30 maio 2023

Alphitobius diaperinus como vetor de Salmonella Enteritidis

Este artigo desenvolvido pela Vetanco Brasil traz pontos importantes sobre o Alphitobius diaperinus como vetor de Salmonella Enteritidis.

Alphitobius diaperinus como vetor de Salmonella Enteritidis

A salmonelose é uma doença infecciosa que afeta humanos e animais. Ela é causada pela bactéria do gênero Salmonella, agente etiológico de diarreias e infecções sistêmicas. Essas bactérias também causam infecções subclínicas, podendo contaminar o ambiente por meio de fezes de animais contaminados.

Os sorotipos que afetam as aves podem causar enfermidades diferentes como a pulorose, pelo agente Salmonella Pullorum; o tifo aviário, pela Salmonella Gallinarum; e o paratifo aviário, por outros sorotipos.

Os casos de infecções alimentares em seres humanos geralmente estão associados ao paratifo aviário por não possuir um hospedeiro-específico e estar relacionado ao consumo de alimentos de origem avícola (OIE, 2018; NETO; FILHO; JÚNIOR, 2020).

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) estabeleceu ações para o monitoramento e controle da salmonela em granjas aviárias, em estabelecimentos de abates pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF) e critérios mínimos de biosseguridade nas granjas para registro no Serviço Veterinário Oficial com o Programa Nacional de Sanidade Avícola (PNSA), visando diminuir a contaminação de alimentos e humanos por Salmonella (GOVERNO FEDERAL, 2021).

O Alphitobius diaperinus (cascudinho) está presente nos aviários e é uma das pragas mais importantes relacionadas à sanidade avícola, pois é vetor de diversas doenças, como a Salmonelose.

Nos aviários os cascudinhos encontram o ambiente ideal para seu desenvolvimento, com temperatura e alimentos disponíveis; o chão batido facilita o ciclo biológico pois cavam galerias no solo e se protegem durante o vazio sanitário, podendo infectar a cama nos próximos lotes (PRÁ, 2020).

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Os cascudinhos coletados em cama de aviários já foram descritos como carreadores de Salmonella (GOODWIN E WALTMFAN, 1996). Na superfície externa do inseto houve isolamento de Salmonella, demonstrando ser capaz de se contaminar com o substrato da cama do aviário (AGABOU E ALLOUI, 2010; SEGABINAZI et al, 2005).

Adultos e larvas de cascudinhos já apresentaram capacidade de serem vetores de Salmonella Typhimurium (ROCHE et al, 2009; CASAS, POMEROY E HAREIN, 1968) e a Salmonella enterica já foi isolada em larvas de cascudinhos, incluindo os sorotipos S. Linvingstone e S. Infantis, e demonstraram ser bactérias multirresistentes aos antimicrobianos (DONOSO, PAREDES E RETAMAL, 2020).

Devido à importância do cascudinho como vetor de doenças na avicultura, a VETANCO BRASIL realizou o estudo da competência vetorial do Alphitobius diaperinus na transmissão de S. Enteritidis. 

A coleta de cascudinhos adultos foi realizada em um aviário comercial. As larvas foram obtidas em laboratório e os bioensaios realizados no laboratório de ornitopatologia da Universidade de São Paulo – USP.

Após a coleta, os adultos e larvas de cascudinhos ficaram armazenados em caixas plásticas cobertas com telas, recebendo ração umedecida em água destilada sob condições abióticas ambientais.

No bioensaio I, as larvas e adultos de cascudinhos foram infectados com S. Enteritidis através de ração contaminada experimentalmente.

A avaliação foi conduzida com 120 larvas e 120 adultos, separados em grupos de 20 indivíduos.  Cada grupo recebeu 5 g de ração contaminada com 5 ml de S. Enteritidis nas concentrações de 10⁷ e 10⁹ bactérias por mL por 24 horas. O grupo testemunha, de 20 larvas e 20 adultos, recebeu ração umedecida com 5 mL de caldo nutriente estéril para cultivo de Salmonella.

Para confirmar a contaminação, os insetos passaram por análise bacteriológica de UFC/mL no 1º e 7º dia após infecção. No 1º dia, cinco insetos foram retirados, por recipiente, e no 7º dia os demais. Os insetos passaram por descontaminação externa, macerados e preparados em água peptonada para semeadura em meio ágar xylose-lysine-tergitol 4 (XLT4) para determinar a concentração de S. Enteritidis.

O bioensaio II foi realizado para determinar a capacidade de adultos e larvas de cascudinhos infectados com S. Enteritidis, contaminar o alimento.

O desenho experimental contou com 20 cascudinhos adultos e 20 larvas contaminadas por S. Enteritidis, expostos a 5g de ração estéril para poedeiras.

O grupo controle recebeu ração com caldo nutriente estéril. As larvas foram retiradas da ração após 24 horas e os adultos após sete dias. Amostras de 1g de ração foram semeadas em tetrationato e, após, passadas para ágar XLT4, reisoladas em ágar MacConkey e, desta forma, foi confirmada a presença de S. Enteritidis.

