Vantagem existe, mas precisa ser qualificada
A ração continua sendo o principal componente do custo de produção do frango brasileiro e segue como uma das bases da competitividade nacional. Mas a margem da avicultura já não pode ser interpretada apenas pela lógica de milho, farelo de soja e conversão alimentar. Em palestra no painel “Retorno do Investimento na Nutrição”, realizado em 13 de maio, durante a 36ª Reunião Anual do CBNA, Marcelo Miele, da Embrapa Suínos e Aves, mostrou que a vantagem brasileira em custos permanece relevante, mas passa a conviver com uma estrutura de despesas mais complexa.
Vantagem existe, mas precisa ser qualificada
O dado reforça a importância da nutrição para a competitividade da avicultura brasileira. Ao mesmo tempo, a própria apresentação indicou que o custo de produção precisa ser lido dentro de um ambiente mais amplo. Segundo Miele, a competitividade revelada nas cadeias de aves e suínos aparece em produção, exportação, participação global e consumo, mas é sustentada por diferentes fatores de custo, produtividade, organização produtiva, câmbio e estrutura de mercado.
No caso do frango brasileiro, a disponibilidade de grãos, a escala produtiva, a integração, a eficiência zootécnica e a organização industrial ajudam a explicar a posição brasileira. Porém, a vantagem não é imune a choques externos. Pandemia, guerra na Ucrânia, ciclos de alta dos insumos, câmbio, juros, clima, sanidade, biocombustíveis e competição internacional entre proteínas podem mudar rapidamente a equação de margem.
A palestra também apresentou o caso do Paraná, principal estado produtor de frangos do país. No slide de 2017 a 2026, o custo para frango em 2026 apareceu em R$ 4,72/kg vivo, com participação da ração em torno de 63,4%. A sequência histórica, segundo a leitura do painel, ajuda a mostrar que a ração continua sendo o item de maior peso, mas que outros componentes vêm ganhando relevância no custo total.
O custo que cresce fora da fórmula
Entre os itens citados por Miele como custos que tendem a ampliar participação estão vacinas, biosseguridade, mão de obra contratada, capacitação, digitalização, automação, ambiência, geração de energia, manutenção, seguro, valorização de resíduos, certificação, rastreabilidade e adequação a mudanças normativas. Para a avicultura, esse bloco é especialmente importante porque conversa diretamente com a realidade de uma cadeia exposta a desafios sanitários, exigências comerciais e pressão por maior controle de processos.
A influenza aviária, por exemplo, apareceu na apresentação dentro de uma leitura mais ampla sobre doenças emergentes e reemergentes. A sanidade impacta custos quando exige mais investimento em biosseguridade, vigilância, protocolos e proteção do sistema produtivo. Mas também pode interferir em oferta, demanda, comércio internacional e preços, o que torna a gestão de risco uma parte da competitividade econômica.
A automação, a ambiência e a geração de energia também entram nessa conta. Elas podem melhorar eficiência, reduzir perdas e ampliar controle, mas exigem capital, manutenção, seguro e mão de obra capacitada. Em ambiente de juros elevados ou de maior limitação de investimento, a tecnologia passa a ser avaliada não apenas pelo ganho técnico, mas pela capacidade de sustentar margem.
Nutrição segue central, mas não isolada
Para a avicultura, a principal leitura da palestra é que a nutrição continua sendo decisiva, mas precisa ser analisada em conexão com a cadeia. O peso da ração no custo brasileiro mostra que formulação, matriz de ingredientes, volatilidade de milho e farelo, uso de coprodutos, logística, energia e precisão nutricional seguem como variáveis críticas. Ainda assim, a margem final depende também de sanidade, ambiência, desempenho industrial, exigências de mercado, câmbio e estrutura de custos fora da dieta.
Miele defendeu a necessidade de fortalecer estatísticas públicas e gerar mais valor a partir dos dados de custo. A proposta inclui qualificar informações sobre rações, sanidade e instalações, construir cenários, avaliar impactos de tecnologias e choques de oferta ou demanda e envolver stakeholders na discussão dos resultados. Para a avicultura, essa abordagem permite transformar custos em ferramenta de planejamento, não apenas em diagnóstico retrospectivo.
A leitura deixada pelo painel é que o Brasil mantém uma posição competitiva relevante no frango, mas a vantagem precisa ser protegida. A ração ainda sustenta grande parte da diferença, porém a nova estrutura de despesas coloca outras variáveis no centro da margem. Em um cenário de maior pressão sanitária, regulatória, climática e financeira, competitividade passa a depender da capacidade de integrar nutrição, gestão de custos, tecnologia, biosseguridade e inteligência econômica.
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