Enterococcus spp. na avicultura brasileira: uma causa subdiagnosticada de distúrbios locomotores
Marcos Vinícius Melges Lens1, Ana Carolina Bergamo Benteo¹, João Vitor da Silva Costa¹, Evelin Lurie Sano¹, Maria Fernanda Marques Pilli¹, Rafael Mesalla Costalonga Andrade¹, Ana Angelita Sampaio Baptista¹
¹Universidade Estadual de Londrina – UEL
Os distúrbios locomotores destacam-se por comprometerem o desempenho produtivo dos plantéis, elevarem as taxas de mortalidade e aumentarem as condenações em abatedouros. Essas condições ocorrem com frequência e, em muitos casos, apresentam etiologia multifatorial, o que dificulta sua completa elucidação (Higuita et al., 2024).
Enterococcus spp. é apontado como um potencial agente etiológico da osteomielite (Deslauriers & Boulianne, 2024), podendo atuar isoladamente ou em infecções mistas, contribuindo para o desenvolvimento de processos inflamatórios em articulações, ossos e estruturas vertebrais, frequentemente associados a quadros de claudicação, paresia ou paralisia.
Enterococcus spp. são cocos Gram-positivos (Figura 1), anaeróbios facultativos e não formadores de esporos, reconhecidos como comensais da microbiota intestinal de humanos e animais, com mais de 50 espécies descritas (Kered et al., 2025).
Figura 1. (a) Cultura de Enterococcus spp. em CHROMagar™. (b)
Enterococcus spp. em coloração de Gram [obj.100x]. Fonte: os autores.
No Brasil E. faecalis é o principal agente isolado de osteomielite vertebral em frangos de corte, diferindo da Europa em que o E. cecorum destaca-se como patógeno envolvido na condição patológica.
Infecção
A infecção sistêmica por Enterococcus spp. permanece pouco esclarecida, porém, a literatura aponta o processo de translocação bacteriana a partir do sistema respiratório ou trato gastrintestinal (Souillard et al., 2022), como um dos principais mecanismos envolvidos no desenvolvimento de lesões locomotoras e septicêmicas em frangos de corte (Reynalds, Hille & Jia, 2025).
Uma possível associação entre a osteomielite vertebral e o sistema respiratório está relacionada a presença de vértebras pneumáticas. No entanto, a pneumatização da vértebra torácica livre (T4), frequentemente acometida, ocorre apenas após oito semanas de idade, sugerindo que essa via esteja presente em aves mais velhas (Braga, Martins & Ecco, 2018).
A mucosa intestinal exerce importante função de barreira por meio da integridade das “tight junctions”, produção de muco, ação imunológica local e competição microbiana (Ducatelle et al., 2023). Quando esse sistema é comprometido, como em condições de disbiose, ocorre aumento da permeabilidade intestinal, facilitando a translocação de microrganismos oportunistas como Enterococcus spp. para a circulação sanguínea.
Uma vez na circulação, Enterococcus spp. podem colonizar diferentes tecidos, com predileção por estruturas ósseas e articulares. Acredita-se que regiões ósseas submetidas a microtraumas constantes ou elevado estresse mecânico, como metáfises de ossos longos e vértebras toracolombares, apresentem maior suscetibilidade à colonização bacteriana. Esses locais possuem intensa vascularização e áreas de fluxo sanguíneo mais lento, condições que facilitam a deposição de bactérias circulantes (Szafraniec, Szeleszczuk & Dolka, 2022).
Como identificar o problema no plantel?
A claudicação em frangos de corte está associada a diversas etiologias, sendo a condronecrose bacteriana com osteomielite (CBO) (Figura 2) uma das principais. A colonização por Enterococcus spp. promove inflamação local, necrose da cartilagem e do tecido ósseo subcondral, resultando em dor, dificuldade de locomoção e, em casos mais graves, incapacidade de sustentação do peso corporal (Anthney, Do & Alrubaye, 2024).
Figura 2. Condronecrose bacteriana com osteomielite em fêmur de frango de corte com isolamento de E. faecalis. Fonte: os autores.
A postura “kinky-back” (Figura 3) assim como claudicação, paralisia e paresia uni ou bilateral, frequentemente observadas no campo e atribuídas a efeito de angulação ou taxa de crescimento, também são comuns a infecção por Enterococcus spp. (Abbasabadi, Golshahi & Seifi, 2021).
