incubaFÓRUM 2026 reforça importância da incubação na maximização do desempenho produtivo
Durante décadas, a competitividade da avicultura brasileira foi sustentada por fatores como disponibilidade de grãos, escala produtiva, sanidade e eficiência industrial. No entanto, as discussões apresentadas no incubaFÓRUM 2026 apontaram para uma importante mudança de paradigma, a próxima fronteira dos ganhos produtivos e econômicos está sendo construída muito antes da granja comercial ou do frigorífico. Ela começa no incubatório.
Ao reunir especialistas, pesquisadores e lideranças do setor, o evento evidenciou que a incubação deixou de ser apenas uma etapa operacional para assumir papel estratégico na construção do desempenho zootécnico, da biosseguridade, da qualidade do pintinho e da rentabilidade da cadeia. Mais do que produzir aves, os incubatórios passaram a influenciar diretamente os resultados finais da produção.
A incubação começa antes mesmo da postura
Uma das principais mensagens reforçadas ao longo do evento foi a necessidade de ampliar a visão sobre o processo incubatório. A qualidade do pintinho não começa quando o ovo entra na incubadora, mas ainda na granja de matrizes.
Ao abordar os fatores que determinam a viabilidade embrionária, Felipe Kroetz Neto, especialista em incubação de ovos com mais de 20 anos de experiência no setor avícola e fundador da Inova Hatch, palestrou sobre, “Manejo dos ovos da postura à incubação: Conhecimento essencial que garante o sucesso da incubação”, destacou que o desenvolvimento do embrião se inicia ainda dentro da ave e pode ser comprometido por falhas de manejo, armazenamento ou transporte. “Ovo de qualidade precisa ser observado desde a temperatura nas incubadoras, manejo e transporte desses ovos, de seus locais de origem”, afirmou.
Foto: agriNews Brasil
Em, “O impacto da qualidade do sêmen na taxa de eclosão”, a mesma lógica foi reforçada por Gabriel Novaes, especialista em reprodução de aves da Cobb-Vantress, ao recorrer a pesquisas científicas para demonstrar que fertilidade e eclosão não são sinônimos. Segundo ele, um lote pode apresentar elevada fertilidade e, ainda assim, registrar perdas significativas relacionadas à qualidade seminal.
“Muitas vezes a gente vê uma boa fertilidade e baixa eclosão e considerável quantidade de mortalidade inicial. A gente se preocupa apenas com a questão de transporte de ovo, armazenamento, processo inicial de incubação, mas, na verdade, esse problema também pode vir da granja, da quantidade e da qualidade do sêmen”, afirmou Novaes.
O especialista explicou que o ovo das aves necessita da penetração de aproximadamente 30 a 60 espermatozoides para ativar o desenvolvimento embrionário. Desses, apenas um realiza a fecundação, enquanto os demais fornecem fatores genéticos essenciais para estimular o início do desenvolvimento.
Os estudos apresentados por Novaes demonstram que os impactos da qualidade seminal sobre a incubação não representam um problema sem solução, mas sim um desafio que exige manejo integrado e preventivo nas granjas. Entre as estratégias discutidas estão a suplementação de antioxidantes na ração, visando proteger testículos e espermatozoides do estresse oxidativo, e o uso de produtos capazes de estimular a produção de andrógenos e testosterona, favorecendo a libido dos galos. O objetivo é reduzir os efeitos negativos do envelhecimento e das condições do ambiente reprodutivo sobre a fertilidade dos lotes.
Uniformidade e tecnologia contra o efeito “bola de neve”
A discussão avançou para a relação entre incubação, variabilidade dos lotes e eficiência produtiva. Eduardo Romanini, especialista em incubação no Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Petersime (Bélgica), palestrou sobre “Impacto de uma má janela de nascimento: Por que um lote homogêneo é vital?”, chamou atenção para o chamado “efeito bola de neve”, fenômeno em que pequenos desvios ocorridos nas fases iniciais do processo são amplificados ao longo da vida produtiva das aves.
“O incubatório é uma das poucas etapas da cadeia onde ainda é possível reduzir a variabilidade. Quando erramos no início do processo, criamos um efeito bola de neve que acompanha o frango até o abate”, explicou Romanini.
