Como o estresse térmico impacta na produção de frangos de corte? Parte II
Como o estresse térmico impacta na produção de frangos de corte? Parte II
Após compreender os mecanismos moleculares do estresse térmico, avançamos para as consequências palpáveis no campo e as soluções baseadas em evidências. O impacto do calor não se limita ao desconforto; ele redefine a eficiência do sistema digestório e a capacidade de defesa do organismo dos frangos, refletindo diretamente na qualidade final do produto que chega ao consumidor.
O Colapso da Barreira Intestinal: O Fenômeno “Leaky Gut”.
Sob altas temperaturas, o organismo das aves prioriza o resfriamento periférico, realizando um desvio do fluxo sanguíneo (vasoconstrição) das vísceras para a pele e extremidades. Este processo causa hipóxia (falta de oxigênio) e isquemia nas células do trato gastrointestinal.

O resultado técnico é a degradação das vilosidades intestinais — as estruturas responsáveis pela absorção de nutrientes — e o rompimento das “tight junctions” (proteínas de união oclusiva, como a claudina e a oclusina). Quando essas uniões falham, ocorre o fenômeno conhecido como “Leaky Gut” ou Intestino Permeável. Isso permite que patógenos (como Salmonella e Campylobacter) e endotoxinas bacterianas atravessem a parede intestinal e entrem na circulação sistêmica. O artigo ressalta que essa translocação não apenas causa inflamação crônica, mas compromete severamente a segurança alimentar da carcaça no momento do abate.
Imunossupressão e Vulnerabilidade a Doenças
O estresse térmico atua como um potente agente imunossupressor. O excesso de corticosterona (discutido na Parte 1) causa a involução de órgãos linfoides importantes, como a Bursa de Fabricius e o Timo.

Aves sob estresse térmico apresentam contagens significativamente menores de linfócitos circulantes e uma redução na produção de anticorpos após a vacinação. Isso cria um problema logístico e sanitário: o produtor investe em protocolos vacinais caros, mas o sistema imunológico da ave, ocupado em combater os danos do calor, não consegue gerar uma resposta protetora adequada. Consequentemente, lotes estressados pelo calor são mais suscetíveis a surtos de doenças virais e bacterianas que, em condições de conforto, seriam facilmente controladas.
Qualidade da Carne e Alterações Físico-Químicas
O impacto econômico estende-se ao frigorífico. O artigo detalha como o estresse térmico agudo antes do abate altera as reservas de glicogênio muscular. O resultado é a carne do tipo PSE (Pálida, Mole e Exsudativa). O calor acelera a glicólise pós-morte, causando uma queda rápida do pH enquanto a carcaça ainda está quente. Isso desnatura as proteínas musculares, reduzindo a capacidade de retenção de água da carne. Para o leitor do site, isso se traduz em perdas financeiras por “quebra” de peso no resfriamento e uma carne com textura e cor indesejadas pelo mercado consumidor.

Conclusão e Perspectivas Futuras
A mitigação eficaz requer a integração entre engenharia de ambiência (galpões com ventilação por túnel e nebulização), nutrição de precisão e, futuramente, a seleção genética de linhagens que possuam genes de tolerância ao calor (como o gene do “pescoço pelado” ou “penas reduzidas”), que embora menos estéticos, oferecem maior resiliência biológica. A sustentabilidade da avicultura mundial dependerá da nossa capacidade de adaptar a fisiologia da ave ao novo clima global. frangos
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O artigo completo com todas as referências está disponível em Open-Acess pelo link https://www.mdpi.com/2674-1164/3/2/10
Apalowo, OO; Ekunseitan, DA; Fasina, YO. Impacto do estresse térmico na produção de frangos de corte. Poultry 2024 , 3 , 107-128. https://doi.org/10.3390/poultry3020010
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