28 out 2024

Níveis elevados de CO2 durante a eclosão: o fim de um mito

Buscando entender melhor esse processo, a Petersime decidiu determinar os níveis ideais de CO2 durante a eclosão e o momento correto para elevá-los. 

Níveis elevados de CO2 durante a eclosão: o fim de um mito

Por muitos anos, os níveis elevados de CO2 , ao fim do período de incubação,foram considerados nocivos para o desenvolvimento do embrião da ave. Isso, porém, é um mito que está muito distante da realidade. Em circunstâncias naturais, o nível de CO2 medido no microambiente debaixo da galinha atinge pelo menos 0,4% ou 4.000 ppm, muitas vezes superando esse valor. Isso representa 10 vezes o nível normal de CO2 no ar externo.

Na realidade, ao se sentar sobre os ovos, a ave mãe corta a corrente de ar em torno deles para criar um ambiente protegido para que os embriões possam se desenvolver nas melhores condições possíveis. Buscando entender melhor esse processo, a Petersime decidiu determinar os níveis ideais de CO2 durante a eclosão e o momento correto para elevá-los. 

Há tempos, sabe-se que, em incubatórios, obtêm-se pintinhos saudáveis por meio do domínio e controle de três níveis essenciais, na seguinte ordem:

 

Diversos estudos confirmaram que ocorrem alterações drásticas no pintinho, tanto física quanto fisiologicamente, a partir do 18º dia do período de incubação. A mudança mais relevante ocorre quando a bicagem interna é iniciada, ou seja, quando a membrana interna da casca do ovo é perfurada, dando acesso à câmara de ar. Depois disso, ocorre a bicagem externa, que continua até que o pintinho saia completamente da casca. O processo todo é a transição do líquido para o seco.

Em essência, os níveis de O2 e CO2 na câmara de ar do ovo se alteram à medida que o embrião começa a adotar trocas gasosas convectivas ao inflar os pulmões, ou seja, ao respirar! Estudos anteriores indicam que o nível de O2 diminui para aproximadamente 14,2%, enquanto a concentração de CO2 aumenta para cerca de 5,6%. Alguns podem considerar esses níveis excessivos e, portanto, prejudiciais para o embrião, assim como seriam para os seres humanos, mas isso não ocorre com as aves, que têm capacidade respiratória adicional por um determinado período de tempo. De fato, por cerca de 24 horas após o início da bicagem interna, o embrião usa os sistemas de respiração vascular e pulmonar ao mesmo tempo para respirar (ver imagem), resultando em uma captação combinada de O2 e, portanto, melhor capacidade respiratória.

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Evolução respiratória de um pintinho. (Fonte: Petersime)

 

  • Diferentes níveis de CO2 – um teste prático

As evidências científicas, juntamente com observações práticas em incubatórios comerciais, confirmam que uma maior concentração controlada de CO2, mesmo acima de 1% (10.000 ppm), entre as fases de bicagem e de eclosão acabam resultando em uma janela de nascimento mais estreita, sem afetar negativamente a qualidade e a saúde dos pintinhos. Na verdade, é melhor ter uma janela estreita como essa, pois ela resulta em pintinhos de um dia mais uniformes, além de crescimento e processamento mais eficientes de pintinhos no futuro.

Em parceria com um grande e moderno incubatório comercial do Brasil (a LAR Cooperativa Agroindustrial, que produz cerca de 350 mil pintinhos por dia) e com a Universidade Estadual de Ponta Grossa (Brasil), a Petersime investigou os efeitos de níveis mais altos e mais baixos de CO2 no nascedouro: 0,45% (4.500 ppm) e 0,80% (8.000 ppm).

320 pintinhos foram submetidos a diferentes níveis de CO2 desde a bicagem interna (que pode ser detectada automaticamente pela tecnologia Synchro-Hatch™) até a eclosão, por um máximo de 24 horas. Amostras de sangue foram coletadas para verificar sua saúde e força.

Entre os diversos parâmetros sanguíneos analisados, observaram-se duas medições em especial:

Também verificamos a H:L (razão entre heterófilos e linfócitos) de todas as amostras de sangue (ver tabela).

  • Os resultados (e seu significado)

Os resultados do experimento mostraram que há quase três vezes mais heterófilos quando os níveis de CO2 estão em 0,45% (4.500 ppm) em comparação a 0,80% (8.000 ppm).

Os cientistas já sabem há bastante tempo que uma contagem mais alta de heterófilos, basicamente parte de uma resposta imunológica inata, indica uma capacidade menor de combater processos inflamatórios e estresse.

Os níveis de linfócitos, por sua vez, são excelentes marcadores para avaliar a imunocompetência das aves (ou seja, a capacidade de prevenir ou controlar infecções por patógenos e parasitas). Essencialmente, a contagem de linfócitos mais alta a 0,80% de CO2 indica uma melhor resposta do sistema imunológico. Em suma, é provável que os pintinhos submetidos ao nível mais elevado de CO2 sejam mais robustos e tenham maior capacidade de combater doenças.

A razão entre heterófilos e linfócitos (H:L) é um bom parâmetro para medir o grau de estresse em pintinhos. O estudo da Petersime mostra que os níveis de CO2 a 0,45% (4.500 ppm) resultam em 0,27 H:L (estresse intermediário), enquanto níveis de CO2 de 0,80% resultam em 0,08 H:L (baixo estresse). Essas descobertas sugerem que é natural que as aves vivenciem uma certa quantidade de estímulos de CO2 durante a eclosão por um curto período de tempo e que, ao contrário do que alguns acreditam, eles até se beneficiam do aumento dos níveis de CO2 em determinados estágios.

 

  • Razões H:L — o que significam esses números?
    • < 0,20: baixo estresse
    • 0,20 – 0,50: estresse intermediário
    • ≥ 0,80: alto estresse
  • Conclusão

Já foi sugerido que um nível elevado de CO2 durante a eclosão causa estresse e força a eclosão. Pesquisas mostram que a mudança dos níveis de CO2 é, na verdade, um estímulo positivo; um mito persistente finalmente derrubado. Portanto, o nível certo de CO2 no momento certo ajuda o embrião a passar da respiração corioalantoica para a ventilação pulmonar, exatamente como ocorre na natureza. E os benefícios também foram confirmados pelos resultados de desempenho de eclosão: com +0,50% de eclosão de ovos férteis para os ovos que foram expostos a 0,80% de CO2.

Bruno Machado Consultor Global de Incubação
Como especialista em negócios de avicultura dedicado, Bruno Machado é formado em ciências animais, com MBA em avicultura e em gestão de negócios. Ele adquiriu profundo conhecimento na indústria avícola, por exemplo, na função de gerente de incubatório. Em sua função de Consultor Global de Incubação na Petersime, seu trabalho abrange projetos de pesquisa, teste de campo e também treinamento e suporte ao cliente.
Eduardo Romanini Coordenador de P&D em Incubação
Eduardo Romanini é PhD em engenharia de biociências, com foco em tecnologias de incubação. Eduardo ingressou na Petersime para implementar o primeiro incubatório de estágio único da empresa no Brasil. Em seus passos seguintes, assumiu o suporte técnico e de incubação para clientes da América Latina e participou de um programa de pesquisa e desenvolvimento de produtos da UE. Atualmente, Eduardo coordena projetos de pesquisas de incubação e testes comerciais da Petersime.
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