O futuro da nutrição de aves será decidido também fora da fábrica de ração. Essa foi uma das principais mensagens da apresentação de Everton Luis Krabbe, pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, durante o painel “Impacto da pesquisa brasileira na produção animal”, realizado na 36ª Reunião Anual do CBNA.
A agriNews Brasil acompanhou o evento como media partner. Em sua palestra sobre perspectivas para pesquisas em nutrição de aves, Krabbe mostrou que a competitividade da avicultura brasileira dependerá cada vez mais da capacidade de integrar formulação, lavoura, genética, custo alimentar, biocombustíveis, novas matérias-primas, saúde intestinal, qualidade da água e tecnologias de precisão.
Krabbe lembrou que o custo alimentar representa parcela decisiva do custo de produção do frango. Em recorte apresentado para o Paraná, com base em dados monitorados pela Embrapa, esse custo foi indicado como 63,4% da composição do custo de produção. O dado reforça por que a pesquisa em nutrição segue no centro da competitividade: mexer em ingredientes, energia, digestibilidade e eficiência significa atuar sobre um dos principais componentes econômicos da cadeia.
Genética mais eficiente, menor margem para erro
A palestra também conectou nutrição e genética. Krabbe destacou o avanço do frango de corte moderno e citou projeções atribuídas à seleção genética, como frangos de 2 kg aos 26 dias, conversão alimentar de 1,27, rendimento de carcaça de 76% e rendimento de peito de 29% até 2030. A mensagem é que animais mais rápidos e eficientes deixam menor margem para erro nutricional.
Com maior velocidade de crescimento e capacidade de ingestão limitada, a pesquisa precisa entender com mais precisão os requerimentos nutricionais. Nesse cenário, digestibilidade, energia líquida, qualidade de pellet, granulometria, biodisponibilidade de minerais e uso correto de aditivos passam a ter peso ainda maior.
Krabbe também retomou a importância das Tabelas Brasileiras e da pesquisa nacional para sustentar esse avanço. O futuro da nutrição avícola, na visão apresentada, dependerá de referências atualizadas e de ferramentas capazes de lidar com ingredientes mais variáveis e animais mais exigentes.
Um dos blocos mais fortes da palestra foi a discussão sobre biocombustíveis. Krabbe afirmou que pensar a nutrição dos próximos anos sem considerar as políticas de biodiesel e etanol é impossível. O avanço dessas políticas altera a demanda por óleo, grãos, farelos e coprodutos, podendo redesenhar a oferta de proteína e energia nas dietas.
O pesquisador apresentou o raciocínio de que incrementos no biodiesel exigem maior processamento de soja, gerando mais óleo e farelo. Isso pode ampliar a disponibilidade de determinados farelos e, ao mesmo tempo, tornar a energia mais estratégica na formulação. A provocação é que a lógica tradicional segundo a qual soja é proteína e milho é energia pode se tornar menos simples em um cenário de forte transformação dos mercados de grãos e biocombustíveis.
Essa discussão abre espaço para ingredientes alternativos e regionais. O sorgo foi apresentado como uma possibilidade em regiões como Centro-Oeste e Minas Gerais, especialmente diante de custo, risco climático e disponibilidade. Cereais de inverno também foram citados como oportunidade, considerando áreas ociosas no período de inverno e a necessidade de aproximar produção de grãos da produção de proteína animal.
Além de ingredientes e energia, Krabbe chamou atenção para problemas que continuam pressionando a nutrição de aves. Micotoxinas foram descritas como um desafio persistente, com impactos sobre imunossupressão, lesões, trato gastrointestinal e parâmetros do sistema nervoso central. Fatores antinutricionais, especialmente em soja e farelo de soja, também foram mencionados como tema que exige monitoramento e pesquisa.
A qualidade da água apareceu como ponto nutricional. Segundo o pesquisador, não é possível discutir nutrição sem considerar água. A preocupação atual, em muitos casos, seria mais química do que microbiológica, especialmente em águas de poços profundos com excesso de minerais. A padronização da água, inclusive com possibilidade de uso de água da chuva em determinados contextos, foi apresentada como tema de pesquisa e manejo.
No campo da saúde intestinal, Krabbe citou probióticos, prebióticos, enzimas, ácidos orgânicos, fitoterápicos, sinergias, termoestabilidade, recuperação e recobrimentos como frentes ligadas à substituição ou redução de antimicrobianos. A imunomodulação e a imunonutrição também foram apontadas como tendências em um ambiente de maior pressão sanitária e regulatória.
A palestra terminou olhando para tecnologias como inteligência artificial, biomarcadores, ciências ômicas e ferramentas NIR em diferentes pontos da cadeia, da recepção da matéria-prima à linha de produção. Krabbe, no entanto, fez uma ressalva importante: tecnologia precisa ter aplicação real e mercado. Nem tudo que surge como inovação se transforma em solução útil para a indústria.
Essa cautela é relevante para a nutrição de aves. A próxima fronteira não será apenas adotar ferramentas digitais, mas integrar dados de ingredientes, fábrica, granja, saúde intestinal, desempenho e custo para tomar decisões mais precisas. O futuro da nutrição avícola será tecnológico, mas também será agronômico, econômico e sanitário.
Ao mostrar que a ração começa antes da fábrica, Krabbe reposicionou a pesquisa em nutrição de aves dentro de uma cadeia mais ampla. A formulação continuará sendo decisiva, mas será cada vez mais influenciada por lavoura, logística, biocombustíveis, energia, qualidade de ingredientes, micotoxinas, água e dados. Para a avicultura brasileira, manter competitividade exigirá olhar para tudo isso ao mesmo tempo.
Nutrição animal entra em nova fase: pesquisa brasileira amplia o debate da formulação à precisão — nutriNews Brasil
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