Problemas locomotores em frangos de corte: causas, impactos e estratégias para bem-estar
Édina de Fátima Aguiar1 e Elaine Sans2
1Doutora em zootecnia e assessora na Iniciativa MIRA
2Doutora em zootecnia, coordenadora na iniciativa MIRA
O avanço do melhoramento genético na avicultura de corte possibilitou o desenvolvimento de linhagens de crescimento rápido, mas essa evolução também trouxe desafios importantes relacionados à saúde e ao bem-estar das aves, especialmente no que se refere ao sistema locomotor.
A alta taxa de crescimento está frequentemente associada a uma sobrecarga da estrutura óssea, resultando em dor, deformidades e dificuldades de locomoção. Nesse contexto, os problemas locomotores representam uma preocupação relevante para a avicultura mundial, pois impactam não apenas em indicadores produtivos, como condenações e desclassificações de carcaças, mas também aspectos não mensuráveis, como dor crônica e limitação da expressão comportamental das aves.
Aves com dificuldades locomotoras tendem a permanecer mais tempo em decúbito, aumentando o risco de lesões de contato, como calos de peito. Além disso, a redução da mobilidade pode comprometer o acesso à água e ao alimento, refletindo em menor ganho de peso e maior desuniformidade dos lotes.
Diversos fatores contribuem para o agravamento dos problemas ósseos, incluindo condições ambientais e nutricionais inadequadas. A qualidade da cama, por exemplo, exerce papel fundamental: camas úmidas favorecem a proliferação de patógenos e o desenvolvimento de dermatites, como a pododermatite, enquanto camas excessivamente secas e compactadas podem causar instabilidade e lesões mecânicas. Esses fatores também estão associados a problemas de qualidade de carcaça, como celulites e arranhões.
Embora os distúrbios locomotores sejam multifatoriais, há forte relação com o rápido ganho de peso. Desde a década de 1950, as taxas de crescimento dos frangos de corte aumentaram mais de 400%, permitindo que as aves atinjam o peso de abate em cerca de 5 a 6 semanas. No entanto, o desenvolvimento ósseo não acompanha a mesma velocidade da deposição muscular, resultando em maior pressão sobre ossos e articulações. O crescimento acentuado da musculatura peitoral também altera o centro de gravidade das aves, dificultando o equilíbrio e a locomoção.
Diante desse cenário, linhagens de crescimento mais lento têm sido adotadas em diversos países como alternativa para mitigar esses impactos. Essas linhagens permitem um desenvolvimento mais equilibrado entre músculo e esqueleto, reduzindo a incidência de claudicação e promovendo melhor qualidade de vida às aves. Iniciativas como o Better Chicken Commitment (BCC) reforçam essa abordagem ao estabelecer critérios baseados em evidências científicas, incluindo o uso de linhagens de crescimento mais lento, menor densidade de alojamento e melhorias nos métodos de manejo e abate. Além do BCC, o uso de linhagens de crescimento lento também é recomendado em diversos países da União Europeia pela EFSA (European Food Safety Authority).
A nutrição também desempenha papel essencial na saúde óssea. O adequado fornecimento de cálcio, fósforo, vitaminas (especialmente a vitamina D3 e seus metabólitos, como a 25-OHD3) e microelementos é fundamental para a mineralização óssea. Desequilíbrios nutricionais, assim como a presença de fatores antinutricionais, podem comprometer a absorção de minerais, resultando em ossos mais frágeis e suscetíveis a fraturas. Estratégias como a escolha adequada da granulometria do calcário e o uso de enzimas como a fitase são importantes para otimizar o aproveitamento desses nutrientes.
As principais empresas de genética têm estimativas de reduzir, ainda mais, o tempo para que os frangos possam atingir o peso de abate, e incluindo, aumento no rendimento do peito. Se por um lado essa informação parece positiva em relação ao aumento da produção de carne de frango, esta ação traz ainda maior preocupação à saúde geral das aves, em especial, à esquelética. Além dos problemas ósseos, essa taxa alta de crescimento pode ser acompanhada pelo aumento da mortalidade e incidência de doenças metabólicas.
Além disso, práticas de manejo influenciam diretamente a saúde locomotora das aves. A alta densidade de alojamento pode dificultar a identificação precoce de problemas, tornando essencial o monitoramento contínuo dos lotes. Indicadores como taxa de descarte, incidência de fraturas, resistência óssea e parâmetros bioquímicos devem ser acompanhados como parte da gestão produtiva.
A fragilidade óssea também impacta etapas posteriores, como transporte e abate, aumentando a ocorrência de contusões, fraturas e presença de fragmentos ósseos na carne. Dados do Serviço de Inspeção Federal (SIF) indicam que condenações parciais por contusões e fraturas podem atingir até 5% das aves abatidas.
Como estratégia complementar ao uso de linhagens de crescimento lento, o enriquecimento ambiental tem demonstrado efeitos positivos na saúde das aves. Ao estimular comportamentos naturais e aumentar o nível de atividade física, contribui para o fortalecimento ósseo, melhoria da locomoção e redução de problemas locomotores.
De maneira geral, o rápido crescimento e as alterações fisiológicas e biomecânicas associadas reforçam a necessidade de uma abordagem mais equilibrada na produção de frangos de corte. A revisão de práticas de manejo, nutrição e seleção genética é fundamental para promover sistemas produtivos mais sustentáveis e alinhados ao bem-estar animal.
