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Como os probióticos atuam como alternativa aos antibióticos na avicultura? Das evidências científicas ao enfoque prático

Escrito por: Nathana Ruio - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" , NIlva Sakomura - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" , Rony Riveros - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"
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Como os probióticos atuam como alternativa aos antibióticos na avicultura? Das evidências científicas ao enfoque prático

Nathana Rudio, Rony Riveros e Nilva Sakomura – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”

A produção de frangos de corte é um dos setores de maior crescimento na produção de proteína animal. No último ano, foram produzidas 126,5 milhões de toneladas de carne de frango no mundo (FAO, 2025), resultado que reflete os avanços tecnológicos e científicos em genética, manejo e nutrição. Contudo, a produção de frangos de corte está constantemente sujeita a desafios, como altas temperaturas, condições sanitárias desfavoráveis, entre outros. Um status sanitário precário do lote é o potencial de desenvolvimento de doenças, que provocam prejuízos à resposta produtiva, à mortalidade e aos problemas econômicos para o setor.

Dentre as principais doenças bacterianas, a enterite necrótica (EN) é um dos problemas sanitários com maior incidência e altas taxas de mortalidade em condições comerciais (Tabela 1).

Tabela 1. Principais doenças bacterianas, incidência e mortalidade em condições comerciais de frangos de corte.

A EN é uma doença bacteriana, causada principalmente pela proliferação descontrolada de Clostridium perfringens no trato gastrointestinal, que resulta na liberação de toxinas que provocam a lise dos enterócitos. Entretanto, para favorecer a entrada de C. perfringens, requerem-se outros agentes que causam dano físico à mucosa intestinal. Esse dano físico na mucosa e nos enterócitos é comumente causado por um protozoário Eimeria spp., principal agente patogênico da coccidiose, outra doença de alta incidência e responsável por elevada mortalidade. Ambos os agentes patogênicos agravam o desenvolvimento da EN (Madlala et al., 2021).

A coccidíose pode ser causada por uma variedade de espécies de Eimeria spp. (mais de 1700 espécies identificadas), das quais se destacam apenas três espécies com maior patogenicidade em aves de produção. O monitoramento da prevalência das principais espécies de Eimeria (E. acervulina, E. maxima e E. tenella) na produção comercial de frangos de corte no Brasil (Figura 1A), evidenciou que a prevalência dessas espécies pode variar ao longo do crescimento das aves (Gazoni et al., 2025). Aves mais novas apresentam maior prevalência de E. maxima, enquanto a E. acervulina aumenta à medida que as aves crescem. Entretanto, tanto comercialmente quanto experimentalmente, tem sido destacado o efeito mais agravante da E. maxima sobre a resposta produtiva, bem como sua alta correlação com a mortalidade das aves (Figura 1B).

Figura 1. (A) Prevalência das cepas de Eimeria para cada fase de produção e (B) correlação entre a mortalidade e a prevalência para cada fase de crescimento do frango de corte.

Diversas estratégias têm sido adotadas para mitigar os efeitos deletérios do desafio por EN em frangos de corte, sendo a mais utilizada a suplementação de antibióticos (ATB) em dietas comerciais, em níveis subterapêuticos. Entretanto, o controle e a regulação (banimento) dos ATB exigem o desenvolvimento de aditivos alternativos aos ATB, capazes de enfrentar os problemas de resistência aos antimicrobianos na produção animal e na saúde humana (Singh et al., 2025).  O uso de antimicrobianos, tanto em doses de inclusão quanto em tipos, tem se reduzido gradativamente para uso como melhoradores do desempenho dos frangos de corte, até o banimento total em abril de 2026, conforme a Portaria SDA/MAPA 1617/2026 do MAPA (Tabela 2).

Tabela 2. Principais eventos na regulação de antimicrobianos entre 2010 e 2026, bem como os níveis de inclusão tradicionalmente utilizados no Brasil. (Fontes: MAPA — Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; ABPA — Associação Brasileira de Proteína Animal.)

