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Qualidade nutricional redefine o conceito de segurança alimentar

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Por redação aviNews

Antes do aprofundmento técnico quanto à Segurança Alimentar, vale entender como e porquê esse termo tem tomado força – e significado amplificado – diante de um cenário global instável, há mais de um século.

A segurança alimentar se tornou um agente regulador do status quo de uma sociedade. O uso do termo “Segurança Alimentar” se torna um projeto reconstrutor ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Ao longo do progresso do mundo, pós primeira guerra, o significado de segurança nacional se transformou em símbolo de soberania de um país (Maluf & Menezes, 2000). Com o advento da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os impactos em todo o sistema econômico ficou ainda mais desastroso e, intensificado à Guerra Fria (1947-1991), compreendeu-se que Segurança Alimentar estava ligada à capacidade de produção agrícola, ideia solidificada até a década de setenta (Silva, 2014).

Tal conceito de que segurança alimentar está associada à capacidade de produzir alimentos suficientes para abastecer a população, já não se sustenta diante estudos científicos. Além da disponibilidade de alimentos, organismos internacionais e políticas públicas passaram a incorporar a qualidade nutricional, o acesso da população, a estabilidade do abastecimento e a segurança sanitária como elementos essenciais da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN). Nesse contexto, temas como o envelhecimento populacional, a qualidade das proteínas e a promoção da saúde passaram a ocupar posição central nas discussões sobre alimentação.

Para a professora Dra. Ana Carolina Almada Colucci Paternez, 2ª vice-presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), essa mudança representa uma evolução importante na forma como governos, pesquisadores e organismos internacionais compreendem o papel da alimentação na sociedade.

Segurança alimentar vai além da quantidade

Até os anos 1970, a segurança alimentar era compreendida principalmente sob a ótica da disponibilidade de alimentos. Esse entendimento começou a mudar com a Conferência Internacional de Nutrição, realizada pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1992, quando aspectos nutricionais e sanitários passaram a integrar o conceito de Segurança Alimentar e Nutricional. A definição foi consolidada na Cúpula Mundial da Alimentação, em 1996, estabelecendo que segurança alimentar existe quando todas as pessoas têm acesso a alimentos suficientes, seguros e nutritivos para atender às suas necessidades alimentares.

No Brasil, essa visão foi incorporada pela Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN) e voltou a ser reforçada pelo III Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Plansan 2025-2027), que estabelece entre suas diretrizes a promoção da alimentação adequada e saudável e a redução da má nutrição.

Segundo Ana Carolina, atualmente a segurança alimentar é sustentada por quatro pilares: disponibilidade, acesso, utilização — que inclui a qualidade nutricional dos alimentos — e estabilidade.

“Um país pode produzir alimento suficiente em toneladas e ainda ter população mal nutrida”, destaca a especialista.

Ela explica que produzir alimentos em quantidade continua sendo fundamental, mas já não é suficiente para garantir segurança alimentar se a população não tiver acesso a alimentos nutritivos e seguros.

Envelhecimento muda a forma de pensar a alimentação

Outro fator que vem transformando esse debate é o envelhecimento da população. Segundo a SBAN, a literatura científica demonstra que as necessidades proteicas dos idosos são superiores às recomendações estabelecidas para adultos jovens. Enquanto a recomendação tradicional gira em torno de 0,8 grama de proteína por quilograma de peso corporal por dia, idosos podem necessitar entre 1,2 e 1,6 g/kg/dia para reduzir o risco de sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva de massa muscular associada ao envelhecimento.

A evidência não endossa “mais carne animal” de forma genérica — endossa proteína de alta qualidade e adequação proteica total, distribuída ao longo do dia, entre 25-30g por refeição, combinada a exercício resistido, com fontes recomendadas incluindo carnes magras, ovos, leite, iogurte, peixe e leguminosas”, explica.

Proteína animal integra o debate sobre segurança alimentar e nutrição

Nas discussões internacionais sobre segurança alimentar e nutrição, a proteína animal ocupa um espaço relevante por seu elevado valor nutricional. Segundo a SBAN, organismos como a FAO reconhecem essas proteínas como importantes fontes de aminoácidos essenciais, ferro heme, zinco e vitamina B12, nutrientes considerados críticos especialmente para populações vulneráveis.

Ao mesmo tempo, esse tema passou a conviver com um debate crescente sobre sustentabilidade. Enquanto diferentes iniciativas internacionais defendem a redução do consumo de proteínas animais por razões ambientais, outras instituições destacam a necessidade de preservar a segurança nutricional da população.

Na avaliação da professora Ana Carolina, o desafio atual não é estabelecer uma disputa entre proteínas animais e alternativas, mas encontrar um equilíbrio entre qualidade nutricional, sustentabilidade e acesso a uma alimentação adequada.

Alimentação passa a integrar estratégias de saúde pública

Para a SBAN, a alimentação deixou de ser tratada apenas como uma decisão individual para ocupar espaço nas estratégias de saúde pública de diversos países. O envelhecimento populacional, o aumento das doenças crônicas relacionadas à alimentação e os desafios para garantir o abastecimento têm levado governos a incorporar políticas alimentares em seus planejamentos de longo prazo.

Um dos exemplos citados pela especialista é a China. Segundo ela, o planejamento estratégico chinês passou a tratar a segurança alimentar em um patamar semelhante ao de áreas consideradas estratégicas, como energia e finanças nacionais, ao mesmo tempo em que busca fortalecer a produção doméstica de proteínas e diversificar as fontes proteicas disponíveis.

A tendência é tratar a alimentação como parte de estratégia de saúde pública, e não só escolha individual. Isso se dá coerente com o movimento observado globalmente, a OMS declarou 2020-2030, como a Década do Envelhecimento Saudável.O 15º Plano Quinquenal chinês eleva segurança alimentar ao mesmo patamar estratégico de energia e finanças nacionais“, conclui Ana Carolina.

Nesse contexto, a segurança alimentar deixa de ser compreendida apenas como a capacidade de produzir alimentos. O conceito passa a abranger a garantia de alimentos suficientes, seguros, nutritivos e acessíveis, capazes de promover saúde, qualidade de vida e bem-estar ao longo de todas as fases da vida.

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