25 mar 2019

Não basta mudar os sistemas de produção se as poedeiras morrem de calor

Até quando olharemos para o espaço (densidade), alojamento e não iremos observar uma das principais causas de perdas produtivas (mortalidade ou produção de ovos) que é o CALOR? Veja o que dizem os especialistas da Embrapa e Nupea (Esalq/USP).

Atualmente, grandes são as preocupações relacionadas ao bem-estar de aves poedeiras em toda a cadeia produtiva. Praticamente 95% da produção brasileira de ovos, é oriunda de sistema convencional de produção, ou seja, dos sistemas com gaiolas convencionais.

Galinhas Poedeiras sistema de produção gaiolas ambiênciaPrimeiramente, a grande discussão foi relacionada ao espaço físico de cada gaiola, em que cada país apresentava um modelo com áreas diferenciadas. Com relação à densidade animal – gaiola,  existe uma grande variabilidade.

No Brasil, por exemplo,  a área de gaiola por ave utilizada é em média de 350cm² (300-400cm2). Já nos Estados Unidos e alguns países da Ásia, a densidade média utilizada é de 400 cm²; enquanto, na Noruega a densidade é de 700 cm²/ave (SILVA; MIRANDA, 2009).

O sistema  de  criação  convencional em gaiolas de bateria tem recebido críticas constantemente, por não fornecer espaço suficiente para o animal expressar seus movimentos, comportamentos naturais  e  exercitar-se,  promovendo dessa forma, maior susceptibilidade a fraturas.

poedeiras sistemas de produção gaiolas enriquecidasNessa mesma sequência, na evolução das pesquisas em relação ao alojamento das galinhas, vários estudos avaliaram também as chamadas gaiolas enriquecidas, aquelas que apresentam uma maior área/animal, poleiros, área de postura e lixas para desgastes das unhas.

Modelos como os gaiolões, em que as aves são criadas em grupos de 60 a 80 galinhas (variando de acordo com o modelo) já foram amplamente utilizadas na America do Norte e Europa.

As questões relacionadas ao bem-estar animal estão intimamente interligadas ao conceito de saúde única,  envolvendo: animal, homem e ambiente. Estas, por sua vez, estão inseridas no conceito moderno da avicultura do futuro. A sustentabilidade dos sistemas de produção e a postura ética na produção de alimentos é uma realidade mundial.

A ciência do bem-estar animal baseia-se num conceito multifatorial, existem dificuldades sobre como medir e quanti-qualificar o bem-estar das diferentes espécies animais de postura. Deve-se considerar a boa alimentação, boa instalação, boa saúde e o bom comportamento.

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O importante é analisar as ocorrências e os níveis elevados de diferentes incidências que comprometam a vida dos animais, como por exemplo problemas ósseos (artrites e artroses), claudicações, lesões de pele, nível de empenamento, doenças, comportamentos anômalos, índices zootécnicos, dentre outros. Essas ocorrências são fundamentais para que se consiga medir com eficiência o bem-estar de forma correta e associá-lo a produção ética de alimentos.

Simultaneamente, em todo o mundo as discussões relacionadas à ambiência, bem-estar e instalações para aves poedeiras não estão focadas na climatização do ambiente, mas nas eficiências dos sistemas produtivos, uma vez, que os ambientes em geral são climatizados (JONES et al., 2014; MENCH et al., 2014; ZHAO et al., 2015).

Passa-se, então, para uma análise comparativa entre os sistemas de criação que, nesse caso, envolvem os sistemas de gaiolas convencionais, os sistemas de gaiolas enriquecidas, os sistemas de aviários livres (sem gaiolas) e os sistemas free range.

Partindo dessas premissas, as discussões se concentram nos modelos de sistemas “No Cage” (Cage-free, free-range) e sistema “In Cage” (convencional e enriquecidas ou mobiliadas).

Essa discussão é ampla, envolve não só as questões técnico-econômicas, mas o impacto da mudança em relação a toda a cadeia, incluindo a agregação de valor ao produto. Porém, deve-se considerar o posicionamento mercadológico das marcas e as relações diretas com o consumidor final.

Não basta tirar as aves das gaiolas, ou criá-las em sistemas livres, Cage-free ou free-range, ou ainda em gaiolas mobiliadas, se as galinhas morrem devido ao estresse térmico, seja nos galpões de criação sem climatização, seja nos sistemas livres de gaiolas.

A discussão é: até quando olharemos para o espaço (densidade), alojamento e não iremos observar uma das principais causas de perdas produtivas (mortalidade ou produção de ovos) que é o CALOR?

 

poedeiras sistemas de produção ambiência

Figura 01: Diversidade climática nas regiões brasileiras e os avanços na avicultura comercial (figura ilustrativa)

À medida que a temperatura ambiente aumenta, a eficiência da perda de calor sensível diminui, em razão do menor gradiente de temperatura entre a pele do animal e a do ambiente. A manutenção da temperatura corporal é determinada pelo equilíbrio entre o ganho e a perda de calor (ALVES et al.,2007). As aves respondem negativamente às variações bruscas de temperatura ambiente, principalmente quando associadas ao acréscimo de umidade relativa do ar. Nesse caso, deve-se atentar para a amplitude térmica das regiões. No Brasil muitas vezes ela chega a ser maior que 20ºC.