A análise do especialista reforça uma tendência cada vez mais presente na avicultura moderna, na qual a redução de perdas deixou de significar apenas corrigir problemas. O foco agora está na capacidade de prever e prevenir gargalos antes, que se transformam em prejuízos produtivos.
Para conferir os principais trechos da palestra de Eduardo Romanini, assista:
Nesse contexto, a tecnologia assume papel central. Segundo Adriano Bailos, consultor especializado em climatização, automação e gestão de custos, palestrou no incubaFÓRUM a convite da Coopermaq. Para Bailos, a incubação moderna depende da integração entre climatização, automação, monitoramento ambiental e gestão de dados. “A incubação moderna é um caminho sem volta. Não basta apenas incubar ovos; é preciso gerenciar uma série de fatores interligados, como temperatura, ventilação, umidade, CO₂, climatização e automação”, destacou.
Bailos, em sua palestra, “Incubação moderna e seus impactos na qualidade do pintinho e na vida frango”, defende a ideia de que os incubatórios assumem papel decisivo na construção da eficiência produtiva da avicultura moderna.
“O incubatório participa de praticamente tudo o que acontece na vida do frango. Ele pode comprometer um trabalho que começou na matriz ou potencializar os resultados que serão obtidos no campo e no abatedouro. Por isso, investir em incubação moderna é investir diretamente na eficiência e na competitividade da produção avícola”, ressaltou Adriano Bailos.
Para conferir os principais trechos da palestra de Adriano Bailos, assista:
Ainda dentro da discussão sobre intervenções precoces capazes de reduzir variabilidade e melhorar desempenho, a pesquisadora Isabel Cristina Boleli abordou a programação fetal como estratégia de manejo.
“A programação fetal na avicultura consiste em utilizar estímulos ambientais durante a fase fetal do embrião para induzir adaptações fisiológicas, morfológicas e comportamentais que podem acompanhar a ave ao longo da vida. No entanto, sua aplicação prática ainda exige muitos estudos, pois os resultados dependem de inúmeras variáveis e precisam ser avaliados sem comprometer indicadores essenciais como eclodibilidade, qualidade dos pintinhos, desempenho produtivo e qualidade da carne”, destacou.
Quando cada ponto percentual faz diferença
Se os debates técnicos mostraram o potencial da incubação para gerar resultados, a mesa diretiva do evento ampliou a discussão para a competitividade da avicultura brasileira como um todo.
Sob mediação de José Antônio Ribas, representantes de diferentes segmentos da cadeia discutiram os desafios enfrentados pelo setor em um cenário marcado pelo aumento dos custos, restrições logísticas, escassez de mão de obra e maior concorrência internacional.
“Estamos perdendo competitividade e nossos spreads acabaram. Hoje não temos mais espaço para errar”, alertou Ribas.
Ao longo do debate, os participantes convergem na afirmação de que o Brasil segue ocupando posição de destaque no mercado mundial, mas as vantagens históricas que sustentaram esse crescimento vêm diminuindo. “Os subsídios acabaram e não temos mais espaço para errar. Cada ponto percentual de eficiência passou a fazer diferença”, afirmou Adriano Bailos.
Nesse contexto, a incubação deixa de ser apenas uma etapa produtiva e passa a representar uma oportunidade concreta de ganho de competitividade. Segundo Cristiano Pereira, falhas durante o desenvolvimento embrionário podem impactar aspectos locomotores, cardiovasculares, hormonais e até mesmo a qualidade final da carne. “A incubação não pode mais ser analisada isoladamente”, ressaltou.
Biosseguridade, automação e pessoas como pilares da próxima década
O incubaFÓRUM ampliou ainda mais a visão sistêmica dos incubatórios ao conectar biosseguridade, automação, vacinação e gestão de pessoas. Thomas Calil, médico-veterinário e especialista em processos incubatórios, palestrou sobre “Contaminações no incubatório: conceitos e medidas práticas de mitigação”, chamou atenção para um erro recorrente dentro dos incubatórios: confundir higienização com desinfecção.
