Última semana do frango concentra 30% do consumo e pode definir margem do lote | Por aviNews Brasil
A última semana do frango de corte pode parecer curta demais para mudar o destino de um lote. Mas, na prática, é justamente nesse período que uma parte expressiva da margem pode ser preservada (ou perdida).
Ao discutir o manejo de frangos na fase final durante o XVII Simpósio Goiano de Avicultura, Vinicius Gonsales Schramm, Gerente de Serviços Técnicos para o Brasil e Cone Sul da Hubbard, chamou atenção para uma equação que ajuda a explicar por que os últimos dias antes do abate não podem ser tratados no “piloto automático”. Considerando o intervalo de 36 a 42 dias, a fase representa cerca de 16% da vida da ave, mas pode concentrar aproximadamente 23% do ganho de peso e 30% do consumo de ração.
Em uma etapa em que o frango ainda ganha peso, mas consome muito e já não apresenta a mesma conversão das fases anteriores, decisões sobre nutrição, qualidade física da ração, conforto térmico, jejum e transporte passam a ter impacto direto sobre desempenho, rendimento, condenações e qualidade de carcaça. Ou seja, na avicultura moderna, eficiência não depende apenas de construir bom desempenho ao longo do lote, mas também de não perder valor nas etapas críticas do processo.
Esse raciocínio também apareceu, em outra ponta da cadeia, na palestra de Thomas Calil, Global Product Manager da Lohmann Breeders, sobre contaminação de incubatórios. Ao abordar barreiras físicas, fluxo de ar, controle de água, secagem de bandejas, validação de produtos e equilíbrio entre potência, temperatura, produto e tempo nos processos de limpeza e desinfecção, Calil reforçou que o controle sanitário depende menos de ações isoladas e mais da consistência do processo.
Do incubatório à granja, portanto, o eixo comum das palestras foi o mesmo: detalhes operacionais só são pequenos quando não são medidos. Quando falham, aparecem em contaminação, perda de desempenho, piora de conversão, condenações, mortalidade ou redução de rendimento.
“Se por alguma razão no seu incubatório houver cruzamento de fluxo ou contrafluxo, ali você tem que instalar uma barreira”, afirmou Calil, ao defender que o controle sanitário começa pelo desenho físico e pela separação entre áreas limpas e sujas.
Na abordagem sobre incubatórios, Calil chamou atenção para a falsa sensação de segurança criada por estruturas, equipamentos ou protocolos que não controlam efetivamente o fluxo de contaminação. Um exaustor, por exemplo, só cumpre sua função sanitária se garantir que o ar siga do ambiente mais limpo para o mais sujo. Caso existam aberturas, frestas ou caminhos alternativos, o sistema perde eficiência porque, como ressaltou o palestrante, o ar busca sempre o caminho mais curto e de menor resistência.
“Para descontaminar o incubatório, você tem que ter potência, temperatura, produto e tempo”, resumiu Calil, ao apresentar o conceito PTPL como base para equilibrar força mecânica, temperatura, escolha do produto e tempo de contato.
O alerta é particularmente relevante em processos de lavagem e desinfecção. Segundo Calil, trabalhar com água quente sem atingir temperatura adequada pode deixar de ser ferramenta de controle e se transformar em risco. Em sua avaliação, se a água utilizada no processo não estiver acima de 50ºC, especialmente na presença de matéria orgânica, o sistema pode favorecer o crescimento microbiano em vez de reduzi-lo. A mensagem reforça que biosseguridade não se resume à aplicação de desinfetante: depende de validação, concentração correta, remoção prévia de matéria orgânica, secagem eficiente e tempo real de ação.
Fase curta, impacto alto
A palestra de Vinicius Schramm deslocou o debate para a última semana do frango de corte, etapa muitas vezes tratada como fase de fechamento, mas que concentra parte expressiva do custo e do resultado produtivo. No recorte apresentado pelo técnico da Hubbard, considerando o período de 36 a 42 dias, a fase representa cerca de 16% da vida da ave, mas pode responder por aproximadamente 23% do ganho de peso e 30% do consumo de ração.
“É um período muito curto, mas a gente pode comprometer todo o resultado para frente”, afirmou Schramm. “Não adianta criar o frango da melhor maneira possível até essa fase e chegar no final e perder todo o resultado.”
O dado é central para a leitura econômica do manejo final. A ave ainda ganha peso de forma relevante, mas o consumo de ração cresce de maneira proporcionalmente maior. Isso torna a última semana uma fase de alta pressão sobre custo, conversão alimentar, qualidade de carcaça e decisões de manejo.
“Toda vez que a gente fala em alto consumo e conversão pior que nos outros períodos, a gente está falando de custo”, observou.
