MONITORIA SOROLÓGICA DE PINTINHOS: O QUE NÃO ESTAMOS VENDO?
A monitoria de fatores de risco para importantes doenças imunossupressoras como Gumboro e anemia infecciosa deve fazer parte do programa de biosseguridade do frango de corte, sendo um componente indiretamente utilizado para monitorar a qualidade de vacinação nas matrizes. Essa correspondência entre respostas da matriz com impacto no frango é fundamental, pois a cadeia produtiva é integrada.
Dentre as diferentes ferramentas de monitoria, faz-se essencial o conhecimento do nível de anticorpos maternos que são transferidos a progênie e suas variações, principalmente para doenças como Gumboro e anemia infecciosa, importantes agentes imunossupressores que podem comprometer severamente a imunidade dos animais, abrindo portas para instalação de agentes infecciosos secundários, com grande impacto na produtividade.
Na Boehringer Ingelheim realizamos o acompanhamento sanitário para diferentes doenças, e a sorologia de pintinhos para anemia infecciosa e Gumboro faz parte de um programa sistemático de monitorias ativas. Em nosso banco de dados, 289 e 270 lotes de pintinhos monitorados para título de anticorpos maternos para anemia infecciosa e Gumboro, respectivamente, contribuíram para o entendimento dos fatores de risco inerentes a baixa proteção passiva com a qual pintinhos possam ser alojados nos diversos ambientes, variados em qualidade de ambiência bem como pressão de infecção.
Nesta análise, entende-se que os títulos médios são importantes para a compreensão geral do status de proteção, mas é preciso ir além. As oportunidades residem nos detalhes, e os diversos resultados individuais de uma mesma população, devem ser considerados para uma análise mais ampla. Os lotes de pintinhos aqui analisados para anticorpos maternos foram divididos por idade, nas faixas de 20 a 30 semanas, 31 a 45 semanas e 46 a 70 semanas. A sorologia foi realizada com kit Idexx, tanto para Gumboro quanto anemia infecciosa.
ANEMIA INFECCIOSA
Os resultados dos títulos de anticorpos para anemia infecciosa são organizados em cinco grupos, de 0 a 4. Quanto maior o número do grupo, maior é a quantidade de anticorpos naquelas amostras.
As progênies analisadas pouco diferem com a idade no padrão de distribuição dos grupos sorológicos, pois apresentam amostras em todos os níveis. Porém, nota-se que o percentual de aves no grupo 4 reduz de 40% para 30% com o avançar da idade da matriz, aumentando assim a quantidade de aves no grupo 0, de 10% para quase 20%. Há, portanto, um impacto importante da idade das aves na resposta de anticorpos gerada e transferida a progênie.
Com o avançar da idade, o percentual de pintinhos sem proteção de anticorpo materno aumenta – gerando um fator de risco para um importante agente imunossupressor. No entanto, é interessante notar que mesmo na classe de matrizes mais jovens, há um percentual de pintinhos que não apresentam anticorpos maternos.
Figura 1. Distribuição percentual de amostras sorológicas de pintinhos de acordo com o grupo sorológico (Idexx) e classe de idade das matrizes. A) 20 a 30 semanas, B) 31 a 45 semanas e C) 46 a 70
semanas.
GUMBORO
Ao analisarmos o título médio de anticorpos na progênie para o vírus de Gumboro vemos uma tendência de redução dos títulos à medida que avança a idade da matriz. A redução chega a ser de 13% de 20 a 70 semanas de idade.
Figura 2. Média geométrica de títulos de anticorpos para Gumboro (Idexx) em pintinho, de acordo com a faixa de idade das matrizes
Embora a redução não pareça ser significativa, devemos nos preocupar com a distribuição dos títulos individuais em uma amostra da população. Mais do que verificar a média geométrica dos títulos de anticorpos deve-se atentar ao percentual de pintinhos com baixo níveis de anticorpos – e que serão alojados em um mesmo ambiente juntamente com animais com excelentes níveis de anticorpos, o que pode levar a uma desuniformidade da proteção contra desafios precoces, e assim abrir portas para disseminação de vírus imunossupressores em uma idade tão comprometedora.
Ao verificarmos a distribuição dos títulos mínimos de cada um dos 270 lotes analisados vemos que há ampla variação. Essa variação é decorrente de fatores inerentes a cada lote de matriz, compreendendo plano de vacinação e status sanitário. O que chama atenção é que, independentemente da faixa de idade das matrizes existem lotes de pintinhos que vão a campo com pelo menos um animal sem proteção de anticorpo materno. Em número de amostras dentro dos lotes a presença de amostras negativas pode chegar a 20%.
Figura 3. Dispersão dos títulos sorológicos mínimos por lote de pintinhos de acordo com a faixa etária da matriz. A) 20 a 30 semanas, B) 31 a 45 semanas e C) 46 a 70 semanas.
A ausência de anticorpos maternos para proteção contra Gumboro é um fator de risco que deve ser considerado nas estratégias de controle da doença, em qualquer época do ano e região geográfica. Quando analisamos as faixas etárias de matrizes notamos que em lotes de matrizes de 20 a 30 semanas, 9,4% (5/53) dos lotes apresentavam pelo menos uma amostra de pintinho negativa para presença de anticorpo. Percentual que aumenta com o decorrer da idade da matriz, sendo de 15,9% (18/113) para matrizes com 31 a 45 semanas e de 16,3% (17/104) nas matrizes entre 46 e 70 semanas.
Com o passar da idade, além dos títulos médios de anticorpos transferidos da matriz para a progênie decaírem, o percentual de animais sem anticorpos maternos tende a aumentar, elevando o risco de infecções precoces.
Pensar em cobertura da proteção por anticorpos maternos para importantes doenças imunossupressoras deve fazer parte do programa de biosseguridade em cadeia. Diferentes medidas são tomadas para reduzir a pressão de infecção a campo, o que somado com melhores barreiras de defesa contribuem para a sanidade dos plantéis, possibilitando aos animais condições de atingirem o potencial de ganhos zootécnicos.
CONCLUSÃO
A definição dos programas vacinais precisa levar em conta não só os produtos, mas sua correta aplicação. Auditar os processos vacinais tanto no incubatório quanto a campo garante que as vacinas sejam utilizadas corretamente – o que pode ser monitorado rotineiramente através de medidas simples como sorologia, por exemplo. A resposta vacinal em matrizes deve compreender não somente a proteção do animal em si, mas o impacto na cadeia do frango de corte.
A limitação da qualidade de proteção com o avançar da idade das matrizes é fisiológica, portanto, preconizar programas vacinais robustos que promovam altos e uniformes títulos nas idades produtivas iniciais da matriz ajuda a minimizar o impacto, visando aumentar também os anticorpos passados a progênie.
O uso de vacinas vetorizadas para Gumboro com HVT, por exemplo, contribui para que o sistema imunológico da ave seja estimulado por toda sua vida produtiva e, assim, mantendo títulos de anticorpos altos e uniformes na matriz e na progênie independentemente da idade.
