uma chave para mim”, lembra.

O êxito do trabalho realizado junto aos produtores suinícolas chamou a atenção dos que haviam contratado Ribas e ele foi chamado para apoiar o staff da gerência de agropecuária da Sadia Concórdia. Foi quando passou a lidar não apenas com suínos, mas com frangos, matrizes, área florestal, fábrica de ração, época em que fez seu primeiro MBA em Qualidade Total e Produtividade.

Já no final de 1995, com apenas 25 anos de idade, foi chamado para fazer parte do corporativo da Sadia, cuidando do programa de extensão rural para toda a empresa. Nessa função, em 1999, lançou o POTT (Padrão Operacional de Transferência de Tecnologia), que era um modelo de assistência técnica, logo depois partindo para Chapecó (SC) e, em seguida, para Toledo (PR), onde assumiu a gestão de toda a área de suínos da Sadia.

Ribas, que não chegou a conhecer o pai, falecido em um acidente de trânsito quando sua mãe estava grávida de apenas três meses, destaca aqui uma das muitas e qualificadas referências masculinas de sua vida profissional, Juan Carlos Casas Serra, falecido em 2000. “Uma das cabeças mais brilhantes que eu conheci, reunia duas coisas raras de serem vistas juntas na mesma pessoa, que era a profundidade técnica e uma habilidade absurda de relacionamento e comunicação, lembra.

Nesse período Ribas fez o segundo MBA, em Gestão Empresarial, na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e em 2005 foi promovido e levado novamente a uma área corporativa, com o objetivo de montar um CIEX (Centro de Inovação e Excelência) para a agropecuária de toda a empresa.

“Montamos um time do zero, fui selecionando cada pessoa que eu queria e montamos um time brilhante”, recorda Ribas. “Sempre tive a sorte de escolher quem trabalhava comigo, poucas vezes herdei equipes, e até hoje grande parte dessas pessoas trabalham comigo porque os levei para onde eu fui”, completa.

Em 2007 chegou a tentar se desligar da Sadia, mas foi convidado a assumir a regional de operações agro do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, saindo de funções de planejamento e estratégia, para uma função de operação.

“Assumi isso em 1/01/2008, quando começamos um trabalho muito legal e em 13/8/2008, data do meu aniversário, fui convidado a deixar a operação e assumir um trabalho estratégico da companhia”, conta Ribas. “Foi um processo muito negociado, pois eu sentia a necessidade de entregar o que havia começado na operação, mas precisava ao mesmo tempo atender o chamado da empresa”, completa.

Aqui Ribas recorda de um outro nome que foi uma importante referência em sua vida profissional, Valmor Savoldi, que liderava o projeto para o qual estava sendo chamado a se dedicar. “Trabalhamos arduamente na construção do MaterPlan do projeto”, recorda. “No início de setembro de 2008, precisamente no dia 9, apresentamos ao Comitê Executivo da Sadia o projeto, a equipe que idealizou e executaria o mesmo e aprovamos tudo na integra!”, completa.

Entretanto, dias após a aprovação, houve o Fato Relevante da Sadia e a empresa estava falida. Veio a ordem de que o Projeto deveria ser cessado, muitos desligamentos foram solicitados porque não havia dinheiro para seguir o projeto”, conta. “Foram dias muito difíceis, uma experiência amarga e frustrante, lamenta.

Os meses seguintes foram definidos por Ribas como um período tortuoso, em que o foco se voltou para manter a operação da empresa. “Nunca esqueço que em dezembro de 2008 fomos reunidos para nos dizerem que a empresa não seria vendida e semanas à frente estávamos avisados do processo de ‘fusão’ com a Perdigão, fato anunciado ao mercado em maio de 2009”.

CAPÍTULO NOVO EM SUA VIDA

A fase de unificação das equipes e projetos Sadia e Perdigão é definida por José Antonio Ribas Jr. como um novo capítulo em sua vida, mais uma vez referenciado por um líder que classifica como brilhante, Luiz Adalberto Stabile Benício, então diretor de agropecuária da Perdigão.

“As divergências de cultura, ideias, eram evidentes, mas a gente tentava fazer melhor”, lembra Ribas. Esse trabalho seguiu de 2009 até a chegada de Abílio Diniz à presidência do Conselho de Administração da BRF, em 2013.