Nesse contexto, os probióticos surgem como alternativa aos ATB com o intuito de melhorar a saúde intestinal das aves, estimular uma resposta imune ativa e enfrentar problemas sanitários, visando preservar uma ótima resposta produtiva sem o uso de antimicrobianos (M’Sadeq et al., 2015; Singh et al., 2025). Probióticos são microrganismos benéficos que atuam no intestino, promovendo o equilíbrio da microbiota intestinal, fortalecem a barreira epitelial e impedem a colonização de patógenos como Eimeria e Clostridium perfringens (Al-Seraih et al., 2022; Opazo et al., 2025).

O que é a enterite necrótica e como ela é causada

A enterite necrótica pode apresentar maior incidência entre os 21 e 37 dias de idade em frangos de corte, período suficiente para completar o ciclo de vida dos patógenos e para infectar ou reinfectar o hospedeiro. A presença de Eimeria é um fator predisponente, por meio do dano físico causado ao destruir a mucosa, a túnica submucosa e o epitélio intestinal (Madlala et al., 2021). Isto resulta em um distúrbio na comunidade microbiana do intestino (disbiose), favorecendo a proliferação de bactérias potencialmente patogênicas e reduzindo a população e as famílias de bactérias benéficas, o que desequilibra a composição bacteriana do TGI (Ducatelle et al., 2015).

As lesões causadas pela Eimeria no lúmen intestinal resultam na apoptose dos enterócitos, permitindo o extravasamento de proteínas plasmáticas para o trato intestinal, que servem de substrato para a proliferação da bactéria oportunista como o C. perfringens (Mohamed et al., 2022). Além disso, há aumento da secreção de muco intestinal e redução na absorção de nutrientes do alimento, criando um ambiente rico em nutrientes utilizados por essa bactéria (Kaldhusdal et al., 2021).

Após uma maior proliferação do C. perfringens em um ambiente favorável, estes continuam causando dano químico por meio da produção de toxinas (α-toxina, β-toxina e NetB), que provocam necrose na mucosa, o que ocasiona a EN em um processo simbiótico entre Eimeria spp. e C. perfringens (Figura 2).

Figura 2. A enterite necrótica, desde a ingestão dos oocistos de Eimeria spp., ciclo de vida e dano físico, além da colonização do C. plerfringens e desenvolvimento da infeção da enterite necrótica e suas consequências. Fonte: própria dos autores.

Este processo infeccioso subclínico desencadeia, principalmente, redução do consumo de ração nas aves de até 30% (indução de anorexia como mecanismo protetor), o que resulta em redução da resposta produtiva (Figura 3). Após o período infeccioso, as aves tendem a recuperar o consumo de ração, mas, na produção comercial, isso representa um dano irreversível, com 10% de menor consumo de ração e 15% de redução no ganho de peso.

Figura 3. Fases do processo de infecção da EN em frangos de corte, em relação ao consumo de ração, de aves infectadas (em verde) em comparação com aves sadias (em azul). Fonte: Dados experimentais obtidos no Laboratório de Ciências Avícolas (Lavinesp), Unesp FCAV.

Os probióticos são micro-organismos vivos que, quando ingeridos em quantidades adequadas, conferem benefícios à saúde do hospedeiro (FAO/WHO, 2001). A utilização na alimentação animal contribui para o equilíbrio da microbiota intestinal, por meio da colonização por microbiota benéfica, uma vez que compete com microrganismos patógenos, inibindo sua proliferação e melhorando as funções da comunidade microbiana (Opazo et al., 2025). Com isso, a suplementação com probióticos visa melhorar a integridade intestinal, a absorção de nutrientes e, consequentemente, o desempenho produtivo (Al-Seraih et al., 2022).

O uso de probióticos, além de promover a proliferação de bactérias benéficas e inibir a proliferação de bactérias patogênicas por meio de “exclusão competitiva” (Figura 4), apresenta outros benefícios.

Figura 4. Mecanismos de ação dos probióticos. Fonte: adaptado de Lafit et al. (2023).

(1) A “exclusão competitiva” é o principal mecanismo de ação pelo qual o probiótico compete com as bactérias patogênicas pelo sítio de ligação dos receptores na camada mucosa e no epitélio intestinal.

