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Solubilidade do calcário e fitase mudam o debate sobre qualidade de casca dos ovos

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Por aviNews Brasil

Nem todo cálcio fornecido à poedeira se transforma em casca. E nem todo ovo trincado indica, necessariamente, uma casca mal formada. Entre a formulação da dieta, a solubilidade do calcário, a ação da fitase, o pH do trato gastrointestinal, a idade da ave, a coleta, a classificação, a manutenção dos equipamentos e o transporte, a qualidade da casca passou a exigir uma leitura mais integrada, e menos baseada em respostas únicas.

Essa foi uma das principais leituras deixadas pelas palestras que fecharam a programação da manhã do segundo dia do XVII Simpósio Goiano de Avicultura. Felipe Henrique Bossi, consultor técnico de Avicultura da Mixxnova Nutrição e Saúde Animal, abordou a qualidade de ovos a partir da relação entre consumidor, granja, classificadora e campo. Na sequência, Vitor Barbosa Fascina, Regional Product Manager, LATAM (Feed Enzymes), da Novonesis, aprofundou a discussão sobre fontes de cálcio, solubilidade do calcário, fitase e qualidade da casca.

Embora partindo de perspectivas diferentes, as duas apresentações convergiram sobre a casca não poder ser tratada apenas como uma barreira física, ou como resultado direto da inclusão de cálcio na dieta. Segundo os palestrantes, a casca é um indicador biológico, nutricional, operacional e econômico da eficiência do sistema de produção de ovos.

O cálcio que realmente chega à casca

Na palestra sobre fontes de cálcio, Fascina chamou atenção sobre o fato de que o setor avançou em conceitos como fósforo digestível e relações nutricionais mais precisas, mas ainda está distante de trabalhar, de forma ampla e segura, com cálcio digestível. O motivo, segundo ele, está na própria base da formulação.

Segundo o especialista, o calcário segue como a principal fonte de cálcio utilizada na postura comercial na América do Sul, mas sua qualidade pode variar de forma expressiva conforme origem, jazida, processamento, teor de cálcio, presença de outros minerais, granulometria e solubilidade.

“Se a gente não começar pela base, a gente está falhando”, afirmou Fascina, ao defender maior critério na avaliação dos fornecedores e das características físico-químicas do calcário utilizado nas rações.

A mensagem é particularmente relevante porque o cálcio costuma ser visto, em muitos sistemas, como um insumo de baixo valor relativo quando comparado a milho, soja ou aditivos. Essa percepção, no entanto, pode esconder uma perda técnica importante. Fontes com teores semelhantes de cálcio podem apresentar comportamento diferente no trato gastrointestinal da ave e, consequentemente, respostas distintas em resistência de casca, gravidade específica, aproveitamento de fósforo e manutenção da estrutura óssea.

Fascina apresentou dados de avaliações com diferentes fontes de calcário, inclusive no Brasil, mostrando alta variabilidade em teor de cálcio, tamanho de partícula e solubilidade. Em alguns exemplos, calcários com solubilidade mais baixa foram associados a melhor resposta em resistência de casca em fases específicas da produção, especialmente quando a exigência da poedeira estava mais relacionada a pico de produção e massa de ovos.

Solubilidade, partícula e tempo de liberação

O tamanho de partícula apareceu como um dos pontos-chave da discussão. Calcários mais finos tendem a apresentar maior solubilidade; já partículas maiores podem permanecer por mais tempo no trato digestivo, favorecendo a disponibilidade de cálcio durante o período de formação da casca, que ocorre principalmente nas horas posteriores à oviposição.

Isso não significa que a solução seja simplesmente aumentar a partícula ou trocar a fonte mineral de forma indiscriminada. A leitura proposta por Fascina é entender a fase da ave, a genética, o nível de produção, o consumo, a granulometria real recebida pela fábrica, a solubilidade da fonte e as interações com outros nutrientes.

Nesse contexto, a fitase ganha um papel mais amplo do que a liberação de fósforo. Ao atuar sobre o fitato, a enzima pode interferir na disponibilidade de fósforo, cálcio e outros nutrientes, além de reduzir parte dos efeitos indesejáveis associados ao excesso de cálcio na dieta. A palestra também associou a resposta da fitase a condições como pH do trato gastrointestinal, qualidade da água, fonte de cálcio e categoria animal.

Para reprodutoras, Fascina ainda apontou oportunidades relacionadas a fertilidade, eclosão e deposição de nutrientes no ovo fértil, especialmente quando a discussão envolve superdosagem de fitase, metabolismo energético e interações entre galinhas e galos. O ponto central, no entanto, permanece o mesmo: a qualidade da casca depende de uma matriz de fatores, e não de uma única decisão nutricional.

