GESTÃO DE RISCOS: POR QUE ESSA ABORDAGEM É TÃO IMPORTANTE NA PREPARAÇÃO DE EVENTOS FUTUROS DE INFLUENZA AVIÁRIA?

 

Em 2025, pela primeira vez, o vírus da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) H5N1, clado 2.3.4.4b, atingiu aves de granjas comerciais no Brasil. Diante desse marco inédito para o setor avícola nacional, qual seria a melhor resposta para enfrentar essa situação?

O vírus da IAAP H5N1 foi isolado pela primeira vez em gansos doentes na China em 1996. Desde então, surtos graves de IAAP H5N1 em aves domésticas e de vida livre foram relatados, principalmente após dezembro de 2003, em mais de 60 países na Ásia, África e Europa.

Conforme relatado recentemente por Xie e colaboradores (2025), o clado 2.3.4.4b do vírus H5N1 apresenta características preocupantes, que indicam que este vírus se tornou uma ameaça crescente à saúde animal, ambiental e potencialmente à saúde humana, com rápida expansão geográfica e adaptativa. O clado se espalhou rapidamente pela Eurásia e África até o outono de 2021. A migração de aves provavelmente facilitou a chegada do vírus à América do Norte no início de 2022 e em seguida à América do Sul, tornando-se o subtipo dominante circulante em aves.

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Além de sua disseminação global, o clado tem potencial elevado de transmissão e adaptação entre espécies. O vírus apresenta alta capacidade de infectar mamíferos terrestres e aquáticos (raposas, gatos, visons, vacas leiteiras e leões marinhos), bem como tem potencial de adaptação ao receptor humano (α-2,6) encontrado principalmente no trato respiratório superior.

Apesar de esporádicas, infecções humanas pela IAAP H5N1 apresentaram aumento recente, com 93 novos casos registrados entre 2020 e 2024 e crescimento ano a ano nesse período. No total, entre 2003 e 2024, a Organização Mundial de Saúde (OMS) confirmou 954 casos humanos em 24 países, resultando em 464 mortes — o que corresponde a uma taxa de letalidade de 48,64%.

No Brasil, o clado 2.3.4.4b já foi identificado em diversas espécies de aves silvestres.No Rio Grande do Sul (RS), há registros de mortalidade de leões-marinhos ao longo da costa e, no município de Montenegro, onde ocorreu o primeiro foco em granja comercial em maio de 2025, o vírus também foi detectado em joão-de-barro (Furnarius rufus). Essas ocorrências reforçam o potencial de disseminação geográfica e interespécies deste clado.

A emergência do vírus H5N1 clado 2.3.4.b alterou o cenário epidemiológico. Enquanto um estudo conduzido por Corbellini e colaboradores em 2012 apontava para um risco muito baixo de introdução do vírus H5N1 parental oriundo da China no Brasil, atualmente tal risco é classificado como elevado, considerando os casos confirmados em aves silvestres e domésticas registrados em 2023.

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Nesse novo contexto, torna-se ainda mais relevante o uso sistemático de ferramentas que apoiem a antecipação, o monitoramento e a resposta a eventos sanitários de alta complexidade. Entre essas ferramentas, destaca-se a avaliação de riscos, fundamental para a gestão de riscos, que permite a criação de alertas e a identificação de cenários incertos, o que facilita a tomada de decisões baseada em informações relativas aos riscos.

O risco é avaliado considerando tanto a probabilidade de introdução do vírus da influenza aviária no território brasileiro/granjas comerciais quanto o potencial impacto decorrente desse evento.

Em um trabalho conduzido pela Corb Science no Rio Grande do Sul em 2023, foi aplicada uma Avaliação Rápida de Risco (ARR) com base na metodologia Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC), estruturando o risco de incursão e disseminação do clado 2.3.4.4b do vírus H5N1 em diferentes tipos de granjas.

A ferramenta permitiu organizar o raciocínio epidemiológico de forma sequencial, identificando os caminhos mais prováveis de infecção a partir de aves silvestres, os principais fatores de exposição e as incertezas que interferem na propagação do vírus. O modelo facilitou a tomada de decisão em contextos de alta complexidade e incerteza, fornecendo uma base objetiva para revisão das estratégias de vigilância, biosseguridade e comunicação de risco.

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Como resultado, foi possível identificar que a capacidade de contenção do vírus está diretamente relacionada ao tipo de granja afetada, às barreiras físicas de bioexclusão e ao preparo institucional para responder a uma epidemia de grande escala. A análise também permitiu propor ações práticas diante das incertezas identificadas — como reavaliação de protocolos de resposta diante de uma epidemia em larga escala, categorização de risco por perfil de produção avícola e definição de critérios para priorização territorial.

Como a Avaliação Rápida de Risco (ARR) apoia a gestão da Influenza Aviária?

  • Organizar Raciocínio Epidemiológico Mapeia rotas de introdução do virus, fatores de exposição e pontos criticos de biosseguridade.
  • Antecipar Cenários Incertos Identica variáveis ou cenários com maior grau de incerteza e propõe respostas proporcionais ao risco.
  • Classicar Risco por Perl Produtivo Permite diferenciar o risco entre granjas comerciais, de subsistência ou outros tipos de criações alternativas.
  • Priorizar Territórios e Ações Denindo critérios para alocação estratégica de recursos.

