L-arginina: fortalecendo a avicultura contra os desafios do estresse térmico
L-arginina: fortalecendo a avicultura contra os desafios do estresse térmico
O clima tropical do Brasil, marcado por elevadas temperaturas e longos períodos de calor, constitui um dos principais fatores de estresse ambiental para a avicultura. O estresse térmico reduz o consumo de ração, compromete a conversão alimentar, prejudica a função imunológica e, em última instância, impacta negativamente o desempenho produtivo e a eficiência do sistema de criação. Nesse contexto, intervenções nutricionais específicas têm sido amplamente estudadas como alternativas para mitigar esses efeitos adversos. A suplementação de L-Arginina destaca-se como uma estratégia promissora devido às suas múltiplas funções metabólicas.
Diferentemente dos mamíferos, as aves não possuem um ciclo da ureia funcional devido à ausência de atividade da enzima carbamoil-fosfato sintetase, o que impossibilita a síntese endógena de L-arginina a partir da L-ornitina, tornando indispensável o seu fornecimento por meio da dieta (Ball et al., 2007). A arginina exerce papel central no metabolismo energético e proteico, atuando como precursora da creatina por meio da formação de ácido guanidinoacético no fígado; esta, ao ser fosforilada e armazenada como fosfocreatina no músculo, possibilita rápida regeneração de ATP em condições de elevada demanda energética, aspecto particularmente relevante em linhagens modernas de frangos de corte, caracterizadas por altas taxas de crescimento em curtos intervalos de tempo (Wu, 2013).

Além de sua função estrutural como substrato para a síntese de proteínas, a arginina também participa de mecanismos de sinalização celular, modulando a via mTOR, que regula a síntese proteica por meio da ativação de proteínas-chave como p70S6k, 4E-BP1 e eIF4G, favorecendo tanto a tradução quanto a elongação do RNAm (Rogero & Tirapegui, 2008). Evidências experimentais indicam que a suplementação de L-arginina aumenta a expressão de mTOR e reduz a degradação proteica (Miao et al., 2017; Yuan et al., 2015), ressaltando seu efeito positivo sobre o anabolismo e a eficiência metabólica em aves.
A arginina atua como substrato da enzima óxido nítrico sintase, que a converte em óxido nítrico, molécula envolvida em processos essenciais como a modulação da angiogênese, da resposta imune, da regulação da temperatura corporal e da vasodilatação, entre outras funções (Fernandes & Murakami, 2010). Embora dietas comerciais à base de milho e soja atendam às exigências de arginina digestível em frangos de corte, a inclusão de ingredientes alternativos com baixo teor desse aminoácido pode resultar em dietas deficientes.
Além disso, a tendência crescente da indústria avícola de reduzir os níveis de proteína bruta nas formulações torna essencial o conhecimento preciso das exigências de todos os aminoácidos essenciais, assegurando que a redução proteica não comprometa o desempenho e a saúde das aves.

Dada a versatilidade da arginina como aminoácido, qualquer processo fisiológico que comprometa a homeostase animal, como o estresse térmico ou desafios imunológicos, pode potencialmente afetar sua repartição no metabolismo pós-absortivo, alterando assim sua eficiência de utilização (Nogueira et al., 2021). Klasing (2007) observou que as exigências por aminoácidos podem aumentar até sete vezes quando o sistema imunológico é ativado, principalmente devido à produção de anticorpos e à síntese de proteínas de fase aguda.
Espera-se que a ativação do sistema imunológico influencie significativamente a deposição de aminoácidos, uma vez que a eficiência de utilização proteica para fins de resposta imune provavelmente será modificada (Kyriazakis & Sandberg, 2006). Durante desafios à saúde, os animais elevam as concentrações plasmáticas de óxido nítrico, indicando uma mudança na priorização metabólica da arginina, o que pode impactar a previsão da eficiência de utilização para deposição proteica e exigências de crescimento (Lowenstein et al., 1994; Khajali et al., 2010; Rochell et al., 2017). Assim, é fundamental destacar que a exigência de arginina pelas aves é altamente dependente das condições de criação que elas são inseridas.
O aumento da suplementação de L-arginina em dietas de aves criadas sob estresse térmico é uma estratégia eficaz. Sirathompong et al. (2019) investigaram o efeito do aumento da razão arginina:lisina (Arg:Lys) em condições de altas temperaturas, recebendo cinco dietas com diferentes proporções Arg:Lys: 0,85; 0,95; 1,05; 1,16 e 1,26. O estudo demonstrou melhorias consistentes na conversão alimentar sem comprometer o crescimento ou o peso médio dos animais (resultados apresentados na Figura 1). Sob estresse térmico, órgãos como intestino delgado, fígado e baço estão sujeitos a condições isquêmicas e hipóxias.

Figura 1. Efeito da arginina sobre o rendimento de carcaça e a conversão alimentar de frangos de corte criados sob condições de estresse térmico.
Nessa situação, a arginina desempenha um papel crucial, promovendo vasodilatação e modulando o fluxo sanguíneo, o que pode explicar sua importância funcional durante períodos de estresse por calor. Os benefícios da suplementação extra de L-arginina também foram confirmados em um estudo conduzido na Universidade de Chungbuk, na Coreia do Sul (2023), que avaliou diferentes relações arginina:lisina digestível (95%, 105%, 115% e 125%) em frangos de corte submetidos a estresse térmico cíclico (Figura 2). Observou-se que níveis mais elevados de arginina promoveram aumento progressivo no peso corporal, além de melhora significativa na conversão alimentar (1,35 no nível de 125% Arg:Lys). Esses resultados representam um ganho adicional de 115 g de peso e uma redução de 0.18 pontos no CA em comparação ao nível de 105%.
Portanto, a suplementação de L-arginina é essencial para frangos de corte, sobretudo em condições de estresse térmico ou dietas com proteína reduzida. Suas funções no metabolismo energético, na síntese proteica e na regulação imunológica tornam-na estratégica para manter a saúde, a produtividade e a eficiência metabólica, devendo sua inclusão ser ajustada de forma dinâmica às condições de criação.

Figura 2. Efeito da arginina sobre o peso e a conversão alimentar de frangos de corte criados sob condições de estresse térmico.
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Referencias bibliográficas
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Rochell, S. J., Helmbrecht, A., Parsons, C. M., & Dilger, R. N. (2017). Interactive effects of dietary arginine and Eimeria acervulina infection on broiler growth performance and metabolism. Poultry Science, 96(3), 659–666.
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