Cálcio total mede pouco do que importa metabolicamente
Cálcio total não basta para interpretar saúde óssea de frangos quando a resposta metabólica do animal é mais complexa do que a matriz mineral da dieta. Esse foi o gancho técnico mais forte do trecho registrado da palestra de Aaron Cowieson, da dsm-firmenich/DSM, durante a 36ª Reunião Anual do CBNA. Ao tratar de inteligência artificial aplicada à interpretação de resultados, o palestrante colocou o cálcio ionizado no centro de uma leitura que integra fósforo, biomarcadores sanguíneos, metagenômica, metabolômica, microbioma, lactato e machine learning.
Segundo Cowieson, IA e machine learning podem ajudar a transformar dados biológicos complexos em decisões práticas, desde que sejam alimentados por informações granulares, metadados consistentes e interpretação técnica. No caso dos frangos, o conteúdo mostrou que problemas ósseos não devem ser lidos apenas por níveis formulados de cálcio e fósforo, mas pela resposta metabólica e microbiológica do animal.
Cálcio total mede pouco do que importa metabolicamente
No slide sobre cálcio ionizado, Cowieson mostrou que 99% do cálcio corporal está no esqueleto e que o 1% restante se distribui entre pools extracelular e intracelular. Ao medir cálcio total no sangue, segundo a explicação apresentada, quantifica-se o pool extracelular, com valor de referência em torno de 11,5 mg/dL no material mostrado.
O palestrante dividiu o cálcio total sanguíneo em três frações: ligado a proteínas, ligado a ânions e ionizado. O gráfico apresentado indicou aproximadamente 48% de cálcio ligado a proteínas, 47% de cálcio ionizado e 5% ligado a ânions. Na leitura de Cowieson, o cálcio ionizado tem maior relevância metabólica por participar do crescimento ósseo e de outras funções fisiológicas, inclusive como cofator enzimático.
FHN, TD e BCO exigem leituras diferentes
Segundo Cowieson, o cálcio ionizado foi apresentado como biomarcador central para prever saúde esquelética, integridade óssea e baixa porosidade óssea em frangos. De acordo com os dados mostrados pelo palestrante, uma base global mencionada, com mais de 10 mil granjas comerciais de frangos de corte, indicaria que aves com alto cálcio ionizado apresentam redução de cerca de 30% a 40% na prevalência de alterações femorais. O dado deve ser lido como informação apresentada por Cowieson, sem extrapolação automática para todos os sistemas.
Os slides também indicaram associação estatística entre anormalidades esqueléticas e desarranjos de cálcio e fósforo no sangue. Para reduzir FHN, a mensagem apresentada foi mirar a maximização do cálcio ionizado plasmático, o que envolve mais do que simplesmente aumentar o fornecimento de cálcio total. Para reduzir TD, a mensagem foi evitar hiperfosfatemia e hipocalcemia, com menor envolvimento do cálcio ionizado em si. Esse ponto é tecnicamente importante porque mostra que a resposta mineral não pode ser tratada como uma única equação para todas as lesões ósseas.
Microbioma entra na saúde óssea
Cowieson também conectou saúde esquelética e microbioma. No exemplo de um cliente da Europa Oriental, o palestrante comparou duas granjas: uma com boa produção e baixa mortalidade e outra com alta prevalência de problema femoral, descrito no trecho captado como necrose de cabeça femoral. Segundo a apresentação, a análise de microbioma identificou alta abundância relativa de espécies patogênicas de Enterococcus na granja-problema.
A leitura proposta pelo palestrante não foi reduzir o diagnóstico à presença de uma bactéria. O caso foi tratado como interação entre microbioma, suscetibilidade do animal, status mineral e dados de produção. Esse ponto aproxima nutrição, sanidade e ciência de dados: o problema ósseo deixa de ser visto apenas como deficiência nutricional e passa a ser interpretado como fenômeno multifatorial.
Lactato, cama e conversão alimentar mostram a força dos dados integrados
Outro caso apresentado por Cowieson envolveu lactato, microbioma e anion gap. Segundo o palestrante, níveis normais de lactato ficariam em torno de 1 a 2 mmol, enquanto a avaliação citada encontrou lactato plasmático tão alto quanto 8 mmol. Ele diferenciou L-lactato, associado ao hospedeiro e à glicólise anaeróbica, de D-lactato, associado ao microbioma, especialmente quando há fermentação de amido.
No caso descrito, a metagenômica mostrou alta abundância de vias produtoras de lactato e baixa abundância de vias consumidoras de lactato no microbioma. Segundo Cowieson, a combinação de dados e machine learning permitiu diagnosticar disfunção do microbioma ligada a excesso de lactato e insuficiência de vias consumidoras, com possibilidade de intervenção direcionada por cobióticos consumidores de lactato. O palestrante conectou esse fenótipo a processamento de ração, tamanho de partícula, concentração de nutrientes, passagem rápida de alimento, cama e conversão alimentar.
IA não substitui o técnico; organiza a complexidade
O valor da IA, na leitura apresentada por Cowieson, não está em substituir o julgamento técnico. Está em encontrar padrões invisíveis quando produção, formulação, genética, densidade, metabolômica sanguínea, metagenômica e desempenho são analisados isoladamente. Os slides finais associaram IA e machine learning a dados FAIR, ou seja, encontráveis, acessíveis, interoperáveis e reutilizáveis.
Segundo o palestrante, metabolômica e metagenômica, combinadas à captura sistemática de metadados, oferecem insights antes inacessíveis para a indústria. Mas Cowieson também advertiu que dados sozinhos não resolvem o problema. Profissionais clínicos e técnicos seguem essenciais para discutir significado, prioridade de negócio e intervenção possível.
Para frangos, o mineral virou dado biológico
A palestra mostrou que, para frangos de corte, cálcio e fósforo precisam ser lidos além da dieta formulada. No recorte apresentado por Cowieson, o cálcio ionizado aparece como biomarcador mais refinado para determinadas leituras de saúde óssea, enquanto o fósforo e a relação com hiperfosfatemia e hipocalcemia ajudam a diferenciar problemas como FHN e TD. A IA entra como ferramenta de integração, não como manchete vazia.
Para a avicultura, a mensagem é direta: a saúde óssea não pode ser interpretada apenas pelo cálcio total ou pela formulação mineral no papel. Segundo Cowieson, é a combinação entre biomarcadores, microbioma, dados de produção e interpretação técnica que pode apontar onde está o risco e qual intervenção faz sentido. Nesse contexto, o cálcio ionizado deixa de ser detalhe laboratorial e passa a ocupar o centro da decisão nutricional e sanitária.
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