Segundo ele, a eficiência sanitária depende da combinação entre infraestrutura adequada, protocolos corretos e rigor operacional. “Espuma, enxágue e secagem não significam desinfecção. Para que a desinfecção aconteça de fato, é preciso combinar potência, temperatura, produto e tempo de ação. Muitas vezes vemos processos em que o desinfetante é aplicado e removido imediatamente, sem respeitar o período necessário para eliminar os microrganismos. Sem tempo de contato, não existe desinfecção efetiva”, explicou.
Thomas Calil (Foto: agriNews Brasil)
Complementando a discussão com a palestra, “Protocolos de desinfecção e sanitização de ovos incubáveis”, Luciano Keske, consultor técnico na área de avicultura, destacou que a higiene de todos os ambientes incubatórios começa muito antes da chegada dos ovos. Ninhos limpos, troca periódica da cama, coleta frequente — entre seis e oito vezes ao dia — e rigor nos procedimentos de higiene envolvendo mãos, bandejas e equipamentos são medidas fundamentais para reduzir a carga microbiana presente na casca dos ovos.
“Um ovo recém-posto apresenta cerca de 300 bactérias por centímetro quadrado na superfície da casca. Já um ovo sujo pode ultrapassar 300 mil bactérias por centímetro quadrado”, afirmou.
Salas de processamento sob foco: controle sanitário e eficiência operacional
A necessidade de fortalecer protocolos de biosseguridade dentro dos incubatórios, foi tema recorrente durante o incubaFÓRUM. Eduardo Costa, médico-veterinário e consultor reconhecido no setor avícola e atua na Innovatec, chamou atenção em sua palestra, “Critérios para desenho e manutenção de salas de processamento, a fim de minimizar o estresse e a exposição a patógenos”, para a importância de reduzir a exposição dos pintinhos a patógenos ao longo do processo incubatório. Entre os pontos destacados, o especialista ressaltou que o laboratório de vacinas deve ser considerado o ambiente mais limpo de toda a planta, exigindo rigor absoluto nos protocolos sanitários.
“Muitas vezes o problema não começa na incubadora, mas na sala de processamento. Podemos fazer todo o trabalho corretamente durante a incubação e perder qualidade por falhas de projeto, manejo ou logística nessa etapa final”, disse.
Para Costa, há um agravante que pode sensibilizar, ainda mais o setor, a falta de mão de obra.
“Hoje, cerca de 60% a 70% da necessidade de mão de obra do incubatório está concentrada na sala de processamento, justamente o setor mais impactado pela escassez de profissionais. Por isso, a automação deixou de ser apenas uma questão de retorno sobre investimento e passou a ser uma necessidade operacional. Em muitos casos, não se trata mais de escolher entre automatizar ou não; trata-se de conseguir processar os pintinhos com qualidade e regularidade”, Concluiu.
Para conferir os principais trechos da palestra de Eduardo Costa, assista:
A preocupação com os desafios sanitários também foi reforçada por Paulo Raffi em, “Biosseguridade: riscos emergentes e barreiras baseadas em evidência”, o sócio-proprietário da plataforma biosseguridade.com apresentou dados sobre o aumento da pressão global da Influenza Aviária.
“O risco sanitário da avicultura não diminuiu; ele aumentou e se tornou mais complexo. Hoje não basta ter procedimentos escritos ou infraestrutura adequada. É preciso medir, quantificar e gerenciar o risco continuamente”, destacou.
Automação e capital humano como combinação que sustenta a excelência incubatória
A automação apareceu como outro eixo estratégico para os incubatórios do futuro. Sandro Leite, gerente de vendas Latam pela Innovatec Hatchery Automation BV, em sua palestra, “Novas tecnologias em automação e processo de incubação: esse investimento vale a pena?”, observou que praticamente todo o fluxo logístico dessas operações podem ser modernizadas. “Hoje, praticamente tudo dentro do fluxo logístico do incubatório pode ser automatizado”, afirmou.
Segundo ele, a automação reduz a manipulação excessiva, minimiza danos físicos aos ovos e amplia significativamente a capacidade de controle de qualidade.
“Não precisamos trabalhar apenas com inspeções por amostragem. Sistemas automatizados conseguem identificar ovos trincados, sujos, câmaras de ar mal posicionadas e outros desvios em 100% do lote”, explicou.
