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29 set 2025

Coccidiose – da vacinação à nutrição

Diante da relevância da coccidiose na avicultura, é essencial manter atenção aos programas anticoccidianos comumente utilizados, bem como adotar estratégias complementares que contribuam para minimizar perdas e melhorar a produtividade.

Coccidiose é uma doença epidêmica causada pelo protozoário intracelular Eimeria spp. que compromete o trato gastrointestinal das aves, resultando em redução na absorção de nutrientes, aumento da mortalidade e perdas anuais de até US$ 14,5 bilhões (Blake e Tomley, 2014; Blake et al., 2020). No Brasil, é uma doença que requer notificação mensal de qualquer caso confirmado, conforme descrito na Instrução Normativa nº 50 de 24 de setembro de 2013 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA, 2013).

Embora a estratégia convencional para o controle da coccidiose na produção avícola envolva o uso de anticoccidianos, de coccidiostáticos e de vacinas, estratégias alternativas estão sendo mais utilizadas atualmente devido à proibição do uso de antibióticos em alguns países (Lillehoj et al., 2005).

Assim, uso de anticorpos hiperimunes da gema do ovo, probióticos, prebióticos, peptídeos, ácidos orgânicos e compostos fitogênicos têm se tornado uma realidade na produção avícola. Este texto tem como objetivo trazer informações sobre a coccidiose em aves, suas características, prevalência e as ferramentas disponíveis para seu controle.

A coccidiose é causada por espécies patogênicas de Eimerias, sendo conhecidas oito principais espécies distintas:

Cada uma delas infecta uma região do intestino, com diferentes características específicas e lesões macroscópicas, conforme apresentado na Tabela 1.

Tabela 1 - Características de diagnóstico Eimeria spp. em frangos, adaptado de Long and Reid (2010).
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Tabela 1 – Características de diagnóstico Eimeria spp. em frangos, adaptado de Long and Reid (2010).

A coccidiose impacta os resultados econômicos da produção de aves devido, principalmente, à utilização ineficiente da ração, à redução da taxa de crescimento, à mortalidade e à queda temporária na produção de ovos. Além disso, existe um risco elevado de ocorrência de formas clínicas e subclínicas da doença e diferentes observações de acordo com a idade dos frangos (Figuras 1 e 2). A infecção por E. maxima é considerada o principal fator de risco para a enterite necrótica, uma vez que a coccidiose compromete a integridade intestinal e favorece a proliferação de Clostridium perfringens (Jang et al., 2013; Lee et al., 2018).

Figura 1 – Lesões macroscópicas em intestino de frangos de corte causadas por Eimeria spp.

Figura 1 – Lesões macroscópicas em intestino de frangos de corte causadas por Eimeria spp.

Coccidiose

Figura 2 – Incidência de lesões macroscópicas causadas por Eimeria spp. e quantificação microscópica de oocistos de E. maxima em frangos de corte, durante o período de criação (14 a 42 dias), em empresas comerciais de frangos de corte localizadas no Brasil (n = 4.879) (Gazoni et al., 2025).

Abaixo, está apresentada a infectividade de um oocisto esporulado, que resulta na produção de 2.000 merozoítos. Esses, após sua liberação, invadem novas células intestinais, continuando o ciclo de infecção no trato intestinal.

Coccidiose

A coccidiose também possui grande relevância na produção avícola, devido à sua resistência às mudanças climáticas, e principalmente à capacidade dos parasitas do gênero Eimeria de manterem sua infectividade por longos períodos no ambiente. Além, produtos anticoccidianos, que são os mais reconhecidos e utilizados por mais de 70 anos, atualmente já se estuda o impacto de outros compostos como potenciais agentes que contribuem para a redução dos efeitos negativos da coccidiose em aves.

