De Foz para o mundo: previsibilidade para o comércio, blindagem para a sanidade

Declaração de Iguaçu consolida consenso em regionalização + evidência e reposiciona o Brasil no tabuleiro regulatório.

A Declaração de Iguaçu deu um passo raro no debate global sobre Influenza Aviária: alinhou ciência, regulação e mercado em torno do objetivo concreto de manter o comércio previsível, enquanto se eleva a proteção sanitária.

Ao final do Fórum Internacional da FAO, em Foz do Iguaçu, interlocutores de governos, organismos internacionais e indústria convergiram para uma resposta baseada em:

  • Regionalização por risco,
  • Biosseguridade executável e
  • Vacinação acompanhada de vigilância pós-vacinal padronizada.

As conclusões e leituras que apresentamos nesta reportagem foram apuradas em entrevistas e sessões acompanhadas pela aviNews Brasil in loco.

Regionalização

O eixo da regionalização, muitas vezes tratado como princípio abstrato, saiu de Foz com cara de regra operacional. A mensagem dominante foi que decisões proporcionais (por raio, município ou estado, conforme evidências) reduzem os danos colaterais de embargos amplos sem relaxar a sanidade.

Na prática, a regionalização vira ferramenta para destravar reaberturas graduais e previsíveis após detecções pontuais, desde que o país afetado demonstre capacidade de vigilância e resposta rápida. O Brasil, que já vinha defendendo esse caminho nos foros sanitários e comerciais, ganhou tração política para avançar a pauta junto a mercados compradores.

“Depois de duas décadas lidando com uma doença trazida por aves migratórias, a resposta precisa ser baseada em evidências para reduzir disrupções desnecessárias no comércio.” — Carlos Goulart, secretário de Defesa Agropecuária do MAPA (entrevista à aviNews Brasil, Foz do Iguaçu).

Vacinação

Vacinar é parte do arsenal, não um atalho. O consenso técnico amadurecido em Foz foi cristalino: sem um padrão internacional de vigilância pós-vacinal (desenho amostral, testes, metas de detecção e transparência de dados) o comércio continuará vulnerável a medidas de precaução excessivas.

“Regionalização protege a produção e o comércio; confiança se constrói com transparência de dados e cooperação entre países.” — Andrés González, Oficial de Produção e Saúde Animal da FAO (entrevista à aviNews Brasil)

Com regra clara, a vacinação deixa de ser motivo de desconfiança e passa a ser um seguro sanitário mensurável, capaz de sustentar certificados, auditorias e a previsibilidade que os executivos cobram.

Biosseguridade

Houve também um reenquadramento da biosseguridade, com mais execução, menos retórica. Instalações e equipes precisam de rotinas simples, repetíveis e auditáveis (conceito de três zonas funcionais, controle real de acessos, higiene de pessoas e veículos) combinadas a ferramentas como drones e monitoramento remoto para inspeções e pronta resposta.

Em outras palavras, tecnologia a serviço do básico, e não o contrário. Essa visão pragmática reduz variação entre granjas e encurta o tempo entre suspeita e contenção.

“As medidas já existem; o diferencial é executar com precisão em todos os elos da cadeia.” — Mário Sérgio Assayag, diretor corporativo agropecuário da Seara/JBS (entrevista à aviNews Brasil).

Integração One Health

Se a regionalização e a vigilância dão forma à regra, a integração One Health dá escala. Casos apresentados no Fórum (como o de Bangladesh) mostraram que é possível transformar estratégia em investimento, mobilizando bancos multilaterais e fundos climáticos/sanitários quando a prevenção é tratada como bem público e tem plano, metas e governança.

Para o Brasil, abre-se uma avenida de projetos que unem diagnóstico, biosseguridade e formação de pessoal, com financiamento estruturado e metas verificáveis. Executivos que olham custo total veem aí CAPEX (Capital Expenditure) e OPEX (Operational Expenditure) ancorados em risco real, não em percepções.

“One Health é trabalho multidisciplinar: saúde animal, humana e ambiental junto com o setor privado para prevenir e responder no nível da granja.” — Andrés González, FAO (entrevista à aviNews Brasil)

Comércio

O outro recado de Foz foi sobre governança da incerteza. Desde 2016, a Influenza Aviária motivou uma avalanche de medidas comerciais ao redor do mundo (um sintoma de regras assimétricas e de confiança instável).

A Declaração de Iguaçu propõe curvar essa trajetória com evidências compartilháveis, auditoráveis e comparáveis entre países. Para a indústria, isso funciona como blindagem regulatória: menos decisões caso a caso, mais previsibilidade de carteira e de margem.

“A continuidade de negócios esteve no centro das discussões com FAO, OMSA e OMC — sanidade e comércio na mesma mesa.” — Sula Alves, diretora técnica da ABPA (entrevista à aviNews Brasil)

Brasil reposicionado

O credenciamento do LFDA-Campinas como Centro de Referência da FAO, somado à defesa ativa da regionalização, reposiciona o Brasil como provedor de solução técnica e articulador regional.

Em termos práticos, isso significa participar da escrita fina das diretrizes de vigilância pós-vacinal, acelerar capacitações na ponta e oferecer trilhas de conformidade a parceiros latino-americanos. Para exportadores, traduz-se em narrativa de confiança lastreada em capacidade analítica, velocidade de resposta e interoperabilidade de dados.

“O reconhecimento do LFDA-Campinas pela FAO, somado ao status OMSA, fortalece o desenvolvimento regional em diagnóstico e resposta.” — Carlos Goulart, MAPA (entrevista à aviNews Brasil)

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