Para conferir os principais trechos da palestra de Sandro Leite, assista:
Apesar dos avanços tecnológicos, os especialistas concordaram que o fator humano continua sendo determinante para o sucesso dos processos. A escassez de mão de obra foi um tema bastante citado durante os dois dias de evento. Jumara Ticiano, responsável técnica pelos incubatórios de matrizes de corte do Grupo Alvorada, em “Como a gestão de equipe define a qualidade do pintinho”, lembrou que a qualidade dos processos depende de diversos fatores, por vezes, minimizados nos planejamentos operacionais. “A qualidade do pintinho não depende apenas de temperatura, umidade ou tecnologia de incubação. Existe um fator que conecta todos esses processos: as pessoas”, ressaltou.
Sexagem in ovo e precisão embrionária impulsionam a nova era da incubação
Na palestra, “Da inovação à implementação: Como a sexagem in ovo está moldando o futuro da produção de ovos”, a mesma preocupação foi retomada por Gabriela Menin, especialista em estratégia, tecnologia e inovação aplicada à produção animal e líder das iniciativas para a América Latina da Innovate Animal Ag. Ao abordar a sexagem in ovo, ela destacou que a tecnologia surge como alternativa para enfrentar um dos principais desafios da produção de ovos comerciais, a crescente dificuldade de contratação e retenção de mão de obra.
“A sexagem in ovo surge como uma solução para um dos principais desafios da produção de ovos comerciais: a identificação precoce do sexo dos embriões ainda durante a incubação. Além de reduzir a dependência de mão de obra, ela aumenta a eficiência operacional dos incubatórios”, explicou.
Ao se destacar o uso da tecnologia pensada na eficácia, Christopher Gomes, médico veterinário e especialista em vacinação in ovo da Zoetis, apresentou aspectos técnicos relacionados à eficácia vacinal em sua palestra, “Embriologia na prática: como o estágio de desenvolvimento garante eficácia vacinal in ovo” e destacou a importância do estágio de desenvolvimento embrionário para o sucesso do procedimento.
“A eficácia da vacinação in ovo está diretamente relacionada ao estágio de desenvolvimento embrionário. À medida que o embrião se desenvolve, ocorre a redução dos líquidos embrionários e o aumento do volume corporal, elevando a probabilidade de a vacina ser depositada no líquido amniótico ou no próprio corpo do embrião, que são os locais capazes de gerar a resposta imunológica desejada. Por isso, além da idade cronológica de incubação, é fundamental monitorar a idade fisiológica do embrião no momento da transferência’, explicou.
As informações técnicas trazidas por Gomes, convergiram com os dados apresentados pela pesquisadora Dra. Isabel Cristina Boleli, no primeiro dia do incubaFÓRUM, quanto a eficácia atrelada às fases da incubação. De acordo com Gomes, a eficiência da vacinação está diretamente associada ao momento em que ela é realizada. Quanto mais avançado estiver o desenvolvimento do embrião dentro dos parâmetros recomendados, maior tende a ser a resposta vacinal.
“A vacinação in ovo exige precisão biológica. Não basta considerar apenas as horas de incubação; é necessário avaliar o estágio de desenvolvimento do embrião. Quanto mais próximo do estágio fisiológico ideal, maior a chance de a vacina atingir os compartimentos corretos e entregar os níveis de proteção esperados para o pintinho”, concluiu Christopher.
Para conferir os principais trechos da palestra de Christopher Gomes, assista:
O futuro da avicultura começa no ovo
A quinta edição do incubaFÓRUM abriu a ‘Caixa de Pandora’ da avicultura, elucidando o que já se suspeitava, mas não se confirmava na cadeia de processos, a incubação moderna deixou de ser uma atividade focada apenas no nascimento e passou a ocupar posição estratégica dentro da cadeia produtiva.
Os debates mostraram que fertilidade, desenvolvimento embrionário, biosseguridade, vacinação, automação, inteligência artificial e gestão de pessoas não são temas isolados. São partes de um mesmo sistema, interligado e cada vez mais determinante para a competitividade do setor.
Em um ambiente de margens mais apertadas e exigências crescentes, produzir mais não será suficiente. O diferencial estará na capacidade de produzir com previsibilidade, rastreabilidade, eficiência e controle desde o início da vida da ave. Afinal, o futuro da avicultura começa no ovo!
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