Nesse período Ribas fez o seu 3º MBA na Fundação Dom Cabral e realizou ainda uma quarta especialização, segundo ele, diferente de tudo o que já fez em sua vida. “Não tinha sala de aula, eram debates com as mentes mais notáveis desse país, como Clovis de Barros, Mário Sergio Cortella, Paulo Gaudêncio, entre outros”, lembra.

Inclusive, a coach deste processo, Ale Moesch, acompanha a vida profissional de Ribas até hoje, orientando-o e, segundo ele, exercendo papel relevante na construção de sua liderança e aprendizados, se enquadrando também entre as importantes referências profissionais da vida do executivo.

Foi então que Gilberto Tomazoni, ex-presidente da Sadia, que havia deixado a empresa na ocasião da fusão com a Perdigão, chamou José Ribas para fazer parte da equipe da JBS. E a missão foi assumida por Ribas em 2013.

CARNE FRACA

No quarto ano de trabalho de Ribas junto à Seara, mais precisamente em março de 2017, o setor se deparou com a operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal para investigar um suposto esquema de fraudes no Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) e irregularidades cometidas por grandes e pequenos frigoríficos.

“Foi um banho de água fria em todos nós, maltratou o setor”, recorda. Nesse período Ribas já estava na presidência da ACAV (Associação Catarinense de Avicultura) o que gerou demandas e muitas ações à frente do setor. Em maio de 2017 veio a delação da JBS.

Foi muito difícil manter o foco, a energia, enfim, manter o time em pé. As pessoas se chocavam com tudo aquilo, eu estava abatido, lembro de meu filho me ligando e querendo entender o que estava acontecendo”, recorda Ribas. Segundo ele, a equipe se apoiou no fato de a operação da empresa não estar envolvida nas denúncias e não haver executivos sendo arrolados no processo.

“Foi um momento de um imenso investimento pessoal em conversar com as pessoas, individualmente e em equipe”, conta Ribas. “Fazer conversas francas e refazer os contratos, sempre com uma abordagem muito clara: somos parte da solução e não do problema”, lembra.

Segundo Ribas foram feitos inúmeros trabalhos em equipe para manter a coesão e foco do grupo. “Levei parte da minha equipe para acampar no meio do mato e fazer conversas verdadeiras, juntar os pedaços para dar a volta”, explica.

E em dezembro de 2017 a Seara já apresentava resultado melhor que a concorrente, segundo Ribas, preparada para dar a volta por cima em 2018, resultado que só foi possível graças à liderança da presidente da Seara à época, Joanita Karoleski.

GREVE DOS CAMINHONEIROS

“Mas veio a greve dos caminhoneiros no final de maio”, recorda Ribas. “Talvez poucos tenham entendido a dimensão e os impactos na nossa cadeia, que é muito extensa; perdemos animais, a biosseguridade foi muito impactada pela urgência em não deixar os animais morrerem de fome e, quando conseguimos colocar tudo no lugar novamente já era dezembro”, lembra Ribas.

Segundo ele, a crise gerada pela greve dos caminhoneiros destacou o maior valor da empresa; as pessoas, os profissionais deram uma grande demonstração de competência, garra e comprometimento.

Em 2019, em uma nova mudança na estrutura da Seara, José Antonio Ribas, que era uma liderança do corporativo, foi desafiado a acumular também a operação agropecuária da empresa. “Somos muito bons em mudar a estrutura, mas com a vantagem de que só embaralhamos as cartas porque as peças são sempre as mesmas”, brinca Ribas.

Desde 2020 Ribas está na área corporativa, ligado diretamente a Wesley Batista Filho, que em janeiro daquele ano assumiu a presidência da Seara no lugar de Joanita Karoleski.

ADMINISTRANDO O TEMPO

Além da Diretoria Executiva de Agropecuária da Seara e a presidência da ACAV, Ribas acumula ainda a diretoria do Sindicarne-SC (Sindicato das Indústrias de Suínos), faz parte do Conselho Consultivo da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) e, mais recentemente, tornou-se vice-presidente do Sindiavipar (Sindicato das Indústrias de Aves do PR).

Sediado em Itajaí (SC), onde permanece uma semana por mês para alinhamentos da área corporativa, visitas de resultados e planejamentos mensais, Ribas viaja para São Paulo (SP) pelo menos três vezes por mês para reuniões presidenciais. O restante do mês utiliza para visitar unidades, ou projetos que a empresa desenvolve em parceria com a Universidades e outras empresas.

