Vários desses 24 países já possuem histórico de focos de IA, alguns com ocorrências desde 2006, sendo que o Egito já reportou 1.086 focos da enfermidade. Trata-se de um histórico que já provocou, somente nesse âmbito de países que apresentaram a doença em 2018, a perda de mais de 13,89 milhões.
O enfrentamento às doenças respiratórias virais na avicultura
Especialista da Universidade Nacional da Colômbia defende o estabelecimento de redes de trabalho inter e transdiciplinares, nas quais se realizem ações em nível internacional
As doenças respiratórias virais representam um dos maiores problemas na indústria avícola mundial pelo seu alto impacto econômico. Dependendo do agente, como nos casos dos vírus da Influenza Aviária ou Doença de Newcastle de alta patogenicidade, tanto as taxas de morbidade, como de mortalidade, podem chegar a 100%.
Entre janeiro de 2014 e novembro de 2016, 13 cepas do vírus da Influenza Aviária foram identificadas em 77 países. Somente em 2018, segundo o Sistema Mundial de Informação Zoossanitária da OIE (Whais), 24 países já relataram a presença do vírus da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP).
Porém, os prejuízos provocados pelas doenças virais não param por aí. Infecções por agentes virais impactam as condições fisiológicas das aves e provocam alterações nos parâmetros produtivos. Da mesma forma, uma infecção viral pode interferir nos mecanismos de resposta imunológica, favorecendo infecções bacterianas secundárias, ou interferindo na resposta vacinal frente ao mesmo ou outros patógenos de importância na avicultura.
A aviNews Brasil conversou com a médica veterinária Dra Gloria Consuelo Ramirez Nieto, que é coordenadora do Laboratório de Virologia da Universidade Nacional da Colômbia (Unal). Ela esteve no Brasil no último mês de março, quando participou do XVI Congresso de Ovos promovido pela Associação Paulista de Avicultura (APA).
Segundo ela, de maneira geral, os agentes infecciosos não se encontram sozinhos e, em algumas ocasiões, é difícil estabelecer a causa primária da enfermidade. Entre os agentes que podem se associar ao complexo respiratório das aves, ela destaca, além dos vírus da Doença de Newcastle e Influenza Aviária, os da Laringotraqueíte, Bronquite Infecciosa aviária, Metapneumovírus e alguns adenovírus.
A Dra Gloria destaca que, além dos impactos econômicos, a preocupação do setor também deve estar voltada para o efeito sobre a saúde e o bem-estar dos animais, assim como sobre o potencial que tem um vírus, como o da IA, em afetar a saúde humana.
“Este é um desafio mundial e um exemplo de uma doença que deve ser entendida e manejada sob o conceito One Health”, explica.
A principal recomendação da especialista é a prevenção, aliada a rigorosos planos de biosseguridade, com uma população de animais saudáveis, sob condições de produção que garantam seu bem-estar.
“Isso deve estar acompanhado do conhecimento real da situação, a partir do monitoramento permanente, para se estabelecer quais agentes estão presentes na produção, na região ou país de interesse”, alerta.
“Trabalhamos com seres vivos e, por isso, devemos conhecer e entender suas condições fisiológicas, imunológicas e genéticas”, salienta a especialista. “Isso, num contexto em que fatores como sistema de produção intensiva, aumento da demanda por proteína de origem animal e desafios do mercado, além de mudanças climáticas em um mundo globalizado, nos fazem confrontar com novos desafios diários nesse entendimento”, adenda.
Sobre o manejo e prevenção de agentes infecciosos, particularmente, os vírus que ocasionam as doenças respiratórias, a Dra Gloria salienta que possuem uma dinâmica de mudanças evolutivas, particularidades, variedade de hospedeiros suscetíveis e existência de reservatorios.
“São aspectos que devem ser estabelecidos para cada um deles, de tal forma que se possa entender sua origem, manutenção e possíveis mecanismos e/ou formas de controle e/ou eliminação”, explica. “Em outras palavras, devemos conhecer o inimigo para poder vencê-lo”, acrescenta.
Por fim, a especialista da Universidade Nacional da Colômbia acrescenta que é necessário estabelecer redes, ou mecanismos de trabalho inter e transdiciplinares, nos quais se realizem ações não só em nível local, como internacional.
“Desta forma poderíamos otimizar a utilização de recursos, trocando informação, conhecimento e focando os agentes virais sob uma perspectiva global, para igualmente buscar soluções em nível local, regional, nacional e, finalmente, com impacto mundial”, conclui.