(2) Atuam como agentes antimicrobianos e moduladores da microbiota, por meio da produção de ácidos graxos de cadeia curta (principalmente ácido butírico), ácidos orgânicos, peróxido de hidrogênio e bacteriocinas, impedindo, assim, a proliferação de bactérias patogênicas no intestino.

(3) Promovem a melhoria da função da barreira intestinal: os probióticos induzem a secreção de mucinas, a manutenção ou o aumento da fosforilação de proteínas da junção estreita (ocludina e claudina 1), estimulando a resposta imune do intestino.

(4) Estimulam a resposta imune inata e adaptativa, modulando células dendríticas, macrófagos e linfócitos B e T, e aumentam a produção de citocinas pró-inflamatórias (Lafit et al., 2023).

Principais gêneros e cepas utilizadas

Dentre os probióticos mais utilizados na nutrição de frangos de corte, destacam-se as bactérias dos gêneros Bacillus, Lactobacillus e Enterococcus. Certos mecanismos e a eficácia são específicos de cada cepa e de cada gênero de probiótico.

Bactérias do gênero Bacillus são classificadas como bastonetes Gram-positivos e formadores de esporos. Os Bacillus spp. colonizam o ambiente intestinal e produzem uma variedade de enzimas que melhoram a absorção de nutrientes em aves (Latorre et al., 2016). O mecanismo de competição por sítios de ligação na mucosa intestinal ocorre na camada mucosa, composta por glicolipoproteínas, que reveste o epitélio intestinal. Dessa forma, evita-se a colonização por bactérias patogênicas que têm afinidade pelo mesmo sítio de ligação (Soerjadi et al., 1982). A esporulação dessas bactérias confere resistência a pH ácidos (2,5 a 6) e a sais biliares, aumentando a viabilidade e garantindo a sobrevivência em regiões do TGI superiores (proventrículo e duodeno).

Os Lactobacillus são outro grupo de bactérias anaeróbias, produtores de ácido láctico e de outras substâncias antimicrobianas, como bacteriocinas e peróxido de hidrogênio, que evitam a proliferação de bactérias patogênicas. Estes microorganismos apresentam proliferação eficiente em ambientes de pH ácido, tornando-os mais ácidos por meio da fermentação láctica, e são resistentes a ambientes com baixo teor de oxigênio, dada sua natureza anaeróbia, podendo colonizar regiões como o papo, o proventrículo e, em quantidades mais expressivas, o íleo e o ceco, competindo diretamente com o Clostridium. De acordo com Li et al. (2017), os L. acidophilus podem diminuir a expressão de citocinas e quimiocinas pro-inflamatórias (IL-1β), possuindo a capacidade de aliviar a inflamação. Além disso, podem melhorar a morfometria das vilosidades, reduzir as lesões associadas à EN e a mortalidade. Além disso, L. acidophilus e L. fermentum possuem a capacidade de inibir a produção de α-toxina de C. perfringens e de suprimir a resposta inflamatória causada pela infecção por enterite necrótica (Guo et al., 2017).

Enterococcus faecium é uma bactéria Gram-positiva que tem sido recentemente utilizada em animais de produção. Uma grande vantagem associada ao E. faecium é a sua capacidade de colonizar o intestino de forma eficaz e permanecer por um período mais longo, o que auxilia na regulação da microbiota intestinal.  A incorporação da cepa E. faecium na dieta de frangos de corte desafiados com C. perfringens resultou em aumento da expressão da proteína de junção estreita Claudina-1 e no controle da inflamação intestinal, por meio da regulação da expressão de citocinas, fatores de crescimento, proteínas de choque térmico e receptores Toll-like (TLRs) (Wu et al., 2019). Este mecanismo contribui para a redução das lesões de enterite necrótica no intestino. Além disso, E. faecium pode estimular a resposta imune da mucosa intestinal e aumentar a resistência das aves a infecções por patógenos intestinais (Cao et al., 2013).

Benefícios práticos do uso de probióticos na avicultura

Ainda que o principal problema no desafio de saúde seja, principalmente, a redução do consumo de ração e, consequentemente, a piora da resposta produtiva, o uso de probióticos pode apresentar resultados promissores. Um estudo meta-analítico (n = 9) evidência, de forma abrangente, os benefícios dos probióticos em condições experimentais (Figura 5).