Figura 3. Frango de corte com paresia simétrica. Postura “sentar sobre os jarretes” ou “kinky-back”. Fonte: os autores.
Com a observação dos sinais clínicos, a autopsia é o próximo passo para o diagnóstico de infecção por Enterococcus spp., com a identificação de lesões macroscópicas (Figura 2; Figura 4). O sistema locomotor deve ser priorizado durante o exame de autópsia, com ênfase nos membros pélvicos e coluna vertebral. O fêmur deve ser desarticulado do acetábulo, caso aconteça fratura da cabeça femoral durante este procedimento, por conta do tecido ósseo subcondral fragilizado, deve-se registrar a lesão e encaminhar o material para análise laboratorial.
As vértebras torácicas, como a T4, são as mais acometidas em infecções por Enterococcus spp. As lesões são facilmente identificadas após remoção dos órgãos da cavidade celomática, apresentando deformação do tecido ósseo (Figura 4). A retirada da vertebra afetada é crucial quando há intenção de isolamento bacteriano.
Figura 4. (a) Esquema de coluna vertebral de Gallus gallus apresentando vértebras pneumáticas e local indicado para remoção em autópsia (círculo vermelho). Fonte: adaptado de WEDEL, 2008. (b) Coluna vertebral de frango de corte exibindo proliferação óssea irregular acentuada com deformidade da arquitetura normal das vértebras (seta branca) com isolamento de E. faecalis. Fonte: os autores. (c) Coluna vertebral de frango de corte exibindo proliferação óssea irregular discreta (seta branca) com isolamento de E. faecalis. Fonte: os autores.
As amostras de vértebra e fêmur devem ser acondicionadas em sacos plástico estéreis, devidamente identificados com data da colheita, idade do lote, número ou nome do aviário devem ser descritos na etiqueta de cada amostra.
O diagnóstico diferencial de infecções por Enterococcus spp. deve considerar que diferentes etiologias, como causas congênitas, nutricionais e outros agentes etiológicos podem culminar em manifestações clínicas semelhantes. Em relação a paresia ou paralisia dos membros pélvicos, os sinais clínicos decorrem da compressão da medula espinhal (Figura 5) na região toracolombar, resultante de processos inflamatórios desencadeados pelo Enterococcus spp. (Menck-Costa et al., 2024).
Figura 5. (a) Ilustração de estenose do canal vertebral por espondilolistese ou espondilite bacteriana. Fonte: Adaptado de Musyahadah et al., 2025. (b) Secção sagital da coluna vertebral. Abcesso comprimindo a medula espinhal (seta branca). Isolado E. faecalis da lesão. Fonte: os autores.
Pesquisas
Apesar dos avanços recentes na compreensão da epidemiologia e patogenia dessas infecções, ainda existem lacunas importantes relacionadas aos fatores que favorecem a transição de Enterococcus spp. de comensal intestinal para agente sistêmico, bem como aos mecanismos que regulam a translocação bacteriana e a colonização de tecidos ósseos.
A elucidação desses processos é essencial para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes de prevenção e controle.
O grupo de pesquisa do Laboratório de Medicina Aviária da Universidade Estadual de Londrina (LMA-UEL), destaca-se como uma das poucas unidades do Brasil com atuação integrada no isolamento, identificação e caracterização de Enterococcus spp. a partir de casos clínicos na avicultura.
Considerações finais
Os distúrbios locomotores representam um importante desafio sanitário e econômico, frequentemente associados a etiologias multifatoriais que dificultam sua prevenção e controle. Entre os agentes bacterianos envolvidos, Enterococcus spp. tem sido cada vez mais reconhecido como patógeno oportunista associado a lesões osteoarticulares, como condronecrose bacteriana com osteomielite e espondilite vertebral, resultando em prejuízos significativos ao desempenho produtivo e ao bem-estar das aves.
Do ponto de vista prático, o controle dessas enfermidades depende de uma abordagem integrada que envolva diagnóstico precoce, manejo sanitário adequado e manutenção da saúde intestinal das aves. Medidas como controle de enteropatias, manejo nutricional, redução de fatores estressantes e monitoramento microbiológico contribuem para diminuir a ocorrência de translocação bacteriana. Dessa forma, a integração entre diagnóstico, manejo e controle sanitário constitui ferramenta essencial para reduzir a incidência dessas infecções e minimizar os impactos produtivos.
Referências sob consulta junto ao autor