Dentre as consequências de exposição ao calor dentro das instalações, a mais importante é o efeito do estresse térmico sobre os animais (YAHAV; RUSAL; SHINDER, 2008). O desconforto térmico em aves de postura provoca uma série de consequências que, por sua vez, estão associadas à:

Os elementos climáticos que mais afetam o desempenho das galinhas poedeiras são a temperatura ambiente, umidade relativa e a velocidade do ar.

Nas aves, o calor é dissipado por meio da evaporação respiratória, evaporação cutânea e perda de calor sensível através dos processos de radiação, convecção e condução. A perda de calor por evaporação através da respiração ofegante é associada com a perda de água corporal, portanto, em excesso, poderá provocar desidratação (YAHAV; RUSAL; SHINDER, 2008).

No tocante à redução da temperatura ambiente, o uso de ventilação forçada auxilia muito  na dispersão de calor gerado pelas aves, enquanto a associação de ventilação com algum tipo de nebulização reduz a temperatura interna de aviários. O uso de ventilação com nebulização diminuiu a temperatura do interior do aviário como mostra pesquisa realizada na América do Norte (Tabela 1).

Sistemas conjugados, onde se realiza o resfriamento adiabático evaporativo (SRAE), apresentam grande eficiência no controle dos ambientes internos de produção. Porém, a mitigação do efeito de calor, por meio da ventilação forçada associada ao nebulizador, pode ser utilizada com sucesso em aviários de postura.

De qualquer forma, vale lembrar que a tipologia nacional é de grande maioria de aviários totalmente abertos e sem controle nenhum da ambiência interna, o que torna essa realidade muito diferente.

poedeiras sistemas de produção ambiência

Tabela 01: Variação da temperatura e umidade relativa em aviários de postura com sistemas de ventilação e nebulização (sistema de resfriamento), na América do Norte.

Observando as variações da temperatura, verifica-se que a redução de praticamente 2,3°C e  2,9°C entre os períodos da manha e tarde, não foram expressivas em relação ao ambiente sem a nebulização. Mas deve-se considerar que, nessas condições, em geral os aviários são fechados com o ambiente todo controlado. Nesse sentido, qualquer modificação visando as melhorias dessas condições internas terá grande impacto na ambiência do galpão e consequentemente nos animais alojados.

O importante é associar as propostas de melhorias nos sistemas de produção de ovos às necessidades térmicas das galinhas poedeiras.

Os modelos europeus ou norte americanos apresentam tipologias diferentes das nacionais, onde a estrutura já é fechada preconizando o inverno rigoroso, portanto, os sistemas “no cage” já estão sob ambientes controlados, o que não é realidade nacional.

Poedeiras sistemas de produção ambiência

Figura 02: Conceito do paralelismo conceitual entre bem-estar animal (BEA) e ambiência animal.

Partindo-se dessas condições, deve-se considerar que a ambiência deverá  sempre estar associada, em paralelo, com o bem-estar dos animais em países de clima tropical como o Brasil, sendo que a isso chamamos de paralelismo conceitual. O paralelismo indica que devem sempre caminhar juntos, não existe bem-estar animal sem um programa de ambiência implantado.

Porém, o fato de se ter uma ambiência efetiva, não quer dizer que atende-se a todos os requisitos de um programa de bem-estar animal, que é mais amplo.

 

A exposição de aves alojadas ao estresse térmico em clima tropical é uma realidade diária em nossas condições de produção. O aspecto mais importante é a mitigação dessa exposição, considerando os aspectos eficiência e economia do processo adotado.

Quando se busca um sistema de climatização adequado, deve-se considerar os aspectos biológicos, técnicos, climáticos e econômicos. O estabelecimento de limites será balizado pelas respostas das aves aos limites críticos para as diferentes fases de produção, consequentemente expostas a níveis de ventilação e nebulização, ou diferentes temperaturas, onde sempre serão consideradas a sensação térmica das aves, e suas condições de conforto.

Portanto, a implementação de um programa de bem-estar animal deve ser programado escalonadamente, de forma clara e fácil de ser assimilado por colaboradores e produtores. Uma fase de transição deve ser cautelosa, pautada em avaliações econômicas, marketing do produto e perfil do mercado consumidor. Os mecanismos de  quantificação e avaliação do bem-estar deverão ser baseados nos conhecimentos da biologia das espécies, como são  utilizados e quais as dificuldades regionais de implantação.

Baseando-se nessas considerações fica aqui o nosso alerta para que as discussões sejam amplas, não se tratando apenas da liberdade aos animais, mas fornecer condições mínimas para que possam viver em conforto, adaptando-se as realidades de cada sistema produtivo, ao clima regional e ao animal.

Não se trata apenas de soltar as galinhas, mas fornecer condições de uma vida saudável.

 

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As Referencias Bibliográficas podem ser solicitadas aos autores.

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