Por redação aviNews Brasil.
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A crescente valorização da farinha de vísceras de frango no mercado de pet food evidencia uma transformação que também alcança a nutrição de animais de produção. Antes vistos apenas como subprodutos, ingredientes oriundos do processamento animal vêm sendo reconhecidos pelo elevado valor nutricional e pelo potencial de contribuir para sistemas produtivos mais sustentáveis.
A farinha de vísceras de frango tem conquistado espaço nas formulações de alimentos para cães e gatos devido à alta concentração de proteínas, aminoácidos essenciais e energia, além de representar uma importante estratégia de economia circular ao promover o aproveitamento integral das matérias-primas da cadeia de proteínas animais.
Embora o destaque esteja voltado ao segmento pet, essa valorização reflete um movimento mais amplo da indústria de nutrição animal, impulsionado pela busca por maior eficiência produtiva, diversificação de ingredientes e redução dos impactos ambientais.

Imagem: Deposit Photos.
Segundo Ingrid Caroline da Silva, zootecnista, mestre e doutora em Produção Animal com ênfase em Nutrição de Cães e Gatos, professora, pesquisadora e fundadora da NutriPet Insights, a valorização dos coprodutos está diretamente relacionada às novas demandas da produção animal.
“A valorização dos coprodutos está relacionada à necessidade de produzir alimentos de forma mais sustentável e economicamente viável. A crescente demanda por ingredientes tradicionais, como milho e farelo de soja, aliada à maior volatilidade dos preços, impulsiona a busca por alternativas que mantenham o desempenho dos animais.”
Ela explica que ingredientes como a farinha de vísceras de frango apresentam elevado valor nutricional quando produzidos sob rigoroso controle de qualidade, enquanto o HPDDG também se destaca pelo alto teor de proteína, fibra e fósforo, podendo substituir parcialmente ingredientes convencionais em diversas formulações. Além dos benefícios nutricionais e econômicos, Ingrid ressalta o papel desses ingredientes na promoção da sustentabilidade.
“A utilização desses coprodutos contribui para a economia circular, reduz desperdícios e agrega valor a matérias-primas provenientes de outras cadeias produtivas. Isso diminui o impacto ambiental e favorece sistemas de produção mais eficientes e sustentáveis.”
De subproduto para uma potência nutricional
Essa valorização também é percebida na indústria de processamento. Para Jeferson Vidor, zootecnista, sócio da Bom Frango Ltda e diretor Agropecuário, a farinha de vísceras deixou há muito tempo de ser considerada um simples subproduto e passou a ocupar posição estratégica nas formulações de rações.
“A farinha de vísceras tem muitos anos que deixou de ser um subproduto. Hoje ela disputa oportunidades dentro da fábrica de ração, com o farelo de soja, óleos e outros ingredientes, justamente por ser um produto de altíssima qualidade e com custo competitivo.”
Segundo Vidor, as farinhas de origem animal oferecem uma combinação importante de qualidade nutricional e competitividade econômica.
“As farinhas, quando produzidas com boa qualidade, têm capacidade de entrar nas fórmulas, baixar o custo produtivo e melhorar o desempenho zootécnico, deixando o animal com maior capacidade de ganho de peso.”
Na avaliação do especialista, o cenário atual favorece ainda mais a utilização desses ingredientes, especialmente em razão da valorização do complexo soja. Segundo Vidor, nunca houve tanta oportunidade para a entrada das farinhas nas fórmulas como agora. A demanda aquecida pelo complexo soja, segundo ele, abriu espaço para ingredientes que tornam as formulações mais competitivas e com menor custo.
Agilidade como fator qualidade
A qualidade da farinha de vísceras, no entanto, depende diretamente da rapidez com que a matéria-prima é processada após o abate. Segundo Vidor, quanto menor o tempo entre a geração da víscera e sua transformação em farinha, melhores são as características nutricionais e sanitárias do produto.
“Quanto mais rápido acontece o processo de transformar a víscera em farinha, melhor é a qualidade. Você obtém uma proteína mais alta, baixos índices de peróxidos e uma matéria-prima mais digestível para os animais.”
Ele explica que, embora cada empresa trabalhe com critérios próprios de controle de qualidade, fatores como elevado teor de proteína, baixa umidade, baixos índices de oxidação e ausência de rancidez são fundamentais para atender às exigências da indústria de alimentação animal.
“O mais importante é entregar essas vísceras ao processo o mais rápido possível. Quando esse tempo é reduzido, o resultado é uma farinha de melhor qualidade e melhor desempenho zootécnico no campo.”
Para garantir esse padrão de qualidade, a indústria também investiu em mudanças estruturais. Segundo Vidor, uma das principais evoluções foi aproximar as fábricas de farinha e óleo (FFO) das plantas frigoríficas, reduzindo significativamente o tempo entre o abate e o processamento.
“Hoje o conceito é ter a fábrica de farinha muito próxima da planta de abate. Em muitos casos ela fica dentro da mesma unidade. As vísceras chegam rapidamente ao processamento, preservando sua qualidade.”
Além da proximidade física, os investimentos passaram a priorizar o controle da oxidação, da contaminação microbiológica e do tempo de processamento. Segundo o zootecnista, o investimento na redução do tempo de processamento colabora com o controle de salmonella e oxidação. Quanto mais rápido o processo, melhor é a farinha, melhor é o óleo e maior é o aproveitamento pelos animais.
O especialista destaca ainda que a evolução tecnológica permitiu o desenvolvimento de ingredientes de maior valor agregado, como farinhas com teor proteico próximo de 70%, destinadas principalmente ao segmento premium de alimentos para cães e gatos.
Saúde instestinal do animal como prioridade em componentes nutricionais
Do ponto de vista nutricional, Ingrid Caroline acredita que a saúde intestinal continuará sendo um dos principais pilares da nutrição animal nos próximos anos, especialmente diante da redução do uso de antibióticos promotores de crescimento.
“Prebióticos, fibras funcionais, ácidos orgânicos, leveduras e seus derivados, além de proteínas de alta digestibilidade, devem ganhar ainda mais espaço.”
Segundo a pesquisadora, esses ingredientes auxiliam na modulação da microbiota intestinal, fortalecem a integridade da mucosa, estimulam a resposta imune e melhoram a digestibilidade dos nutrientes, refletindo em melhor conversão alimentar, maior eficiência produtiva e menor incidência de distúrbios entéricos.
Ela também observa um crescimento da nutrição de precisão, baseada na utilização estratégica de ingredientes e aditivos, conforme a fase produtiva e os desafios sanitários enfrentados pelos sistemas de produção.
Na avaliação de Ingrid, o principal desafio da nutrição animal na próxima década será equilibrar sustentabilidade, eficiência produtiva e viabilidade econômica.
“Será necessário produzir mais utilizando menos recursos, reduzir a emissão de gases de efeito estufa, otimizar o uso de matérias-primas e atender às crescentes exigências dos consumidores por sistemas produtivos mais responsáveis.”
Embora reconheça os avanços obtidos com novos ingredientes, aditivos funcionais e ferramentas de nutrição de precisão, a especialista ressalta que ainda existem desafios relacionados à padronização da qualidade dos ingredientes alternativos, à disponibilidade de matérias-primas e aos custos de adoção de novas tecnologias. Para ela, o futuro da nutrição animal dependerá da integração entre pesquisa, inovação e sustentabilidade.
“As empresas que investirem em ciência, controle de qualidade e soluções nutricionais personalizadas estarão mais preparadas para atender às demandas do mercado, mantendo elevados índices de desempenho zootécnico e competitividade.”
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