O modelo de ARR, aplicado naquele momento em 2023 indicou que o risco de ingresso do vírus era alto — e poderia ser classificado como muito alto, diante da incerteza quanto à magnitude potencial da epidemia em granjas comerciais. Já não se tratava de questionar se o vírus chegaria a uma granja comercial, mas sim quando isso ocorreria.

Ao adotar a ARR como apoio à tomada de decisão, o setor avícola passa a contar com uma estratégia prática e eficiente para lidar com ameaças sanitárias de grande impacto. Essa ferramenta contribui para transformar análises técnicas em ações concretas para a gestão de riscos, fortalecendo a capacidade de resposta diante de desafios complexos.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) possui um plano de vigilância para Influenza Aviária e Doença de Newcastle, com ações contínuas de monitoramento em diferentes segmentos da avicultura nacional e aves de vida livre. Desde a primeira confirmação do vírus da IAAP no Brasil, em 15 de maio de 2023, já foram detectados 177 focos da doença até o momento:

A área no raio de 10 km do foco confirmado na granja de aves comerciais em Montenegro (RS) continha 540 estabelecimentos, sendo apenas 2 de granjas comerciais. O foco foi prontamente controlado pelo Serviço Veterinário Oficial e, após 28 dias, o Brasil informou oficialmente à Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) o fim do vazio sanitário, conforme previsto nos protocolos internacionais. Com a notificação, o país se autodeclara livre da IAAP.

O foco foi registrado apenas em uma granja comercial, sem disseminação para outras propriedades, sendo que os principais impactos observados se relacionaram ao fechamento de mercados. Diante dessa experiência, torna-se oportuno refletir sobre a capacidade de resposta frente a cenários mais complexos:

  • Se no próximo ano forem registrados 2, 5 ou até 10 focos em granjas comerciais, qual será o nível de preparação do país?
  • Quais os impactos econômicos e sanitários caso o restabelecimento do status de livre da IAAP leve 56 dias, em vez dos 28 registrados em 2025?
  • E, sobretudo, que medidas adicionais — preventivas ou reativas — poderiam ser adotadas para fortalecer a resiliência do sistema de vigilância e resposta?
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A cenarização de incertezas é uma ferramenta útil para prever possíveis situações relacionadas à IAAP e ajudar a planejar respostas apropriadas. Ao criar diferentes cenários futuros, é possível se preparar para várias situações e tomar decisões mais seguras, mesmo diante de muita incerteza. Assim, organizações e profissionais conseguem aumentar a capacidade de adaptação e responder melhor a desafios inesperados.

A estratégia de cenarização de incertezas, como parte integrante da gestão de riscos, pode ser particularmente útil diante do atual contexto da IAAP no Brasil. A identificação dos principais fatores de incerteza permite antecipar variáveis críticas que podem comprometer a contenção e a resposta ao vírus.

A prevalência real do clado 2.3.4.4b do vírus H5N1 em aves silvestres ou mamíferos no Brasil, por exemplo, permanece desconhecida, o que compromete a previsibilidade sobre novos focos. Soma-se a isso a possibilidade de crescimento sustentado do número de casos ano após ano, como já vem sendo observado em outras regiões. Há também incertezas associadas à reação dos mercados, à agilidade da resposta institucional a grandes surtos e à própria percepção pública sobre a segurança do consumo de produtos avícolas. Tais variáveis podem interagir de forma complexa, demandando um modelo estruturado para antecipação de cenários.

Ao analisar as tendências, torna-se plausível considerar que o aumento da circulação viral pode gerar cenários com impacto ampliado sobre a cadeia produtiva. A título de exemplo, pode-se projetar três cenários ilustrativos:

  • (1) um cenário de controle pontual, com poucos focos isolados e resposta eficiente, semelhante ao ocorrido em Montenegro (RS);
  • (2) um cenário intermediário, com múltiplos focos em diferentes estados e necessidade de medidas regionais de contenção; e
  • (3) um cenário de ampla disseminação, com dificuldades de contenção, perdas econômicas significativas, aumento significativo da mortalidade animal, retração comercial e desgaste da confiança social.

Ao desenvolver esses cenários com base nas incertezas mapeadas, torna-se possível avaliar previamente os impactos potenciais, identificar fragilidades sistêmicas e estruturar planos de contingência mais robustos.

A partir dessa estrutura, a cenarização contribui diretamente para o fortalecimento da capacidade de resposta. Para cada cenário, é possível estabelecer estratégias específicas de mitigação — como intensificação da vigilância em áreas prioritárias, revisão de planos de emergência sanitária, comunicação diferenciada com o consumidor e coordenação interinstitucional para garantir agilidade nas ações.

A própria lógica da cenarização pressupõe monitoramento contínuo, permitindo revisar os cenários à medida que novas informações são incorporadas. Com isso, a ferramenta reduz a vulnerabilidade frente ao inesperado, melhora a qualidade das decisões, promove inovação em estratégias de adaptação e consolida uma visão estratégica mais clara para enfrentar eventos de alta incerteza como a IAAP.

Considerando o aumento da circulação do H5N1 e a complexidade envolvida em sua contenção, verifica-se que estruturas meramente reativas já não atendem às necessidades atuais. A elaboração de cenários a partir de incertezas evidencia um avanço na maturidade da gestão de riscos, permitindo a conversão de dados e informações em conhecimento prático.

Mais do que antecipar acontecimentos futuros, o objetivo é promover uma preparação adequada por meio de metodologia, objetividade e responsabilidade no âmbito setorial.

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