Saúde digestiva é mais do que controlar mortalidade
Enterite subclínica, disbiose e desafios por Clostridium perfringens nem sempre chegam ao campo com mortalidade alta, sinal clínico evidente ou diagnóstico simples. Muitas vezes, a perda aparece como pior conversão alimentar, menor ganho de peso, desuniformidade, queda de previsibilidade e desempenho abaixo do potencial. Essa foi uma das principais mensagens do bloco de saúde intestinal do Phibro Master Science 2026 (PMS 2026), realizado em Itá, Santa Catarina, em uma programação dedicada aos desafios por Clostridium perfringens, enterite necrótica, disbiose, diagnóstico e ferramentas nutricionais.
A agenda técnica do PMS 2026 reuniu Luis Gomez, Diretor Global de Serviços Técnicos para Avicultura da Phibro; Alberto Back, Diretor do Mercolab Laboratórios; Patricia Rocha, Gerente de Produto & Serviços Técnicos MFA SAR da Phibro; Sandra Bonaspetti, consultora da SGB Consultoria; Rosangela Rodrigues, Sócia Diretora e Responsável Técnica da Imunova Análises Biológicas; e Bruna Martins, Gerente de Produto & Serviços Técnicos NSP SAR da Phibro. O eixo comum das apresentações foi a necessidade de tratar saúde intestinal como parte de uma estratégia produtiva mais ampla, e não como uma resposta pontual a surtos ou perdas já instaladas.
Saúde digestiva é mais do que controlar mortalidade
Luis Gomez abriu a discussão lembrando que o objetivo produtivo da avicultura depende da capacidade da ave de transformar alimento em proteína de forma eficiente. Segundo ele, essa eficiência passa por uma boa saúde digestiva, entendida como um equilíbrio entre microbioma, integridade da barreira intestinal, absorção de nutrientes e resposta imune. O especialista destacou que a ave moderna é fisiologicamente diferente daquela de décadas anteriores, com alto potencial de deposição muscular e maior exigência sobre o trato gastrointestinal.

Luis Gomez, Diretor Global de Serviços Técnicos para Avicultura da Phibro
Na avaliação apresentada por Gomez, o intestino precisa ser visto como uma das áreas mais expostas do organismo da ave, em contato permanente com vírus, bactérias, protozoários, fungos, toxinas e fatores nutricionais. Por isso, alterações na barreira intestinal podem gerar uma sequência de eventos que vai da inflamação à piora de absorção, perda de desempenho e, nos casos mais graves, mortalidade.
Ao tratar de enterite necrótica, Gomez ressaltou que Clostridium perfringens é um agente importante, mas não atua sozinho. Segundo ele, a expressão do problema depende da combinação de fatores predisponentes, entre eles coccidiose, manejo de cama, densidade, ambiente, qualidade de ingredientes, fatores antinutricionais, micotoxinas e pressão microbiológica. Essa leitura reforça que o desafio é multifatorial e exige programas integrados, com monitoramento contínuo e padronização da forma de medir lesões.
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A perda que não faz barulho Na saúde intestinal, o problema mais caro nem sempre é o que mata mais aves. Muitas vezes, é o que reduz ganho de peso, piora conversão alimentar, amplia desuniformidade e tira previsibilidade do lote antes de virar um quadro clínico evidente. |
Clostridium precisa ser interpretado dentro do contexto
Alberto Back levou a discussão para o diagnóstico e para a rotina de campo. O especialista explicou que o gênero Clostridium está presente no ambiente, no solo, na cama e no trato intestinal das aves. Por isso, segundo ele, a presença do agente, isoladamente, não define a gravidade de um problema sanitário.

Alberto Back, Diretor do Mercolab Laboratórios
Back chamou atenção para a interpretação de análises como a identificação de clostrídios sulfito-redutores. De acordo com o especialista, esse tipo de resultado indica bactérias viáveis do gênero Clostridium, mas não necessariamente especifica o papel de C. perfringens em determinado quadro. Para que a informação tenha valor prático, é preciso conectá-la a lesões, histórico do lote, desempenho, mortalidade, cama, manejo, vacinação, nutrição e condição sanitária da unidade.
A mensagem técnica foi direta: diagnóstico sem interpretação pode induzir decisões equivocadas. Em um sistema de alta produtividade, a leitura laboratorial precisa ser parte de uma investigação de campo, e não um dado isolado usado para justificar medidas desconectadas do problema real.
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Por que o Clostridium não deve ser lido sozinho A simples detecção do agente não basta para explicar perda produtiva. O valor do diagnóstico aumenta quando ele é relacionado a lesões, desempenho, mortalidade, qualidade de cama, pressão de coccidiose, histórico do lote, manejo e programa nutricional. |
Eubióticos, dieta e microbiota: a resposta depende do objetivo
Sandra Bonaspetti, consultora da SGB Consultoria, abordou os eubióticos como ferramentas relevantes em estratégias de saúde intestinal, especialmente em cenários de uso prudente de antimicrobianos. Durante a discussão, ela destacou que a resposta dos eubióticos pode variar conforme a dieta, o tipo de aditivo e o objetivo produtivo. Segundo Sandra, diferentes classes de eubióticos têm mecanismos distintos, e a composição da dieta pode favorecer ou limitar a resposta esperada.