Lisina, energia e o custo da ração final
Na nutrição, Schramm destacou uma mudança de tendência importante para a formulação das dietas finais. Segundo ele, as aves modernas continuam respondendo ao aumento de aminoácidos, especialmente lisina, enquanto a energia já não apresenta a mesma resposta proporcional observada no passado. Na prática, isso abre espaço para uma formulação mais criteriosa, com maior atenção à relação entre desempenho, custo dos ingredientes e risco de deposição excessiva de gordura.
“O frango está respondendo à lisina até a fase final”, disse Schramm. “A energia continua respondendo, mas responde de maneira mais lenta.”
O ponto não é simplesmente elevar níveis nutricionais, mas evitar reduções agressivas que comprometam desempenho, estrutura óssea, saúde de pernas ou rendimento ao abate. O palestrante citou estratégias utilizadas por empresas na fase final, como redução de vitaminas e minerais, retirada de anticoccidianos, promotores ou aditivos, além de ajustes relacionados ao uso de fosfato. Em todas elas, o critério técnico é decisivo para que a economia aparente não se converta em perda produtiva.
Pellet, consumo e condenações
Outro ponto de destaque foi a qualidade física da ração. Schramm ponderou que a peletização costuma ser associada a dois benefícios: aumento de consumo e melhora de digestibilidade. No entanto, segundo ele, a melhora de digestibilidade não deve ser tratada como verdade absoluta, pois depende do processamento utilizado. Em determinados cenários, o principal efeito do pellet está no consumo, e não necessariamente na digestibilidade.
A qualidade do pellet ganha ainda mais importância na fase final porque as rações costumam ter maior inclusão de energia, o que pode piorar a estrutura física do alimento. Quando há queda brusca na qualidade do pellet ou aumento de finos, as aves tendem a visitar mais vezes o comedouro, disputar espaço, subir umas sobre as outras e aumentar o risco de arranhões. Em mercados que comercializam carcaça inteira, esse detalhe pode se transformar diretamente em condenação ou perda de valor comercial.
“Tem que tomar muito cuidado com essa ração final, porque às vezes você pode aumentar a condenação do frango por questão de qualidade de pellet ou qualidade de ração”, alertou.
Ambiência não se corrige apenas com nutrição
Na discussão sobre conforto térmico, Schramm reforçou que a fase final exige atenção especial porque o desempenho depende diretamente da capacidade da ave de consumir, crescer e manter equilíbrio fisiológico. Fora da zona de conforto, a ave gasta energia para termorregulação, reduz consumo, piora desempenho e pode apresentar aumento de mortalidade.
“Não adianta tentar remediar uma temperatura ruim com nutrição”, afirmou. Para ele, o melhor manejo continua sendo garantir boa ambiência, e não tentar compensar falhas térmicas apenas com ajustes de dieta.
O palestrante também chamou atenção para interpretações equivocadas de rendimento. Em situações de calor, o rendimento percentual pode parecer melhor porque o peso vivo é menor, mas o peso absoluto de carcaça e de peito pode ser inferior. Para agroindústrias, o indicador econômico relevante não é apenas o percentual, mas o volume real de produto obtido no abate.
Jejum e transporte
Na etapa de pré-abate, Schramm destacou o jejum como um dos pontos mais críticos da última semana. O objetivo não deve ser “zerar” completamente o trato gastrointestinal, mas reduzir o risco de contaminação sem provocar catabolismo, perda de rendimento de peito, fragilidade intestinal ou aumento do risco de ruptura durante a evisceração.
Segundo o técnico, jejuns excessivos elevam a perda de peso e podem tornar o intestino mais frágil. Ele também citou estudos em que períodos mais longos de jejum estiveram associados a maior contaminação por Salmonella quando comparados a jejuns mais curtos. Na prática, o manejo precisa equilibrar exigências sanitárias, logística de carregamento, tempo de transporte e condições reais de abate.
“O papo não pode ter nada, mas no restante do trato vai ter alguma coisa. O que não pode é estar zerado, porque isso aumenta o risco de rompimento e contaminação na linha”, explicou.
No transporte, o alerta foi para procedimentos adotados de forma automática, especialmente o molhamento da carga. Schramm apresentou dados de trabalhos com câmera termográfica indicando que molhar a carga pode reduzir a temperatura inicialmente, mas que o efeito pode desaparecer rapidamente e, em condições de alta umidade ou caminhão parado, piorar a sensação térmica das aves.
“Molhar apenas nas condições corretas”, sintetizou. “Não adianta querer molhar em todas as condições, porque eu posso piorar a sensação térmica desse frango.”
