Laringotraqueíte circula com diferentes genótipos e reforça alerta para biosseguridade Por aviNews Brasil | Simpósio Goiano de Avicultura
Laringotraqueíte circula com diferentes genótipos e reforça alerta para biosseguridade Por aviNews Brasil | Simpósio Goiano de Avicultura
A laringotraqueíte infecciosa voltou ao centro das discussões sanitárias da avicultura brasileira não apenas pela ocorrência da doença, mas pela complexidade que sua circulação vem assumindo no país.
Em palestra no Simpósio Goiano de Avicultura, Roselene Ecco, professora da Escola de Veterinária da UFMG, apresentou dados de pesquisas conduzidas em parceria com o serviço veterinário oficial e reforçou que o vírus já não pode ser observado como um problema restrito a um único ponto do mapa ou a uma leitura simples de diagnóstico.
Segundo a pesquisadora, a doença tem uma característica que muda toda a lógica de controle, que é a capacidade do vírus de estabelecer latência. Isso significa que aves infectadas podem permanecer portadoras e voltar a eliminar o agente em situações de estresse ou queda de resistência.

Na prática, o controle da laringotraqueíte depende de uma combinação entre diagnóstico correto, vigilância, controle de movimentação, vacinação quando indicada, manejo de fatores de risco e biosseguridade. A informação mais relevante apresentada por Roselene foi a identificação de diferentes genótipos do vírus em circulação.
A partir de estudos de sequenciamento e análise genética, a pesquisadora mostrou que há vírus de campo distintos no Brasil, com achados relacionados a regiões como Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina e Paraná. Também foram relatadas detecções em aves de subsistência, o que amplia a preocupação com a interface entre produções comerciais, aves de quintal e trânsito não controlado de animais.
Esse cenário reforça a necessidade de olhar para a laringotraqueíte como um desafio de sistema. A doença é respiratória, viral, altamente contagiosa, podendo causar mortalidade importante, perdas produtivas e restrições de movimentação, mas seu impacto não depende apenas da presença do agente.
A severidade dos surtos também é influenciada por fatores como idade das aves, características do vírus, ambiência, concentração produtiva, frio, estresse e qualidade das medidas de controle adotadas nas propriedades. Roselene também chamou atenção para um ponto sensível para veterinários de campo e laboratórios: PCR positivo não é, isoladamente, sinônimo de surto.
O vírus pode ser detectado em aves portadoras ou em estado de latência, sem que haja doença clínica naquele momento. Por isso, a confirmação deve considerar sinais clínicos, lesões macroscópicas, histopatologia e coleta adequada de material. A mensagem é importante em um momento em que a disponibilidade de testes moleculares aumenta, mas a interpretação epidemiológica continua decisiva.
Na mesma linha, a vacinação foi apresentada como ferramenta relevante, mas não como solução isolada. A escolha da vacina, o momento de uso, a cobertura do lote e o contexto epidemiológico precisam estar integrados a outras medidas.
Em determinadas regiões, estratégias vacinais contribuíram para reduzir episódios clínicos, mas a própria natureza latente do vírus e a possibilidade de circulação silenciosa exigem monitoramento e disciplina sanitária permanente. Foi nesse ponto que a palestra de Nelva Grando, médica-veterinária e consultora em sanidade avícola e biosseguridade, deu sustentação prática ao debate.

Biosseguridade: alicerce da avicultura
Para ela, biosseguridade não deve ser tratada como um tema básico, mas como o alicerce do desempenho, da sanidade e da qualidade do alimento. Mais do que cumprir normas, a questão é avaliar o risco real de cada sistema produtivo.
Um dos exemplos mais fortes foi o do caminhão de ração. Nelva questionou a eficácia de lavar uma vez por mês um veículo que pode acessar dezenas de propriedades no mesmo período. Também chamou atenção para arcos de desinfecção que atuam apenas na entrada, para barreiras mal dimensionadas diante de caminhões maiores e para a necessidade de considerar tanto a entrada quanto a saída de veículos. O problema, nesse caso, não é a existência da medida, mas sua capacidade real de reduzir risco.
A mesma lógica vale para práticas aparentemente simples, como trocar calçado, que segundo Nelva, só funciona quando há separação clara entre área limpa e área suja. Manter área de biosseguridade limpa não é exigência estética, mas barreira contra matéria orgânica, roedores, aves silvestres e outros vetores.
A medida que funcionava em aviários menores, com baixa concentração de aves, segundo ela, não necessariamente responde ao risco de núcleos modernos com centenas de milhares de animais. Para sistemas mais concentrados, a avaliação deve considerar escala, fluxo de pessoas, veículos, cama, água, destino de aves mortas, proximidade entre granjas e impacto econômico de uma eventual falha.
A convergência entre as duas palestras deixa uma mensagem objetiva para agroindústrias, técnicos, veterinários e produtores: a laringotraqueíte evidencia que controle sanitário não depende de uma única ferramenta. A presença de diferentes genótipos, a latência do vírus, a interface com aves de subsistência e a possibilidade de falhas operacionais tornam a biosseguridade ainda mais estratégica.
Para um setor tecnificado como a avicultura brasileira, o desafio não está em conhecer a cartilha. Está em transformar medidas conhecidas em rotina auditável, integral e coerente com o risco de cada granja.
Diante de agentes capazes de persistir, circular e se disseminar por detalhes operacionais, biosseguridade deixa de ser apenas protocolo e passa a ser decisão permanente de gestão sanitária.
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