O bioensaio III teve como objetivo demonstrar a capacidade das larvas e adultos de cascudinhos contaminados com S. Enteritidis de infectar pintinhos Specific Pathogen Free (SPF).

Os adultos e larvas contaminados foram oferecidos vivos como alimento a pintinhos SPF de um dia de vida. Foram utilizados 160 pintinhos divididos em quatro tratamentos e 40 repetições, cada ave representando uma repetição.

As aves foram avaliadas durante uma semana quanto à mortalidade.  As aves que morreram antes de uma semana foram necropsiadas e os órgãos (ceco, fígado e baço) foram semeados para isolamento de Salmonella spp.

Aos sete dias de vida, os pintinhos foram eutanasiados e necropsiados para retirada de fígado, baço e cecos e as tonsilas cecais, e, desta forma, foi confirmada a presença de S. Enteritidis após semeadura. 

Os adultos e larvas de cascudinhos do bioensaio I que receberam ração com S. Enteritidis (concentrações entre 10⁷ e 10⁹ bactérias/ml) estavam contaminados 24 horas e sete dias após a ingestão. Nas 24 horas após a ingestão não houve diferença de contaminação entre larvas e adultos, ambos estavam 100% contaminados. Todavia, após 7 dias de ingestão da S. Enteritidis os adultos estavam mais contaminados do que as larvas.

Após 24 horas, os insetos adultos estavam contaminados com concentrações entre 3 x 10³ e 1 x 10⁵ UFC/ml do macerado (considerando um pool de 5 insetos) e as larvas com concentrações entre 1 x 10⁴ e 4 x 10⁶ UFC/ml. Decorridos sete dias da ingestão, os adultos apresentaram concentrações entre 1,2 x 10⁴ e 2 x 10⁷ UFC/ml e as larvas concentrações entre 3,1 x 10⁵ e 1 x 10⁷ UFC/ml.

A ração estéril exposta a adultos e larvas de cascudinhos do bioensaio II que estavam contaminados com S. Enteritidis apresentaram positividade, exceto em uma das repetições. Entre as cinco amostras de rações estéreis, 80% foram contaminadas pela presença de Alphitobius diaperinus anteriormente contaminados com S. Enteritidis. 

O bioensaio III apresentou mortalidade de sete pintinhos antes do 7º dia, os quais foram necropsiados, sendo confirmada a presença de S. Enteritidis nas amostras de fígado, baço e ceco, exceto dois do grupo controle que estavam negativos para S. Enteritidis.

Os pintinhos que receberam larvas e adultos de cascudinhos contaminados com S. Enteritidis obtiveram amostras de fígado e baço positivas para S. Enteritidis.  Os pintinhos que se alimentavam de adultos apresentaram contaminação em  89,19% das amostras, e aqueles que se alimentaram com larvas o percentual de amostras contaminadas foi 97,37%.

Os pintinhos que ingeriram larvas estavam mais contaminados do que os que ingeriram adultos.

Os valores médios de UFC/g de fígado e baço foram de 322,47 UFC/g em pintinhos que ingeriram adultos e de 849,08 UFC/g para aqueles que ingeriram larvas. As amostras de ceco obtiveram cerca 44,74% negativas em pintinhos que ingeriram larvas e 78,38% em pintinhos que ingeriram adultos. Os valores médios de UFC/g de ceco foram de 200,17 em pintinhos que ingeriram adultos e 428,11 UFC/g em pintinhos que receberam larvas de A. diaperinus.

Crippen et al (2009) apresentaram resultados de contaminação interna do A. diaperinus com a S. Enteritidis, adquirindo a bactéria no trato gastrointestinal após 30 minutos de exposição a 10⁴ UFC/mL. Hazeleger et al (2008) forneceram a pintinhos de sete dias, adultos e larvas de cascudinhos contaminados com Salmonella enterica.

Todos os grupos de aves do estudo isolaram Salmonella, indicando que o Alphitobius diaperinus pode ser um vetor dessa bactéria e uma única exposição aos insetos contaminados pode ser suficiente para contaminar a ave. 

O controle de cascudinhos é essencial por ser fonte de disseminação de doenças para as aves e para a cama do aviário (LEFFER et al, 2002).

 

Com esse estudo podemos concluir que o Alphitobius diaperinus  pode ser capaz de carrear a S. Enteritidis nas formas larvais e adultos. Quando apresentados a um meio de ração estéril foram capazes de contaminar 80% das amostras, e os pintinhos SPF que receberam os cascudinhos adultos e larvas contaminados com S. Enteritidis tiveram positividade no fígado, baço e ceco após sete dias da ingestão dos insetos, demonstrando sua capacidade de contaminação das aves. As larvas são capazes de veicular concentrações maiores de S. Enteritidis do que os adultos.

Referências: sob consulta dos autores

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