PROCESSAMENTO DA SOJA PARA OBTENÇÃO DE SEUS DERIVADOS E SUA CORRETA AVALIAÇÃO
Nutrição Animal
Para ler mais conteúdo de avinews Brasil 3 TRI 2025
PROCESSAMENTO DA SOJA PARA OBTENÇÃO DE SEUS DERIVADOS E SUA CORRETA AVALIAÇÃO
A soja em grão é uma das principais matérias-primas da alimentação animal, amplamente utilizada por sua composição nutricional altamente favorável.
Rica em óleo (cerca de 20%) e proteína (em torno de 40%), ela oferece um perfil de aminoácidos equilibrado, alta digestibilidade e boa disponibilidade de mercado, especialmente em países como Brasil, Estados Unidos e Argentina, que juntos concentram a maior parte da produção mundial.

Apesar de suas vantagens nutricionais, a soja não pode ser utilizada crua na alimentação animal devido à presença de fatores antinutricionais. Entre os principais estão:
Esses fatores comprometem a digestão e absorção de nutrientes, afetam a integridade da mucosa intestinal, reduzem o aproveitamento proteico e prejudicam o desempenho zootécnico.
Os inibidores de tripsina e lectinas são particularmente relevantes. Os inibidores interferem na ação das enzimas pancreáticas, provocando redução da digestão proteica e aumento da secreção pancreática, o que pode causar hipertrofia do órgão e queda de desempenho.
Já as lectinas se ligam a estruturas da mucosa intestinal, danificando microvilosidades e dificultando a absorção de nutrientes.

Esses compostos se dividem entre termolábeis, que podem ser inativados com tratamento térmico (como os inibidores de tripsina, lectinas e goitrogênios), e termoestáveis, como o fitato e oligossacarídeos, que resistem ao calor e requerem estratégias adicionais, como a adição de enzimas exógenas (proteases, fitases, etc.) nas dietas.
Dessa forma, o processamento da soja é essencial para torná-la segura e eficaz como ingrediente alimentar. Entre os principais métodos estão:
O objetivo é inativar os fatores antinutricionais, aumentar a disponibilidade de nutrientes e melhorar a palatabilidade dos subprodutos resultantes, como o farelo de soja, óleo, soja semi-integral e soja desativada.

O farelo de soja, principal subproduto da indústria processadora, é a principal fonte de proteína na alimentação de aves e suínos. Existem dois métodos principais de extração do óleo da soja:
A extração por solvente é a mais comum e eficiente. Nela, o grão passa pelas etapas de limpeza, quebra, remoção da casca, laminação, expansão, extração com hexano e tostagem.
A casca pode ou não ser reincorporada ao farelo, resultando em dois tipos de produto final: o farelo com casca (42 a 46% de proteína bruta) e o farelo sem casca ou Hi-pro (até 48%).
Durante o processo, a fração líquida extraída, chamada de miscela, contém óleo e solvente. Após separação e recuperação do hexano, obtém-se o óleo bruto, que pode passar por refino, degomagem, branqueamento e desodorização.

Também são gerados subprodutos como lecitina, borra ácida e óleo neutro. Outros derivados incluem a proteína texturizada de soja e o concentrado proteico de soja, com alto teor proteico e reduzido teor de fibras e antinutrientes.
Contudo, o sucesso do processamento depende do equilíbrio entre tempo, temperatura e umidade. O subprocessamento não inativa completamente os antinutrientes, enquanto o superaquecimento pode reduzir a qualidade proteica.
Isso ocorre por reações como a de Maillard, que reduzem a biodisponibilidade da lisina ao uni-la a açúcares, formando compostos não digestíveis. Essa reação, além de reduzir o valor nutricional, altera a coloração e pode comprometer a palatabilidade.
Animais alimentados com soja superprocessada apresentam redução de desempenho, com menor ingestão de aminoácidos digestíveis como lisina, metionina e treonina.

Além disso, compostos formados durante o superaquecimento podem afetar negativamente a mucosa intestinal, prejudicando a função de barreira e aumentando o risco de inflamações.
Dada essa complexidade, é essencial monitorar a qualidade do processamento por meio de análises específicas:
Historicamente, o IAU era utilizado como substituto indireto da medição dos inibidores de tripsina, mas estudos recentes mostram que não há correlação consistente entre eles.
A variabilidade entre cultivares, plantas de processamento e metodologias laboratoriais limita a confiabilidade do uso isolado do IAU como indicador da qualidade do farelo.

Gráfico adaptado de Chen et al. (2020)
Além disso, avaliações visuais e físico-químicas também são recomendadas no recebimento da matéria-prima, como verificação de cor, odor, ausência de insetos, umidade, e presença de materiais estranhos. A análise dos teores de proteína bruta, fibra bruta e umidade também são fundamentais para ajustar corretamente as formulações.
Embora o farelo de soja tenha composição relativamente estável, podem ocorrer variações nutricionais entre amostras, influenciadas por fatores como cultivar, método de cultivo, armazenamento e processamento. Por isso, a padronização do processamento e o controle rigoroso da qualidade são indispensáveis para garantir a digestibilidade, eficiência nutricional e desempenho zootécnico. A soja processada adequadamente contribui para uma nutrição mais eficiente, rentável e sustentável.

Considerando que o farelo de soja pode representar até 35% da dieta de aves, pequenas variações em sua qualidade impactam diretamente os resultados produtivos e econômicos. Monitorar parâmetros como atividade ureática, inibidores de tripsina, solubilidade proteica e lisina reativa é fundamental para assegurar a qualidade do insumo e o sucesso da produção animal.
Saiba mais sobre o assunto: https://agroceresmultimix.com.br/blog/processamento-da-soja-para-obtencao-de-seus-derivados-e-sua-correta-avaliacao/