“Dependendo da fonte de calcário, da inclusão ou não de fitase e da fase da ave, a resposta pode mudar. A gente precisa ser cada vez mais criterioso quanto ao calcário que vai utilizar”, afirmou.

A trinca que não nasceu da nutrição

Se a palestra de Fascina reposicionou o debate a partir da nutrição mineral, a apresentação de Bossi trouxe o contraponto operacional: mesmo um ovo com boa resistência de casca pode se transformar em perda se for submetido a impacto, velocidade excessiva, falhas de esteira, aparadores mal ajustados ou manutenção deficiente.

Bossi lembrou que a qualidade percebida pelo consumidor passa por atributos simples – casca limpa, ausência de trincas, odor, clara firme, gema íntegra e experiência positiva no preparo. Mas, para a granja, esses sinais precisam ser traduzidos em indicadores técnicos, como unidade Haugh, índice de gema, peso do ovo, cor de gema, resistência de casca, espessura, distribuição de categorias e percentual de ovos defeituosos.

“A classificadora não é nossa inimiga”, disse Bossi. “Ela é extremamente importante para nos passar informações.”

A afirmação resume um ponto relevante para sistemas cada vez mais automatizados. Em vez de esperar uma avaliação mensal de qualidade para identificar desvios, a classificadora pode funcionar como sinal de alerta diário: aumento de trincas, mudança no tamanho dos ovos, maior volume de sujidade, ovos melados ou defeitos recorrentes devem acionar uma investigação imediata.

Segundo Bossi, em sua experiência de campo, uma parcela expressiva das reclamações por ovos trincados esteve associada a problemas de manutenção. A mensagem não diminui a importância da qualidade nutricional da casca, mas evita uma leitura simplista: nem toda trinca é culpa da formulação; muitas vezes, o ovo foi formado com boa resistência e perdeu valor no trajeto até a embalagem.

Medir mais não basta

Outro ponto destacado nas discussões foi a diferença entre coletar dados e transformar dados em decisão. Bossi chamou atenção para dois extremos encontrados no campo: produtores que praticamente não medem indicadores importantes e produtores que medem muito, mas não utilizam os resultados para corrigir processos.

“Tem produtor que mede tudo e não avalia nada”, afirmou, ao defender planejamento, amostragem coerente e uso prático das informações geradas na granja.

Na qualidade de casca, isso significa estruturar uma rotina de avaliação que considere frequência, representatividade da amostra, idade do lote, ponto de coleta, histórico da linhagem, condições de transporte, desempenho da classificadora e padrão de reclamações. Para Bossi, a ovoscopia também deve ser mais valorizada como ferramenta simples e acessível para antecipar problemas, inclusive em produto acabado.

A resistência de casca, nesse conjunto, tende a ter peso maior do que a espessura isolada. A espessura pode ser medida por diferentes métodos, mas não deve ser tomada como único parâmetro decisório, já que sua correlação com resistência nem sempre é direta. O desafio é enxergar a casca como estrutura funcional, sujeita tanto à formação biológica quanto a danos mecânicos.

Qualidade de casca como indicador de eficiência

A integração entre as duas palestras indica que a qualidade de casca tende a ocupar um espaço cada vez mais estratégico na postura comercial e na reprodução. Em um mercado que busca maior longevidade produtiva, melhor aproveitamento de nutrientes, redução de perdas e maior consistência de produto, a casca passa a ser uma espécie de marcador da eficiência do sistema.

Quando a resistência cai, a resposta pode estar no calcário, na granulometria, na fase da ave, no pH, na fitase, na relação com fósforo, na recria, na reserva óssea, na manutenção da esteira, na classificadora, no transporte ou no ponto de venda. A decisão técnica exige cruzar esses sinais, e não escolher uma causa única por conveniência.

Para o consumidor, a rejeição acontece em segundos: uma trinca, uma casca suja, um cheiro inadequado ou uma clara aguada podem ser suficientes para comprometer a recompra. Para a granja, no entanto, esse defeito é resultado de semanas de formação da ave, horas de deposição da casca e uma cadeia de manipulação que precisa preservar a qualidade até a gôndola.

A nova fronteira do debate, portanto, não está em repetir que o cálcio é importante para a casca. Está em compreender qual cálcio, de qual fonte, com qual solubilidade, em qual tamanho de partícula, sob qual condição fisiológica e operacional. E, depois disso, garantir que o ovo formado com qualidade não seja perdido por uma falha mecânica, visual ou logística antes de chegar ao consumidor.

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