Micotoxinas não só derrubam o lote, elas distorcem toda a leitura do sistema produtivo
Queda de desempenho, desuniformidade, resposta vacinal inconsistente e problemas entéricos recorrentes. Esses sinais são frequentemente tratados de forma isolada na avicultura, levando a decisões fragmentadas e, muitas vezes, ineficazes. O custo disso aparece em conversão pior, aumento de perdas e baixa previsibilidade produtiva.
Durante o Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA), no estúdio agriPlay, o espaço oficial de entrevistas com palestrantes e líderes do setor, a Diretora da agriNews Brasil Priscila Beck conversou com Ricardo Rauber, CEO do Instituto Samitec e consultor internacional em sanidade avícola pela VetNova, sobre um dos pontos mais subestimados do sistema: o impacto das micotoxinas .
O primeiro erro está na simplificação. Micotoxinas não são um problema único, nem isolado. Seus efeitos se confundem com outros desafios sanitários.
“Uma clostridiose pode causar passagem de ração, uma disbiose pode… tem N outros agentes que podem causar efeitos similares”, explica Ricardo Rauber .
Na prática, isso significa que o problema raramente é diagnosticado corretamente na origem. O resultado é uma sequência de ajustes pontuais (anticoccidiano, antibiótico, manejo) sem resolver a causa real.
Outro ponto crítico está na forma como o setor encara o risco. A decisão ainda é simplificada, muitas vezes reduzida ao uso ou não de um aditivo.
“Às vezes a decisão ela é… simplificada no usa ou não usa um produto antimicotoxina. Mas vai bem além disso”, destaca Ricardo Rauber .
O impacto depende de três fatores: nível de contaminação, frequência e categoria animal. Ignorar essa interação leva a erros técnicos que comprometem todo o lote, principalmente em fases mais sensíveis, como matrizes ou início de ciclo.
O maior problema, porém, está na fragmentação da análise sanitária. Programas são tratados em “caixinhas”, sem integração.
“Eu vejo muitas empresas tratando o programa anticoccidiano numa caixinha… o programa de aditivo antimicotoxinas numa outra… quando na verdade eu deveria colocar um olhar holístico para isso”, afirma Ricardo Rauber .
Esse modelo impede a leitura real do sistema. Micotoxinas podem estar modulando imunidade, reduzindo resposta vacinal e facilitando infecções secundárias, sem serem identificadas como causa primária.
Do ponto de vista estratégico, o controle na origem ainda é um desafio. Grãos menos suscetíveis a fungos tendem a ter menor produtividade, criando um dilema econômico.
O recado final é técnico e direto: micotoxinas não são, necessariamente, o principal problema, mas ignorá-las compromete qualquer diagnóstico. Em sistemas cada vez mais intensivos, quem não integra sanidade e nutrição perde eficiência sem saber exatamente por quê.