Segundo Ribas, 70% do seu tempo é dedicado aos resultados anuais da Seara e os outros 30% para o que é estratégico e tático na empresa. Pelo menos um dia do mês, ainda faz um reuniões presenciais na ACAV, em Florianópolis (SC), e no Sindiavipar, em Curitiba (PR).

Hoje com 49 anos, desde 2012 Ribas também aprendeu a cuidar da saúde, dedicando-se às corridas e caminhadas. “Quando posso ainda me apresento para um futebolzinho com os amigos”, observa. “E uso as caminhadas como um momento de reflexão e silêncio, para organizar a mente”, completa.
Encontra tempo ainda para ouvir música e conversar com amigos. “Onde estou tem música, adoro estar cercado dos amigos e ouvir boas canções e histórias, mas se a música for sertaneja estou fora”, brinca Ribas. No 9º semestre da Faculdade, na década de 90, Ribas já estava casado, com filho e, entre outras tarefas, trabalhava numa rádio de Passo Fundo e era disc jockey (DJ) em festas nos finais de semana.

Ribas reforça que o segredo para dar conta disso é possuir uma equipe na qual confia e para a qual delega muita autoridade e responsabilidade. Os mais novos desse time já estão com Ribas há sete anos, e os outros o acompanham por mais de 15 e 20 anos. “Desenvolvo equipes que tomam decisões, que criticam e debatem ideias, independentemente de hierarquia”, ressalta. “Autonomia e confiança são relevantes, eu acredito em apoio e forte cobrança e costumo dizer que quando eu parar de cobrar é porque desisti daquele profissional”, completa.

TEMPO PARA SONHAR

Perguntado se ainda sobra tempo para sonhar, Ribas não apenas responde afirmativamente, como acrescenta que sonha bastante alto. Tenho sonhos dentro da Seara e estou trabalhando numa agenda muito intensa e, nos próximos 90 dias, espero começar a ver se concretizar uma estratégia que vai fazer um bem enorme para a companhia, contou, sem poder revelar detalhes sobre o referido projeto por questões estratégicas.

“E tenho alguns outros sonhos de longo prazo, de construir algumas coisas bem diferentes, inovadoras, em termos de representação para o setor”, explica Ribas. O dirigente explica que tem conversado com pessoas de outros países, observando como o setor se organiza na Espanha, Portugal, Estados Unidos e Alemanha.

Para Ribas, nesse aspecto, os planos devem ser orientados por três diretrizes: comunicação, coordenação e liderança.

Em termos de comunicação Ribas acredita que o setor ainda é muito reativo, havendo muita resistência à proatividade. Porém, para ele não há outro caminho senão falar o que é feito e fazer o que é dito. “Devemos nos preparar para o ônus e o bônus deste processo, já que mostrar o agro para as novas gerações é um desafio”, diz.

Sobre a diretriz coordenação, Ribas defende que o setor precisa realizar um trabalho diferente, que dê suporte ao trabalho que é desenvolvido pelo Ministério da Agricultura e facilite a vida de todo o setor de forma mais efetiva. “As entidades não existem apenas para os momentos de crise e ou defender interesses individuais”, destaca. “Temos que pensar estrategicamente, enxugando a pauta, simplificando a representação para obter a força necessária e desenvolver o plano agro de dez ou 20 anos para o país.”, observa.

Por fim, sobre a diretriz liderança, Ribas defende a criação de uma escola de lideranças do agro, constituída por um conselho de notáveis para orientar os planos do setor e as políticas públicas, inserindo todos os atores do setor: ciência, ensino, pesquisa, políticos, empresários.

“Nossos antecessores foram brilhantes, construíram grande empresas e formaram muita gente boa como sucessores e a gente tem uma piazada, com um potencial extraordinário, que precisam de apoio para serem os novos gestores de amanhã”, pondera.

Ribas conclui lembrando que o Brasil produz alimentos para todo o mundo, com qualidade e em quantidade que nenhum outro país pode fazer, respeitando todos os conceitos do ESG. Por essas e outras razões é que Ribas afirma que o agro brasileiro é o novo vale do silício do mundo.

“O produtor brasileiro é um exemplo”, destaca. “Infelizmente, a mídia dá espaço para aqueles poucos e maus exemplos, cabendo a nós ocupar espaços e mostra o que temos de melhor, fazendo, assim, com que a sociedade perceba o valor do agro brasileiro”, conclui.

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