Sandra Bonaspetti, consultora da SGB Consultoria
Rosangela Rodrigues, Sócia Diretora e Responsável Técnica da Imunova Análises Biológicas, aprofundou a importância das análises personalizadas. Para ela, não existe um perfil único e universal de microbiota ideal, porque os resultados variam conforme região, práticas de manejo, condições de ambiente, histórico sanitário e características de cada empresa ou unidade produtiva.
Segundo Rosangela, a pergunta central antes de qualquer análise deve ser o que se quer responder. A partir desse objetivo, marcadores como permeabilidade intestinal, integridade de barreira, composição de microbiota e outros indicadores podem ser usados para acompanhar respostas ao longo do tempo e apoiar decisões mais precisas.

Rosangela Rodrigues, Sócia Diretora e Responsável Técnica da Imunova Análises Biológicas
Ephicax entra na conversa como ferramenta para desafios entéricos
Um dos momentos centrais do bloco foi a apresentação de Ephicax, conduzida por Bruna Martins, Gerente de Produto & Serviços Técnicos NSP SAR da Phibro. A solução foi apresentada como uma tecnologia de monoglicerídeos de ácidos graxos desenvolvida para auxiliar a defesa das aves contra desafios entéricos.
Bruna explicou que a posição dos ácidos graxos na molécula é determinante para a eficiência da ação antimicrobiana. Segundo a apresentação, os ácidos graxos presentes em Ephicax estão alocados na posição 1-alfa, configuração associada à estabilidade e à resistência à hidrólise enzimática. Com isso, a proposta é manter a funcionalidade ao longo do trato gastrointestinal, sem depender da dissociação por pH.

Bruna Martins, Gerente de Produto & Serviços Técnicos NSP SAR da Phibro.
A palestrante também apresentou mecanismos de ação sobre bactérias gram-positivas e gram-negativas. No caso das gram-positivas, os monoglicerídeos podem interagir com estruturas da parede bacteriana e danificar o citoplasma. No caso das gram-negativas, foram discutidos mecanismos relacionados à entrada por canais de glicerol, ao bloqueio desses canais e à interferência em processos celulares importantes.
Nos estudos apresentados pela Phibro, Ephicax foi avaliado em modelos de desafio em frangos de corte, com cama contaminada e aves vacinadas em incubatório para coccidiose. Bruna relatou melhora de desempenho zootécnico, redução de mortalidade, queda nos escores de lesão intestinal e redução na contagem de patógenos como Clostridium perfringens, Salmonella e E. coli. Em um dos cenários apresentados, o tratamento com Ephicax resultou em redução de 71% na mortalidade em relação ao controle desafiado. Em outro, a redução chegou a 90%, segundo os dados apresentados pela empresa.
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O que a Phibro apresentou com Ephicax Ephicax foi apresentado como uma tecnologia de monoglicerídeos com estabilidade ao longo do trato gastrointestinal, ação independente de pH e compatibilidade com estratégias nutricionais voltadas à saúde intestinal. Segundo Bruna Martins, os estudos apresentados indicaram melhora de desempenho, redução de mortalidade, menor escore de lesão intestinal e redução na contagem de patógenos em modelos de desafio entérico. |
A decisão técnica começa antes da perda evidente
Ao reunir diagnóstico, eubióticos, microbiota e monoglicerídeos em uma mesma discussão, o PMS 2026 reforçou que saúde intestinal precisa ser tratada como um sistema de prevenção e controle de risco. O ponto não é apenas reagir a enterite necrótica instalada, mas entender onde a perda começa, como ela se manifesta e quais ferramentas podem ajudar a reduzir seu impacto produtivo.
Para técnicos e gestores, a mensagem que fica é que a perda entérica subclínica exige mais do que uma solução isolada. Ela pede leitura de campo, padronização de monitoramento, interpretação correta de diagnóstico, nutrição ajustada, manejo de cama, controle de coccidiose e ferramentas capazes de sustentar a integridade intestinal em sistemas cada vez mais exigentes.
Leia também: como incubatório, vacinação e qualidade do pintinho podem influenciar condenações no abatedouro.
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