
Sandra Bonaspetti
A pressão da União Europeia sobre o uso de antimicrobianos em animais de produção ampliou o debate na avicultura brasileira. Mais do que retirar promotores de crescimento das rações, o novo cenário exige que sistemas produtivos sejam capazes de demonstrar, com rastreabilidade, quando, como e por que antimicrobianos são utilizados com finalidade terapêutica.
O tema apareceu com força no XVII Simpósio Goiano de Avicultura, durante a palestra “Produção avícola isenta de antimicrobianos”, apresentada por Sandra Bonaspetti, consultora técnica exclusiva da Phibro Saúde Animal para aves e suínos. Na sequência, a discussão sobre “Avaliação e uso adequado de ingredientes na formulação de dietas avícolas”, conduzida por Sebastião Borges, diretor de Nutrição da Vaccinar, ajudou a mostrar por que a transição para sistemas com menor uso de antimicrobianos aumenta a importância da qualidade da ração, da saúde intestinal e da previsibilidade do processo produtivo.
Sandra Bonaspetti
“Para a gente não usar mais antibióticos, principalmente promotores de crescimento, temos que focar em saúde intestinal”, afirmou Sandra.
Segundo ela, a integridade intestinal envolve digestão e absorção de nutrientes, barreira contra patógenos e toxinas, microbiota diversa e estável, sistema imunológico intestinal eficaz e capacidade neuroendócrina adequada.
A abordagem é relevante porque os problemas gastrointestinais seguem entre os principais motivos de uso de antimicrobianos na produção avícola. Sandra citou enterites, disbacterioses e coccidiose como desafios que pressionam a saúde intestinal e podem ampliar a necessidade de intervenções terapêuticas quando o sistema produtivo não atua de forma preventiva.
No debate após as palestras, a principal provocação vinda do setor não foi sobre qual produto substituiria os antibióticos. A pergunta central foi como o Brasil pode comprovar controle transparente sobre o uso terapêutico de antimicrobianos, incluindo prescrição veterinária, manipulação, descarte e rastreabilidade.
A resposta de Sandra diferenciou dois pontos que muitas vezes aparecem misturados na discussão pública. De um lado, está a retirada de promotores de crescimento, de outro, está o uso terapêutico, necessário quando há enfermidade. Segundo ela, antimicrobianos terapêuticos são usados na Europa, no Brasil e globalmente, e continuarão sendo utilizados quando houver necessidade de tratamento. O ponto crítico é demonstrar uso responsável.
“É possível fazer? Sem dúvida”, disse Sandra, ao comentar a rastreabilidade do uso terapêutico em sistemas integrados. Ela afirmou já ter trabalhado em empresas em que esse controle era muito claro, com capacidade de rastrear frangos desde a granja até o abate e o contêiner. O desafio, observou, está em demonstrar esse processo de forma consistente às missões e aos mercados que demandam comprovação.
A discussão também expôs uma assimetria tecnológica dentro da cadeia. Grandes agroindústrias e cooperativas tendem a ter mais estrutura para registrar, controlar e demonstrar o uso de medicamentos. Já produtores menores, embora façam parte do mesmo ecossistema produtivo, podem enfrentar mais dificuldade para adotar o mesmo nível de documentação e controle.
Para Sandra, a transição para uma produção com menor uso de antimicrobianos não deve ser entendida como a simples troca de uma molécula por outra ferramenta. No debate, ela reforçou que não existe uma solução única ou um “pozinho mágico” capaz de substituir o antibiótico e preservar, sozinho, o desempenho produtivo.
“Não tem uma solução só”, afirmou. Na avaliação da especialista, a resposta passa por ambiência, manejo, nutrição, sanidade, biosseguridade, qualidade da água, controle de jejum, redução de estresse térmico e uso criterioso de aditivos funcionais.
Entre os fatores de manejo e ambiência que afetam a saúde intestinal, Sandra destacou contaminação microbiana, limpeza e desinfecção, qualidade do pintinho, qualidade da água, biosseguridade, controle de visitantes, equipamentos, densidade de alojamento, estresse por calor, estresse por frio e interrupções no fornecimento de ração.
Na nutrição, a lista é igualmente ampla. Proteína mal digerida, ingredientes de baixa digestibilidade, gordura oxidada, micotoxinas, fatores antinutricionais, fibras que aumentam a viscosidade intestinal, granulometria inadequada e falhas no processamento térmico da ração podem comprometer a barreira intestinal, favorecer disbiose e aumentar a pressão por tratamentos.
A especialista também destacou que ferramentas como enzimas, probióticos, prebióticos, ácidos orgânicos, fitogênicos, leveduras, vitaminas e microminerais podem contribuir para a saúde intestinal, desde que inseridas em uma estratégia mais ampla. O papel desses aditivos, explicou, é apoiar a capacidade da ave de resistir a desafios, preservar a integridade intestinal e reduzir processos inflamatórios que desviam energia do crescimento ou da produção.
A palestra de Sebastião Borges ampliou esse raciocínio ao levar o debate para a origem do alimento fornecido às aves. Segundo ele, falhas na compra, na avaliação, no armazenamento e no processamento dos ingredientes comprometem a previsibilidade técnica, econômica e sanitária do sistema.

Sebastião Borges
“Se comprou errado o milho, não é igual. Vai dar diferente, não vai dar o planejado”, afirmou. Para o nutricionista, a produção avícola precisa ser vista como uma cadeia integrada, em que a escolha do fornecedor, a análise laboratorial, a qualidade do ingrediente, a formulação e a fábrica de ração impactam a resposta zootécnica e imunológica dos animais.
Sebastião defendeu maior integração entre comprador, nutricionista, fábrica e controle de qualidade. Segundo ele, o comprador é um agente decisivo da cadeia, porque uma decisão inadequada na aquisição de matérias-primas pode comprometer o resultado antes mesmo de a ração chegar à granja.
Milho, farelo de soja, ingredientes alternativos, DDG, sorgo, farinhas de origem animal, fontes de gordura e aditivos precisam ser avaliados não apenas pela composição nutricional, mas também por contaminantes, fatores antinutricionais, granulometria, compatibilidade entre ingredientes, qualidade física e risco microbiológico.
“O animal tem exigência de ingrediente? Não. Animal tem exigência de nutrientes”, resumiu Sebastião, ao defender que formulações baseadas apenas em substituições de ingredientes podem falhar se não houver conhecimento real da composição, da digestibilidade e das limitações de cada matéria-prima.
Em um cenário de menor uso de antimicrobianos como ferramenta preventiva, esse controle ganha peso adicional. Como observou Sandra, a ração pode atuar tanto como suporte à saúde intestinal quanto como fonte de desafio, caso carregue proteína mal digerida, micotoxinas, gordura oxidada, patógenos ou fatores que aumentem a inflamação intestinal.
A convergência entre as duas palestras aponta para uma mudança de abordagem. A retirada de promotores de crescimento não elimina a necessidade de antimicrobianos terapêuticos, mas aumenta a responsabilidade sobre seu uso e torna mais visíveis as falhas antes mascaradas por ferramentas antimicrobianas de uso contínuo.
Para a avicultura brasileira, a pressão internacional tende a acelerar a adoção de sistemas mais robustos de documentação, rastreabilidade e gestão técnica. Ao mesmo tempo, reforça a necessidade de reduzir desafios sanitários antes que eles resultem em tratamento, por meio de melhor ambiência, manejo, biosseguridade, qualidade de água, nutrição de precisão e controle efetivo da ração.
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