
A pergunta que atravessou o painel de abertura do 17º Simpósio Goiano de Avicultura não foi se haverá mercado para a proteína animal brasileira. As lideranças do setor questionam, diante de uma demanda favorável, o que pode limitar a capacidade de setor transformar potencial produtivo em crescimento sustentável.
Realizado nesta quarta-feira (10/06), em Goiânia, o debate reuniu lideranças institucionais e empresariais em torno de temas que extrapolam a porteira como barreiras da União Europeia, exigências de fiscalização, energia, infraestrutura, regulação, mão de obra, tecnologia nas granjas e organização de mercado.
A discussão ganhou peso especial em Goiás, estado que consolidou posição entre os principais polos avícolas do país. Segundo dados do IBGE/Sidra, Goiás abateu 530,3 milhões de frangos em 2025, o equivalente a cerca de 9,4% do abate nacional. Em peso de carcaças, o estado somou 1,178 milhão de toneladas, aproximadamente 9,9% do total brasileiro.
A abertura foi conduzida pela AGA (Associação Goiana de Avicultura), organizadora do encontro. Marcos Barcellos Café, presidente da entidade e professor titular da Escola de Veterinária e Zootecnia da UFG, destacou o amadurecimento da cadeia no estado. “A avicultura goiana hoje já é madura; já somos o quarto maior produtor de frangos do Brasil”, afirmou.
Café também reforçou o papel institucional da AGA na articulação do setor. “O papel da AGA é ficar com o radar ligado”, disse, ao mencionar a atuação da entidade em temas regulatórios, sanitários e institucionais que impactam a cadeia produtiva.
O painel contou com Ricardo Santin, presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), Matheus Faria de Souza, gerente geral de Agropecuária da Nutriza/Friato Alimentos, Altino Di Loyola, CEO da Loyola Alimentos, e Hugo Garrote, CEO da São Salvador Alimentos – SSA, responsável pela moderação.

No Simpósio Goiano, avicultura debate gargalos para sustentar crescimento
União Europeia
Na apresentação de conjuntura, Ricardo Santin conectou o momento favorável da proteína animal brasileira a um ambiente internacional mais exigente. Influenza aviária, tensões logísticas, conflitos geopolíticos e decisões regulatórias de países importadores foram tratados como variáveis que já impactam a operação das agroindústrias e a previsibilidade do comércio internacional.
Um dos pontos mais sensíveis foi a União Europeia. Santin afirmou que a restrição ao Brasil não se baseia em acusação de uso irregular de produtos, ou em problema sanitário identificado, mas na exigência de uma camada adicional de fiscalização.
“A UE não disse que estamos usando produtos proibidos, não há nenhuma violação que tenha sido praticada e nenhum problema sanitário”, afirmou. “Mas a UE está dizendo que quer mais uma camada de fiscalização”, completou.
A fala recoloca o debate europeu em uma dimensão estratégica, afinal, não se trata apenas de manter ou recuperar um mercado, mas de demonstrar capacidade institucional, comprovação técnica e equivalência entre sistemas de controle.
Santin também citou a resposta brasileira ao episódio de influenza aviária em granja comercial. Para ele, o ponto central foi a contenção. “O mais importante é que a gente teve e não deixou espalhar. A biosseguridade funcionou”, disse.
Limite para expansão da avicultura
Se a demanda foi apresentada como oportunidade, a energia apareceu como um dos entraves concretos à expansão. A discussão surgiu a partir de questionamento da plateia sobre qualidade do fornecimento, quedas de energia e aumento de custos em granjas cada vez mais dependentes de automação, ambiência e conectividade.
Matheus Faria de Souza afirmou que a energia elétrica já pesa no custo do frango e pode se tornar gargalo direto ao crescimento. “A gente tem que se preocupar muito, porque o setor pretende expandir o abate e, se não houver energia suficiente e confiável, isso vira gargalo”, disse.
Hugo Garrote ampliou a análise para além de Goiás. “O nosso grande problema é distribuição de energia”, afirmou.
“A gente tem um país gerador de energia e tem um problema de distribuição, e isso com certeza afeta a produção”, completou.
Santin acrescentou outro ângulo ao debate ao diferenciar capacidade geradora e estabilidade do sistema. “O Brasil produz com excesso de capacidade. O que nos falta é potência, regularidade”, disse.
Mão de obra
A mão de obra também foi tratada como variável decisiva. Na apresentação da Nutriza, Matheus Faria de Souza mostrou avanços obtidos com ambiência, nutrição de precisão, sensores, ovoscopia eletrônica, análise de dados e pressão negativa nas granjas.
Porém, o executivo fez ressaltou que tecnologia não substitui engajamento. “Não adianta ter sensor de balança, sensor de silo, ter toda a tecnologia, se a pessoa não está motivada a levantar cedo e fazer a regulagem em tempo real para a ave ter conforto térmico e entregar o melhor resultado”, afirmou.
Segundo Matheus, a empresa tem investido em formar profissionais internamente, estruturar dados e reduzir o peso operacional em áreas onde houve dificuldade de mão de obra.
“A melhoria de resultado é certa quando tem pessoas engajadas com um propósito”, disse.
Ele também apresentou indicadores produtivos da empresa, como melhora de 13% na eficiência alimentar de 2020 para 2026, avanço de 11% no ganho de peso e uso de cerca de 5.900 análises de dados desde 2017 para apoiar decisões técnicas.
Risco regulatório
O debate também entrou em uma zona menos confortável para a cadeia, que é a capacidade de organizar informação de mercado sem ferir limites regulatórios. Altino Di Loyola questionou a dependência de referências comerciais e defendeu que o setor use melhor dados, inteligência artificial e informações de mercado para compreender demanda, oferta e captura de valor.
“É hora de repensar a forma como o setor usa tecnologia, dados e inteligência artificial. Com tanta informação disponível, já é possível acessar bases de supermercados, entender demanda e tendências de mercado, cruzar dados e trazer para dentro da cadeia produtiva parte do valor que hoje estamos deixando na mesa”, afirmou.
Santin ponderou que a atuação associativa encontra limites legais no Brasil quando se fala em coordenação de oferta. “Precisaria ter uma evolução regulatória no Brasil”, disse.
Goiás entre os líderes
Ao reunir lideranças nacionais, empresas, produtores, técnicos, autoridades e instituições, o painel de abertura mostrou que o 17º Simpósio Goiano de Avicultura ocorre em um momento de consolidação da cadeia no estado. No recorte do Relatório Anual 2026 da ABPA, baseado em abates sob inspeção federal, Goiás aparece com 525 milhões de frangos abatidos em 2025, o equivalente a 9,2% do total nacional e à quarta posição entre os estados.
Os dados do IBGE/Sidra, que permitem somar os abates com inspeção federal, estadual e municipal ao longo dos quatro trimestres de 2025, apontam volume próximo: 530,3 milhões de cabeças. Com esse pano de fundo, a discussão se desloca da expansão em si para a sustentação desse avanço.
A demanda por proteína animal segue favorável, e o Brasil mantém vocação para abastecer o mercado interno e internacional. Mas o debate deixou claro que o próximo ciclo da avicultura dependerá de respostas mais estruturadas para gargalos que já aparecem no campo, nas granjas, nas fábricas, na regulação e na infraestrutura.
Mais do que apontar oportunidades, a abertura do Simpósio Goiano de Avicultura indicou que competitividade duradoura exigirá coordenação, investimento, inteligência de mercado, defesa técnica e capacidade de transformar eficiência produtiva em valor para toda a cadeia.
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