Coccidiose
  1. Químicos e ionóforos

Os anticoccidianos sintéticos (químicos) são produzidos através de síntese química e interagem com Eimeria spp. ao alterar seu metabolismo durante as fases do ciclo de vida, com modo de ação específicos (Spinosa, 2014):

  1. Inibição da respiração e metabolismo mitocondrial, impede a produção de ATP (esquizonte de 1ª e 2ª geração) – Dinitolmida, Decoquinato, Clopidol, Metilclorpidol;
  2. Inibição da via do ácido fólico e do ácido paraminobenzoico (esquizontes de 2ª geração) – Sulfonamidas;
  3. Inibição competitiva da absorção de tiamina (esquizonte de 1ª e 2ª geração) – Amprolio;
  4. Atuação nos canais de sódio sensíveis à diferença de potencial para estabilizar as membranas neuronais e inibir a liberação dos aminoácidos excitatórios, o glutamato e o aspartato (zigoto, esquizonte e gametócito) – Diclazuril;
  5. Bloqueio da produção de ATP (esquizogônia) – Halofuginona;
  6. Inibição no metabolismo mitocondrial (esquizontes de 2ª geração) – Nicarbazina;
  7. Inibição da fosforilação oxidativa (esquizonte de 1ª e 2ª geração) – Robenidina;
  8. Inibição da cadeia respiratória e de enzimas mitocondriais (esquizontes, macro e microgametócito) – Toltrazuril.
Coccidiose

Já os antimicrobianos poliéteres ionóforos (ionóforos), produzidos pela fermentação de fungos, alteram o equilíbrio osmótico do parasita ao afetar a permeabilidade da membrana celular. Eles são classificados em três categorias principais:

  1. Ionóforos monovalentes (Monensina, Narasina, Salinomicina). A Salinomicina e a Narasina têm preferência por íons monovalentes K+ e apresentam uma menor afinidade pelo Na+. A Monensina catalisa as trocas de Na+ por H+, pois sua afinidade pelo sódio é dez vezes maior que aquela pelo K+;
  2. Ionóforos glicósidos monovalentes (Maduramicina, Semduramicina) atuam extracelularmente, transcolando íons monovalentes (Na+, K+, H+, Rb+, Li+ e Cs+);
  3. Ionóforo divalente (Lasalocida) tem afinidade semelhante pelos íons Na+ e Ca+2, e maior pelo K+.

Os anticoccidianos sintéticos e ionóforos têm sido amplamente utilizados desde a década de 50. No entanto, devido a crescente preocupação com a resistência às moléculas existentes, a criação de medicamentos combinados foi implementada para aumentar a eficácia do controle de coccidiose (Chapman & Rathinam, 2022). Diante do conhecimento desses elementos, é de suma importância observar também quando é necessário realizar a troca de um programa de ionóforo e se está ocorrendo a rotação entre os programas utilizados. A Figura 3, apresenta a evolução dos anticoccidianos e medicamentos combinados, adaptado de Noack et al. (2019).

Coccidiose

Figura 3. Evolução dos produtos anticoccidianos e medicamentos, adaptado de Noack et al. (2019).

 

  1. Vacinas vivas e atenuadas, recombinantes e moleculares

Os avanços em biologia molecular, bioquímica e tecnologia de engenharia genética revolucionaram a pesquisa e o desenvolvimento de vacinas. A atenção está voltada para o desenvolvimento de uma vacina segura e eficiente, com baixo risco de efeitos colaterais (Lee et al., 2022). Vacinas de parasitas vivos e atenuados são altamente eficazes no controle da coccidiose de campo. No entanto, o alto custo de produção e a disponibilidade limitada dessas vacinas, além do surgimento de cepas de Eimeria resistentes a medicamentos, têm gerado crescente interesse na avaliação de vacinas recombinantes como estratégia alternativa (Pastor-Fernández et al., 2020).

Numerosos antígenos de Eimeria foram identificados como candidatos eficazes para vacinas anticoccidianas, mas ainda não há vacinas recombinantes disponíveis comercialmente (Blake et al., 2017). Em comparação com vacinas de parasitas vivos e atenuados, os antígenos recombinantes são mais seguros e imunogênicos. No entanto, as variações entre cepas de Eimeria e o alto custo de produção de múltiplas cepas limitam sua aplicação. Portanto, novas estratégias para melhorar a eficácia das vacinas recombinantes são necessárias para garantir seu sucesso no campo, especialmente no contexto da coccidiose (Ding et al., 2004).

Nas vacinas moleculares, o princípio é usar DNA com um vetor plasmídeo para transferir genes, permitindo que o DNA entre na célula e expresse o antígeno correspondente (Lillehoj et al., 2000). Zhang et al. (2019) investigaram várias estratégias de otimização usando imunização de DNA contra coccidiose. Os autores utilizaram o vetor recombinante pVAX1-pEtK2-IL-2, construído pela clonagem do gene do antígeno pEtK2 de E. tenella e do gene IL-2 de galinha em pVAX1, que demonstrou proporcionar níveis significativos de proteção contra a infecção por E. tenella.

