Doença de Marek – Estratégia em Frango de Corte
João Paulo Zuffo1,3, Dra. Fabiana Moreira2, Dra. Vanessa Peripolli2, Dr. Ivan Bianchi2, Dra. Elizabeth Schwegler2, Eliza Maria Chagas da Silva3
1 – Médico Veterinário – Especialista em Saúde animal na Seara Alimentos
2 – Docente no Instituto Federal Catarinense – IFC Campus Araquari – SC
3 – Discente no Instituto Federal Catarinense – IFC Campus Araquari – SC
A Doença de Marek (DM) permanece como um dos principais desafios sanitários da avicultura moderna, mesmo após décadas de avanço tecnológico e implementação de programas vacinais. Trata-se de uma enfermidade viral de caráter oncogênico e imunossupressor, causada pelo Marek’s disease virus (MDV), pertencente à família Herpesviridae. Sua relevância estratégica decorre não apenas da mortalidade associada, mas principalmente dos impactos indiretos sobre desempenho produtivo, uniformidade e eficiência operacional.
UM DESAFIO SILENCIOSO NA PRODUÇÃO INTENSIVA
Conforme descrito por Mulyati et al. (2025), a Doença de Marek continua sendo um desafio global, com ocorrência persistente em diferentes regiões produtoras, mesmo em sistemas vacinados. A capacidade do vírus de permanecer no ambiente e infectar aves de forma precoce torna a doença especialmente crítica em sistemas de alta densidade.
Dadousis et al. (2026) reforçam que a doença apresenta caráter multifacetado, envolvendo imunossupressão, lesões neurológicas e formação de tumores viscerais, além de impacto direto no desempenho zootécnico.
DINÂMICA DA INFECÇÃO: ENTENDENDO O PROCESSO
A infecção ocorre principalmente por via respiratória, por meio da inalação de partículas virais presentes na poeira contaminada. Após a entrada no organismo, o vírus infecta inicialmente macrófagos e células B, sendo posteriormente transportado para órgãos linfoides.
Segundo Mulyati et al. (2025), a replicação inicial ocorre predominantemente em células B, enquanto a fase subsequente envolve infecção e latência em linfócitos T CD4+, os principais responsáveis pela transformação tumoral.
Murata (2025) destaca que a transformação neoplásica está diretamente associada ao gene meq, considerado um oncogene chave na patogênese da doença.
DIAGNÓSTICO: IDENTIFICAÇÃO E CONFIRMAÇÃO DA DOENÇA
O diagnóstico inicial para a Doença de Marek em condições de campo fundamenta-se em sinais clínicos e na avaliação de lesões macroscópicas durante a necropsia, bem como de alterações microscópicas em amostras teciduais de aves infectadas. A confirmação da infecção é realizada por meio de métodos laboratoriais virológicos e imunológicos, que permitem a detecção do agente causador doença (Zelník, 2021).
A confirmação da Doença de Marek baseia-se na associação entre a histopatologia e PCR em tempo real, sendo considerados métodos mais confiáveis. Métodos como isolamento viral, PCR convencional e testes sorológicos apresentam valor diagnóstico limitado, uma vez que a presença do vírus ou de anticorpos não indica necessariamente doença clínica. Apesar de a histologia permitir a confirmação do linfoma, sua utilização isolada não possibilita a diferenciação completa de outras neoplasias (Kurokawa; Yamamoto, 2022)
O avanço das técnicas de PCR convencional e em tempo real tem aprimorado o diagnóstico da Doença de Marek, possibilitando a distinção entre cepas vacinais e patogênicas. Adicionalmente, esses métodos têm sido amplamente utilizados para elucidar mecanismos associados à infecção pelo vírus, incluindo sua disseminação, liberação e os efeitos das cepas vacinais na evolução da doença (Zelník, 2021).
PRESSÃO DE INFECÇÃO: O PRINCIPAL FATOR DE RISCO
Em sistemas comerciais, a pressão de infecção ambiental é um dos principais determinantes da manifestação clínica da doença. A elevada carga viral no ambiente, associada à permanência do vírus em células epiteliais dos folículos das penas, favorece a disseminação contínua.
A excreção viral pode ocorrer por semanas, mantendo o ambiente contaminado e favorecendo infecções precoces (Mulyati et al., 2025).
VACINAÇÃO: BASE DO CONTROLE, COM LIMITAÇÕES
A vacinação contra Marek é considerada um dos maiores avanços da medicina veterinária. No entanto, sua principal limitação reside no fato de não conferir imunidade esterilizante.
Conforme Murata (2025), as vacinas são eficazes na prevenção de tumores e sinais clínicos, mas não impedem a infecção nem a excreção viral. Isso permite a circulação contínua do vírus no ambiente. Dadousis et al. (2026) complementam que a eficácia vacinal pode variar de acordo com a genética das aves, reforçando a importância da interação entre imunidade e hospedeiro.
Embora exista um vigoroso programa de vacinação, a infecção pela Doença de Marek continua a se disseminar na avicultura. Essa condição está associada a modificações genéticas que favorecem o aumento da virulência, além de fatores operacionais como falhas no manejo, ou à conservação inadequada das vacinas, além da presença de condições imunossupressoras concomitantes (YEHIA et al., 2021).
EVOLUÇÃO VIRAL: UM DESAFIO EM CONSTANTE PROGRESSÃO
A Doença de Marek apresenta uma das mais claras evidências de evolução viral induzida por pressão seletiva. Ao longo das décadas, observou-se a progressão de cepas de baixa virulência para formas altamente virulentas (vv e vv+).
Murata (2025) sugere que a pressão imunológica decorrente da vacinação pode ter contribuído para a seleção de cepas mais agressivas, tornando o controle da doença um processo dinâmico.
RESISTÊNCIA GENÉTICA: UMA FRONTEIRA ESTRATÉGICA
Estudos conduzidos por Dadousis et al. (2026) demonstram que a resistência à Doença de Marek possui base genética complexa e poligênica. Diferentes vias imunológicas, como JAK/STAT, mTOR e respostas Th1/Th2, estão envolvidas na modulação da susceptibilidade.
Essa variabilidade abre espaço para estratégias complementares baseadas em seleção genética, com potencial de redução da dependência exclusiva de vacinas.
IMPACTO ECONÔMICO: ALÉM DA MORTALIDADE
Os impactos da Doença de Marek vão muito além da mortalidade direta. A imunossupressão induzida pelo vírus aumenta a susceptibilidade a outras enfermidades, elevando custos sanitários. Além disso, há perdas relacionadas à pior conversão alimentar, redução de ganho de peso e aumento de condenações em abatedouro, comprometendo a eficiência produtiva (Mulyati et al., 2025).
ESTRATÉGIA INTEGRADA: O CAMINHO PARA O CONTROLE
O controle efetivo da Doença de Marek depende de uma abordagem integrada. A vacinação deve ser associada a práticas rigorosas de biosseguridade, incluindo controle de acesso, limpeza, desinfecção e manejo adequado de cama. O monitoramento contínuo e a análise de dados de campo são fundamentais para ajustes estratégicos. A combinação de vacinação, genética e biosseguridade representa o modelo mais robusto de controle.
CONCLUSÃO: EXECUÇÃO COMO DIFERENCIAL
A Doença de Marek permanece como um desafio relevante e dinâmico. O conhecimento técnico sobre a doença está amplamente consolidado; no entanto, o diferencial competitivo está na qualidade da execução das estratégias no campo.
A integração entre ciência, tecnologia e operação é essencial para mitigar riscos, reduzir perdas e garantir sustentabilidade na produção avícola.
Referências sob consulta junto ao autor
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