Figura 5. Variação dos parâmetros de desempenho do tratamento com inclusão de probiótico versus o tratamento controle. (A) consumo de ração; (B) ganho de peso e (C) conversão alimentar. Fonte: própria dos autores.

Aves mantidas em condições práticas de produção estão constantemente expostas ao estresse. Isso leva a uma redução do consumo de ração em média de 3,9% (Figura 5A); entretanto, a suplementação de probióticos pode trazer benefícios para que, ainda sob essas condições, se otimize, em média, o ganho de peso de 6,7% em relação ao tratamento controle (Figura 5B), resultando em uma melhora na conversão alimentar de 10,1% em relação ao tratamento controle (Figura 5C). Ainda que essa resposta dependa da dosagem, da cepa do probiótico, entre outros fatores, esta visão global evidencia as vantagens da suplementação com probióticos em condições práticas.

Para evidenciar a eficácia dos probióticos em condições de desafio de saúde com EN, em estudos experimentais, outro estudo meta-analítico avaliou o efeito dos probióticos sobre a resposta produtiva (Figura 6). A indução de EN é tradicionalmente estabelecida experimentalmente em protocolos aos 14 dias, com inoculação de oocistos de Eimeria spp., e, posteriormente, realiza-se a inoculação com C. perfringens entre 4 e 7 dias após, período necessário para garantir a esporulação e a ação da Eimeria. A suplementação de probióticos, prévia, durante e após o desafio, tem objetivos distintos, porém relacionados.

Figura 6. Relação entre a diferença do ganho de peso (X) e o consumo de ração (Y) para quantificar o efeito do tratamento em aves desafiadas com modelo de desafio de enterite necrótica.

Pré-infecção: prevenir, estimulando a ativação do sistema imunológico, colonizando as regiões suscetíveis do TGI e estabelecendo um equilíbrio adequado na microbiota. Durante a infecção: proteger, produzir substâncias bactericidas e competir pelos sítios de ligação com microrganismos patogênicos. Pós-infecção: favorecer a reparação dos danos, manter o sistema imunológico ativo e promover maior absorção de nutrientes, por meio do restabelecimento do microbioma do TGI e da produção de enzimas que melhoram a digestibilidade dos nutrientes. Entretanto, os efeitos benéficos do uso de probióticos variam conforme as fases.

Durante a fase de pré-infecção, o probiótico demonstrou melhora no consumo de ração, o que resultou em maior ganho de peso comparado com o tratamento controle, evidenciando seu efeito benéfico antes mesmo do desafio (Figura 6A). Já durante o período de infecção, observa-se que a suplementação com probiótico tenta segurar a queda no consumo de ração; entretanto, o prejuízo na redução do consumo de ração e, consequentemente, no ganho de peso se observa em ambos os grupos (Figura 6B). Entretanto o uso de probióticos apresenta menor redução do ganho de peso sobre essas condições, conferindo seu efeito protetivo. Finalmente, após o desafio, ainda que persista a redução no consumo de ração, ela não é tão agressiva quanto a do grupo sem aditivos (Figura 6C).

Perspectivas gerais

Com a proibição definitiva dos antibióticos como melhoradores de desempenho no Brasil, estabelecida pela Portaria SDA/MAPA 1617/2026, a avicultura comercial precisa adotar alternativas eficazes para manter a saúde intestinal das aves e a rentabilidade da produção. Nesse contexto, os probióticos se apresentam como uma das alternativas promissoras e atuam diretamente nos mecanismos que tornam o intestino menos vulnerável à EN, que representa um dos maiores desafios sanitários e econômicos da produção de frangos de corte. Gêneros como Bacillus, Lactobacillus e Enterococcus demonstram, por meio de diversas evidências científicas, a capacidade de equilibrar a microbiota intestinal, fortalecer a barreira epitelial, modular a resposta imune e melhorar a absorção de nutrientes, com resultados produtivos superiores. Portanto, os probióticos deixam de ser uma alternativa complementar e passam a ser um componente essencial das estratégias de saúde intestinal na nutrição avícola.

Referências sob consulta junto ao autor

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