  1. Anticorpos hiperimunes da gema do ovo

A imunização passiva utilizando anticorpos da gema de ovo (IgY) específicos para patógenos tem despertado crescente interesse para avicultura (Kovacs-Nolan et al., 2012; Hussein et al., 2020). Como a IgY materna é concentrada no saco vitelino durante o desenvolvimento embrionário, esses anticorpos podem ser obtidos por um método relativamente não invasivo, permitindo produção em larga escala e oferecendo uma alternativa prática para a obtenção de anticorpos (Gadde et al., 2015).

Em estudos conduzidos por Lee et al. (2009), resultados foram obtidos com IgY hiperimune produzida a partir de galinhas imunizadas com E. acervulina, E. maxima e E. tenella. Em outro estudo, Xu et al. (2013) utilizaram IgY hiperimune obtida de galinhas imunizadas com E. acervulina, E. maxima, E. tenella, E. necatrix e E. praecox e observaram efeito protetor em aves desafiadas com E. tenella.

  1. Probióticos

Probióticos são aditivos alimentares constituídos por microrganismos vivos que exercem efeitos benéficos no animal hospedeiro, melhorando o equilíbrio da microbiota intestinal. Dalloul et al. (2003; 2005) realizaram estudos que demonstraram os efeitos positivos de probióticos à base de Lactobacillus na estimulação da imunidade local contra a coccidiose. Comumente, os probióticos estão associados à modulação da microbiota intestinal, favorecendo a eubiose e reduzindo o impacto de microrganismos patogênicos no intestino das aves.

  1. Prebióticos

Os prebióticos são oligossacarídeos não digeríveis que atuam como moduladores da microbiota intestinal, promovendo o crescimento e a atividade de microrganismos benéficos no intestino (Slawinska et al., 2019). Entre os prebióticos comumente utilizados em aves estão:

Estudos relataram efeitos inibitórios dos prebióticos sobre a infecção por Eimeria em aves (Bozkurt et al., 2014; Angwech et al., 2019). Assim, tem se observado que o uso de prebióticos tem emergido como uma abordagem promissora para o controle da coccidiose.

  1. Ácidos orgânicos e Compostos fitogênicos

Glicerídeos de ácido butírico (lactobutirina) e clopidol demonstraram efeitos anticoccidianos potenciais em frangos infectados por E. maxima, estes evidenciados pela menor eliminação de oocistos e pela mitigação das lesões intestinais (Ali et al., 2014).

Além disso, verificou-se que infecções por E. acervulina e E. maxima reduzem os níveis de transcrição de enzimas digestivas e de transportadores de nutrientes (Su et al., 2014; Leung et al., 2019). Nouri (2022) relatou que o uso de ácidos orgânicos encapsulados é benéfico e aplicável, especialmente em dietas contendo anticoccidianos, pois promove melhoria na eficiência produtiva e redução da excreção de oocistos por grama de excreta em frangos de corte infectados com Eimeria spp.

De forma semelhante, Bafundo et al. (2021) demonstraram os efeitos da combinação de Quillaja saponaria e Yucca schidigera (QY) em dietas para frangos de corte desafiados com oocistos esporulados de E. acervulina e E. maxima. Os resultados indicaram que, ao reduzir o impacto do desafio entérico, o produto de QY proporcionou melhorias no desempenho e afetou positivamente os parâmetros de carcaça, uma vez que cada variável respondeu linearmente à inclusão de QY na dieta.

O frango e os ovos estão entre as fontes de proteína mais acessíveis e sua demanda tem aumentado constantemente em todo o mundo. O uso de combinações otimizadas de diferentes alternativas para o controle da coccidiose, aliado a boas práticas de manejo, ambiência, produção e biosseguridade, é fundamental para reduzir os problemas decorrentes dessa enfermidade.

Diante da relevância do tema e do impacto produtivo e econômico da coccidiose na avicultura, é essencial manter atenção aos programas anticoccidianos comumente utilizados, bem como adotar estratégias complementares que contribuam para minimizar perdas e melhorar a produtividade.

* Referências Bibliográficas: consulte os autores.

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